No Rio de Janeiro, com os indispensáveis reflexos vindos de São Paulo, não se fala em outra coisa que não seja a “crise hídrica”, nome pomposo para designar a velha e cansada falta d’água. Cogita-se até em racionamento, admitindo-se a hipótese de que o “precioso líquido” só jorre das torneiras em dois míseros dias durante a semana. É verdade que o calor está infernal e os poetas estariam em maus lençóis se precisassem de uma nuvem como inspiração. Mas eu fico a me perguntar, na minha santa ignorância: isso é alguma novidade? De repente aconteceu, sem que ninguém pudesse sequer imaginar a possibilidade? O tempo se aborreceu e decidiu ficar amuado, castigando a boa gente carioca que, com chuva ou sol, não larga a praia? Fio que não e, se tenho razão, lá me vem outra pergunta: por que não cuidaram disso antes? Com tantos Ministérios e secretarias de Estado, temos a obrigação de dispor de um planejamento que beire a perfeição, principalmente no que diz respeito a fatos previsíveis.
Isso não é de agora. Desde que dona Lucíola ainda me mudava os cueiros, ouço falar, com enfadonha regularidade, na “seca do Nordeste”. Também sempre me chegou aos ouvidos “a adoção de medidas” para combatê-la. E a seca permanece lá, firme e forte, desgraçando milhões de brasileiros que, se não veem o fim do seu flagelo, assistem diariamente ao desvio de verbas supostamente alocadas para a solução do problema. Basta lembrar a tal “transposição do rio São Francisco”. Quase tão chata quanto a prorrogação da zona franca de Manaus, jamais conseguiu sair do papel e o “velho Chico” continua no seu monótono percurso, sem que a engenharia moderna lhe venha perturbar o sossego.
A nossa zona franca, já que dela falei, é outro caso de profunda ofensa à paciência de qualquer monge. Agora conseguiram inserir na Constituição dispositivo que lhe garante a sobrevivência por mais meio século. E daí? Se ela prosseguir sendo tratada como o foi nos primeiros cinquenta anos, vamos chegar ao fim da prorrogação sem fazer gol e, então, nem nos pênaltis será possível concluir a partida. Não entendo nada de economia política (nem quero entender), de sorte que não me venham acusar de estar adentrando a seara do doutor Osíris Silva, conterrâneo que, por sua dedicação, sabe de tudo sobre o assunto. O que eu faço apenas, como ser vivente destas plagas, é me questionar a razão pela qual a zona franca teve como efeitos mais evidentes e indiscutíveis a inchação da capital e a permanência do interior na modorra que o caracteriza desde tempos imemoriais, sem que esse instrumento de política fiscal lhe tenha sido de alguma ajuda.
Outra coisa me vem à lembrança, a partir do questionamento inicial. Qual é o amazonense que não vê, entra ano e sai ano, os jornais noticiarem que uma enorme quantidade de pescado se estraga nos mercados, porque não existe nenhum mecanismo de armazenamento? Outro economista de boa cepa, também conterrâneo, o doutor Mário Bezerra de Araújo, me assegurou que, quando foi secretário estadual de abastecimento, lutou com todas as forças para a implantação de um entreposto (não sei se esse é o nome correto) que permitisse a conservação refrigerada dos peixes durante a abundância, de forma a ensejar a distribuição e o consumo racionais nas épocas de defeso. Foi inútil. Os entraves burocráticos falaram mais alto, para não falar dessa coisa indefinível que se costuma conhecer “falta de vontade política”.
E as nossas enchentes e vazantes, minha gente? Qual a seca nordestina, elas são tão previsíveis que qualquer elaborador de horóscopo é capaz de apontar quando ocorrerão. Mas, não importando o signo do zodíaco em que tenham lugar, parece que sempre causam estranheza, exigindo a decretação dos tais “estados de emergência e calamidade” para atender quem teve suas palafitas alagadas ou aqueles que ficaram sem ter o que comer porque o rio secou. Por que será que tem de acontecer assim? A coluna aceitará, de muito bom grado, sugestões que permitam a este modesto escriba sair das trevas que o cercam em assunto de tamanha relevância.
E, sendo generosos comigo, esclareçam-me também outras questões, não tão cruciais, mas muito intrigantes a seu modo. Por exemplo: por que o Fast Clube não consegue ser campeão? Meus filhos, a família do doutor Luís Alberto e eu (que, por ser o mais velho, sou o que sofre há mais tempo) não conseguimos entender esse fenômeno, da mesma forma como é inexplicável que o boi Garantido tenha mais títulos que o garboso e altaneiro Caprichoso. Acho que, depois de os técnicos cariocas e paulistas terem resolvido a “crise hídrica”, devemos convocá-los e lhes pedir que esclareçam essas duas coisas absolutamente inexplicáveis. Talvez, então, tenhamos o entreposto pesqueiro, a zona franca crie vergonha e faça o que tem de ser feito, e o nosso rio Negro, boçalmente lindo, não alague mais a cidade. E, o mais importante de tudo: mesmo que seja pouco antes de morrer, quero gritar “campeão”, com sete a um do Fast sobre o Nacional. Não perco a esperança.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...