Nunca antes, na história desse País, um senador da república, em pleno exercício do mandato, havia sido preso e levado para a cadeia, tudo na mesma manhã. Bem, não é uma cadeia dessas que todos estão acostumados a ver através dos noticiosos, com escavação de túnel, facas escondidas, rebeliões e, geralmente, compõem ambientes insalubres e fétidos. Um horror, na grande maioria delas são depósitos de seres humanos. Mas, é verdade, o senador Delcídio Amaral, do Partido dos Trabalhadores, líder do governo no Congresso Nacional e ex-governador do estado do Mato Grosso, está na cadeia.
Pesa contra ele, o padrinho político de Nestor Cerveró, e contra os demais implicados presos, a tentativa veemente de atrapalhar as investigações do escandaloso processo “Lava Jato”. Todo esse acontecimento, envolvendo polícia e presos, até poderia passar como um fato corriqueiro do dia a dia, desses que recheiam as páginas de polícia e dão audiência em telejornais, mas não é.
Trata-se de uma crime muito maior e pior, que causa asco e repulsa de todo cidadão, de toda cidadã, de todos que ainda nutrem um mínimo de credibilidade e seriedade pelas instituições públicas, pelo Estado e pelos poderes constituídos da nação. Um desastre político sem precedentes, uma atuação tipicamente mafiosa, como classificou o procurador chefe da República, Rodrigo Janot.
Como pode um senador, um homem letrado que conhece as leis, pois sua atividade parlamentar inclui o estudo e elaboração das mesmas, pode atentar contra as próprias leis que jurou defender? Como pode uma pessoa paga com dinheiro público (e bota dinheiro nisso) revelar ser, na vida real, um criminoso de colarinho branco?
Em meio a ardilosa trama empregada para enganar a opinião pública, atrapalhar as investigações e alimentar uma falsa justiça, foram incluídos nomes de ministros do STF, do vice-presidente e da presidenta da república. Não que isso seja suficiente para condená-los, mas, no mínimo, levanta-se uma suspeita de que o problema é bem maior do que podemos imaginar, pois se não houve, ou se não há participação desse escalão, pelo menos ficou claro que essa possibilidade não é algo utópico.
Vários nomes ilustres vieram à baila e, no bojo, a ministra Carmen Lúcia lembrou que, por ocasião das eleições presidenciais, houve um momento, que um mote de campanha se enraizou por todo o território brasileiro e propagava o apelo para que a esperança vencesse o medo. Passada a euforia das urnas, a tal da esperança venceu, mas logo foi derrotada pelo cinismo institucionalizado politicamente, que acabou sucumbindo diante do escárnio implantado por frutas podres dos poderes. A esperança da ministra é que o escárnio não vença a justiça.
Mesmo diante da inédita prisão de um senador da república, notícia que ganhou repercussão internacional, ainda não temos muito a comemorar, pois 59 de seus colegas de parlamento votaram a favor da manutenção da prisão decretada pelo Supremo Tribunal Federal. Ou seja, a grande maioria pode ter encontrado a oportunidade de eleger um “boi de piranha”, contra outros 13 senadores que preferem manter ativo um cabo de guerra entre os poderes e a transparência pública como algo nefasto e inatingível. Quem vencerá?
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* Auditor fiscal da Sefaz, coordena o Programa de Educação Fiscal no Amazonas.