“É preciso divertir a mente de vez em quando, para retornar melhor a si e aos pensamentos.”
Fedro
Passamos, eu, minha esposa e três casais de queridos amigos, um excelente final de semana num hotel de selva da Amazônia. Fica bem perto de Manaus. É só atravessar o rio Negro e lhe cortar as águas de açaí. Aliás, nesse meio de tarde, por volta das 15h, quando atravessamos essas águas, elas já estavam bastante agitadas, com as ondas a acompanhar a embarcação e a produzir espumas alvas como bandos de pequenas garças se banhando.
Situa-se em frente à ilha do Camaleão que, em plena enchente, está submersa, deixando-se assinalar pelas copas verdes de algumas raras árvores que permanecem como que a avisar que ali existe uma ilha.
Na entrada do lago onde flutua o hotel as águas são calmas, lisas como um espelho a refletir os ângulos coloridos da arquitetura e as imagens da floresta em torno, rica em variedade de árvores gigantescas, como que abençoando de paz aquele ambiente cheio de silêncio. A Amazônia é uma região coberta de umidade, produzida pelo excesso de água e de floresta que constituem o cerne de sua geografia. Em cima d’água a umidade é maior. Tanto que as instalações dos barcos regionais, principalmente os camarotes, se não forem bem cuidados, enchem-se de mofo, a oferecer uma situação desagradável aos seus usuários.
Mas nada disso acontece em nenhuma das instalações do Amazon Jungle Palace. Ao contrário, ali se tem a sensação de aspirar aos ares puros da floresta e do rio, tudo bem limpo e asseado. As construções são instaladas sobre balsas gigantescas, plantadas de tal sorte a oferecer à gente, a segurança de estar com as raízes fundadas em terra firme.
Nós, que não somos noviços em assuntos de Amazônia, conhecemos de longe as suas manhas. Sentado à mesa, entretido no jogo de dominó, nem por isso passou despercebido ao Marcos o pitiú que recendia das águas ali perto, e ele informou que naquele momento estava passando por ali, no fundo do lago, um boto ou, na opinião do Walderi, uma cobra, no caso uma sucuri. Noutro dia, de tarde, ouviu-se o canto de um ticoã, ele cantava alegre “ti-ti-ti”, como sinal de que a nossa viagem estava sendo boa. Se ele cantasse “ticoã”, zangado, coisa boa não estaria próximo a acontecer. O Adalto, sempre gozando de tudo e, para não ficar por baixo, disse que logo mais estaria passando por ali um pirarucu. Tudo dentro do espírito de bons amazônidas. E as mulheres não diziam nada, só faziam rir. A não ser quando se reuniam em grupo, longe da mesa de dominó, de onde só se ouviam gargalhadas sobre assuntos que só Deus sabia.
É realmente uma boa pedida. Se nós, que estamos acostumados com as coisas da Amazônia, encantamo-nos com o que vimos, que diriam os nossos visitantes?
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* Elson Farias é jornalista, poeta, escritor, membro da Academia Amazonense de Letras.