Tanto no Brasil, quanto no cenário mundial o clima está muito semelhante, pelo menos no campo futebolístico. Após o tsunami que revelou as criminosas e pútridas entranhas do futebol mundial, Joseph Blatter, presidente da Fifa, forçadamente renunciou, mas ainda alimenta a vontade de continuar, depois de ter recebido sinal verde de algumas federações. Após ser sacudido no mar de lama por onde navega a mater do futebol mundial, ele prepara o seu retorno, talvez apostando na parca memória popular e na grande malha que foi criada pela centenária entidade, exatamente para proteger seus dirigentes.
Esta engenhosa e repugnante teia corporativa é semelhante com o que acontece na política e na direção do futebol brasileiro, de norte a sul deste país. Não são recentes as denúncias contra a Fifa, a CBF e as federações estaduais que regem a modalidade esportiva mais popular do planeta, bem como as mordomias e a grande quantidade de dinheiro movimentada por estas entidades. São comuns, nestas instituições, o encastelamento no poder, a falta de transparência, as transações nunca explicadas, os longos mandatos, os altos salários e a falta de alternância dos poderosos dirigentes, aliados à “imunidade”, e fazem com que países se curvem para não serem banidos do futebol mundial.
Nos estados vemos essa falta de alternância, enquanto o futebol continua decaindo ou sobrevivendo sem progredir. Muito apego a esses cargos e a luta para se perpetuar no poder já prenuncia algo suspeito. Pessoas que nunca chutaram uma bola se tornaram poderosas e endeusadas. Antes da Copa o Brasil engoliu as prepotentes exigências públicas de Jerome Valker. E vejam no que deu.
O cartão vermelho foi dado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, utilizando acordo com a Suíça. A procuradora-geral dos EUA, Loretta Flynch, afirmou que a ação está apenas no primeiro tempo. Incomoda demais, mas o poder e o dinheiro, desde tempos imemoriais, movimentam o mundo. Houve corrupção generalizada durante as duas últimas décadas, como em relação à escolha das sedes para a Copa do Mundo de 2018, na Rússia, e aos contratos de marketing e de direitos de televisão.
José Maria Marin, ex-presidente da CBF e que tinha até nome em placa na sede da entidade, foi um dos presos por extorsão e corrupção, enquanto que José Hawilla, dono da poderosa Traffic, empresa de marketing esportivo, devolveu R$ 473 milhões com acordo e confissão, assumindo no ano passado as acusações de conspiração por fraude eletrônica, lavagem de dinheiro e obstrução da Justiça.
É uma tristeza, mas que deve servir de alerta e para uma reformulação administrativa e financeira do nosso futebol, ainda o mais vitorioso do planeta, apesar da desorganização e dos irreais salários pagos a jogadores e treinadores. Lastimavelmente, a corrupção é uma metástase que não poupa nenhuma organização. Para o Brasil, mais uma nódoa, além das que internamente têm magoado a consciência nacional.
Enquanto testemunhamos José Maria Marin, ex-presidente da CBF ser extraditado, não se pode ainda prever o destino de cada um dos cartolas indiciados pela Justiça dos EUA. Mas a única certeza é de que o golpe foi profundo e coloca a nau hexa campeã à deriva, num mar de lama e de incertezas.
*Coordenador do Programa de Educação Fiscal/AM
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* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.