13/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Operação de guerra é montada para levar voto na estiagem, mas desafio maior é do eleitor que atravessa a pé os rios secos no AM

Publicado em 07 de outubro, 2024

Operação de guerra é montada para levar voto na estiagem, mas desafio maior é do eleitor que atravessa a pé os rios secos no AM, como Diana e Rômulo, da etnia Tikuna. Foto: Chico Batata

Com o cenário que mais parece um mundo invertido, onde as águas em abundância deram lugar a imagens onde a estiagem extrema esvazia leitos de rios, deixando um rastro de barro, lama e terra seca para milhares de amazonenses, uma verdadeira operação de guerra foi planejada e executada para garantir que até nos rincões ainda mais isolados e distantes do Estado os eleitores pudessem exercer o direito a votar na democracia brasileira. No domingo (6/10), o rio Negro marcava 12,41 metros, a menor cota da história de Manaus nos últimos 122 anos de monitoramento da marca. Os recordes estão sendo batidos todos os dias, enquanto o rio vai descendo, mesmo em ritmo menor.

Imagens como caminhadas longas e extenuantes nos leitos secos dos rios, até de canoas sendo carregadas para vencer filetes de água, passando pela fotografia do eleitor carregando o remo até a cabine de votação, entram para a história dos pleitos.

O processo de vazante ainda segue durante o mês de outubro até que a onda de cheia se estabeleça. A última década tem sido marcada por eventos extremos na bacia do rio Amazonas associados às mudanças climáticas. Os anos de 2021 e 2022 foram marcados por grandes cheias, enquanto os de 2023 e 2024 por grandes secas. Os extremos estão cada vez mais presentes no cenário que faz parte do cotidiano ribeirinho de subida e descida das águas.

Operação de guerra

A operação montada pela Justiça Eleitoral, incluindo 8 helicópteros e mais de 100 ações aéreas e centenas de viagens fluviais conjugadas, começou a partir de 28 de setembro, com o transporte de urnas eletrônicas, equipamentos de transmissão e pessoal do Tribunal Eleitoral Regional do Amazonas (TRE-AM).

E a missão foi concluída no primeiro turno com sucesso, permitindo, por exemplo, que o casal Pedro Brito, da etnia Tariana, e Clara Dias, da etnia Tukano, saíssem de uma comunidade ribeirinha no rio Negro, a cerca de 50 quilômetros de Manaus, para poder votar neste domingo. O trajeto antes realizado de barco pela família, precisou ser vencido com uma caminhada de 2 horas pelo leito seco do rio, na última sexta-feira, até alcançar o igarapé do Tarumã, para seguir ao Parque das Tribos.

A presença de eleitores indígenas como Pedro e Clara destaca a importância da inclusão e do respeito às diversidades culturais no processo eleitoral, refletindo o esforço contínuo da Justiça Eleitoral para que todos possam exercer plenamente seu direito à cidadania.

Dezenas fizeram o mesmo caminho no leito seco, como Diana Moçambite e seu filho Rômulo Tuirima, da etnia Tikuna, lindamente registrados pelo fotógrafo Chico Batata. Captando com beleza em preto e branco os percursos e esse mundo novo, invertido, onde sobra terra e falta água, o fotógrafo Raphael Alves, profissional há 20 anos, tem uma série de imagens que circulam o mundo mostrando os extremos da vida amazônica. Cenas como a foto feita na véspera do pleito, na Comunidade do Pesqueiro, em Manacapuru, onde se formam dunas de terra, onde antes abundavam águas.

Comunidade do Pesqueiro, em Manacapuru. Foto: Raphael Alves, em 5/10/24

Eleitor mobilizado

A presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Cármen Lúcia, falou sobre a atenção e a mobilização da Justiça Eleitoral para que a estiagem no Amazonas não impedisse eleitoras e eleitores de votar no 1º turno das Eleições Municipais 2024.

“A estiagem no Amazonas está me deixando sem dormir, porque posso levar a urna, posso levar o mesário ou a mesária – porque a gente atua com o apoio das Forças Armadas brasileiras –, mas o eleitor tem que poder sair da sua casa para votar, para participar nesse dia festivo”, afirmou a ministra Cármen Lúcia, completando ser um grande desafio. “Mas eleições são isso mesmo”, pontuou. E quem também venceu as dificuldades foram os indígenas Pedro e Clara, que votaram ontem na 62.ª Zona Eleitoral, uma das maiores da capital amazonense. A zona, que abrange parte da zona Norte da cidade e localidades da zona rural, tem uma logística diferenciada para atender seus mais de 2 mil eleitores, sendo que mais de 50% deles são autodeclarados indígenas.

Um dos destaques desta eleição da 62.a ZE foi a Escola Municipal Santa Rosa II, localizada no Parque das Tribos, que abriga 36 etnias de povos originários.

Planejamento

“Foi um desafio muito grande. Nós trabalhamos nisso há muito tempo, muito bem planejado. E teremos pessoas envolvidas na eleição que vão ficar 17 dias fora de suas localidade, de suas casas, para levar o direito ao voto a cada eleitor do Estado. Conseguimos colocar as urnas em todas as sessões eleitorais, inclusive nas áreas mais remotas. Aqui, deixo uma nota especial a este esforço de equipe, das forças de segurança, de logística, das Forças Armadas, Exército, Marinha e Aeronáutica, Polícia Militar, Polícia Federal, Polícia Judiciária e todos os servidores e juízes eleitorais que não mediram esforços para enfrentar os desafios impostos pelas distâncias e estiagem”, comentou o presidente do TRE-AM, desembargador João Simões.

Com mais de 2,7 milhões de eleitores, o Amazonas enfrentou mais desafios na logística eleitoral devido à seca que afeta a região. Manaus, o sexto maior colégio eleitoral do Brasil, tem mais de 1,4 milhão de eleitores aptos a votar. As urnas eletrônicas foram enviadas desde agosto, com prazos estendidos e, em algumas áreas remotas, as urnas foram transportadas via helicóptero.

Para garantir que urnas e mesários conseguissem chegar aos municipios que ficaram isolados por conta da seca extrema, o Tribunal, junto com o Ministério da Defesa, enviou os servidores e os aparelhos com uma semana de antecedência por via aérea.

Segundo a Justiça Eleitoral do Estado, 78 locais de votação foram atendidos com apoio de helicópteros esse ano. Em alguns locais de votação há pouco mais de 100 eleitores cadastrados e, ainda assim, o TRE-AM realizou a operação de guerra para garantir que todos tenham acesso a votação.

Estiagem

Conforme a Defesa Civil do Amazonas quase 770 mil pessoas foram diretamente atingidas pela estiagem dos rios da Amazônia. Em muitos casos, suprimentos básicos como alimentos e água precisam ser levados manualmente pela população, atravessando a pé os rios que antes eram navegáveis.

No Amazonas, que conta com 62 municípios, estão 2.749.346 dos 155.912.680 eleitores brasileiros aptos a votar nas Eleições 2024. É o 15º estado brasileiro em número de votantes e o segundo maior do Norte, atrás apenas do Pará, que ocupa a 9ª posição entre todas as unidades da Federação, com 6.226.373 votantes aptos.

Casal Pedro Brito, da etnia Tariana, e Clara Dias, da etnia Tukano. Foto: Chico Batata

Foto: Chico Batata

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