O mundo hoje é (e será cada vez mais) da alta tecnologia, o que faz do conhecimento o fator de produção mais importante. O PIM é um polo de produtos de tecnologia, característica que o torna dependente direto de um estoque de conhecimento que nunca teve. Sem conhecimento para criar e inovar, o modelo não se oxigena e, no longo prazo, perderá a capacidade de sobrevivência, ainda que continue escudado nas benesses dos incentivos fiscais.
A atual realidade tecnológica mudou a lógica da produção. Com boa logística não é exigência produzir próximo ao mercado. A unidade fabril pode estar em qualquer lugar do planeta. Instalar-se ao lado dos centros de excelência (onde estão os bons cérebros), este sim, é fator preponderante desse segmento. A glória seria encontrar no mesmo lugar: boa logística, proximidade do mercado, incentivos fiscais e cérebros bem formados.
Lamentavelmente, o PIM, dessas quatro variáveis, só tem os incentivos. É triplamente manco, se é que isto seja possível. A nossa logística é péssima, estamos longe dos mercados e o mais grave de tudo é que formar bons cérebros nunca foi uma das nossas primeiras preocupações.
O Polo, como se disse, trata de tecnologia, mas lá se foram 44 anos e não conseguiu formar uma elite capaz de criar e inovar relativamente em quase nada. O modelo se sustenta, exclusivamente, e parece satisfeito, das benesses dos incentivos fiscais. Um comodismo perigoso e de sobressaltos conhecidos.
Nunca se viu iniciativa que pretendesse motivar as empresas incentivadas a desenvolverem aqui, pelo menos uma pequena parcela dos seus produtos. Este seria o primeiro passo de uma caminhada, atitude que exigiria formação de inteligência afim, o que, por si só, demandaria boas universidades. Seria o início de um ciclo virtuoso. Certamente haveria reações, pois, fabricar se fabrica em qualquer lugar. Criar e inovar, porém, como ficou dito, exige inteligência produzida nos Centros de Excelência, onde a maioria das grandes empresas estruturou seus laboratórios de pesquisa e desenvolvimento.
Isso não é novidade. Outros países agiram assim. Durante esses mesmos 44 anos, Japão, Coréia do Sul, Cingapura, Taiwan e China, mais recentemente, (para citar apenas alguns), escudados no conhecimento, passaram do nada ou de meros copiadores a produtores de alta tecnologia. Iniciaram copiando e fazendo produtos de péssima qualidade.
A China, por exemplo, sai da condição de país eminentemente rural, para se ombrear aos demais. Como saiu atrasado, corre em altíssima velocidade. No campo educacional copia e aperfeiçoa as boas práticas. Acredita que seu desenvolvimento só será possível via aumento do estoque de bons cérebros e toma providências. Em qualquer boa universidade do mundo tem muitos chineses. Nelas, só por iniciativa e conta do governo, estão estudando quase dois milhões de jovens chineses. São futuros novos doutores que vão turbinar o desenvolvimento daquele país, via alta tecnologia e outras consistentes estratégias. Internamente reforça a sua estrutura educacional com qualidade, para formar quantidades extraordinárias dos seus jovens. Prepara-se e já começa a abandonar a cópia barata e a entrar na alta tecnologia criando e inovando. Assim, os seus produtos que há pouco mais de 15 anos eram associados à má qualidade, começam a mudar de conceito.
Ainda que esses exemplos sejam públicos e notórios, não foram suficientes para nos motivar a criar estratégias de curto, médio e longos prazos, que seguissem nessa direção. Se isto tivesse acontecido no PIM, certamente, já estaríamos distantes do processo de criar cópias, clube no qual sequer entramos.
Com essa inércia, o modelo ficou exposto às conhecidas ameaças de toda ordem, inclusive a maior de todas elas: a evolução tecnológica. Sem ela o nosso sistema de defesa tornou-se extremamente frágil ou sequer existe.
O que tem nos salvado é que vivemos num país onde pesquisa, inovação e criação, são, também, deficientes, resultado da péssima educação oferecida e da falta de visão de longo prazo dos governantes. Por enquanto preferimos nos iludir com a exportação de “commodities” e aproveitar os resultados no presente.
Não muito distante está outra grande ameaça: a reforma tributária. Como se sabe, o modelo é todo estruturado em cima dos incentivos fiscais e qualquer mexidinha no sistema tributário nos tira competitividade ameaçando a própria sobrevivência do modelo.
Há ameaças, inclusive nos argumentos usados para preservar o modelo, todos muito frágeis. Tem se repetido à exaustão que os sucessivos recordes de faturamento obtidos ao longo dos anos, o consequente aumento da arrecadação de impostos e a geração de emprego, como fundamento para considerar o modelo inatacável.
Ultimamente, aproveitando-se do momento do “politicamente correto da ecologia”, temos utilizado o argumento da preservação da floresta. Seja nesse ou no outro discurso, invariavelmente se conclui: “A ZFM TEM DE SER PRESERVADA, POIS É O ÚNICO MODELO DE DESENVOLVIMENTO DO PAÍS QUE DEU CERTO”.
Se tais argumentos são fortes do lado econômico, ao meu juízo, tornam-se extremamente frágeis do ponto de vista político de cuja atividade o modelo é inteiramente dependente. Esse reforço deixa o modelo aberto muito mais a ataques e não fortalece a defesa, pois, se testado foi, deu certo, fatura alto, cria muitos empregos, arrecada muitos impostos e é único. Por que não replicá-lo país afora? Qual estado não quer esse milagre? Por que um modelo com todas essas virtudes, num país de tantas carências regionais, tem de ser exclusividade eterna de uma única cidade? Essa cobrança virá.
Outro aspecto a merecer cuidado são as mazelas do passado. Como se sabe, o modelo não era um poço de virtudes. A burla aos PPBs (processos produtivos básicos) e os escândalos de falsificação de destino de notas fiscais e outras peraltices, contribuíram para transmitir aos formadores de opinião, a ideia de que o PIM não passava de uma área de maquiagem de “bugigangas” e de contrabando.
Essa e outras desconformidades foram corrigidas pelo Ministério do Planejamento na década de 90, mas, por ignorância ou má fé, ainda povoa muitas mentes Brasil afora e continua como séria ameaça.
Mesmo dentro das nossas universidades temos ameaças. Nelas, acredita-se ser a iniciativa privada a grande beneficiada dos incentivos fiscais, em favor de quem o governo abre mão de receita tributária. Desconhecem que, quem se apropria do benefício é o consumidor brasileiro, pois, sem o PIM os produtos seriam importados ou fabricados no País com todos os impostos, portanto, muito mais caros.
Para não esquecer é bom que se repita: são 44 anos de inércia e acomodação absolutas. Sempre agimos sobre os efeitos e nunca nas causas. Não produzimos ações capazes de tornar o modelo independente. Ao contrário, apenas reagimos às ameaças constantes. O nosso único objetivo sempre foi lutar por “prorrogações”, absolutamente necessárias, mas insuficientes. A alternativa mais defendida hoje é a extensão da área incentivada e a “perenização” do modelo.
Esse pleito, além de fora de contexto do momento tecnológico atual, mostra uma voracidade que não sei se o país está disposto a aceitar. E se, eventualmente, o fizer, poderá não ter consequência alguma, além de nos acomodar, pois não afasta os reais perigos. Uma simples canetada acaba com tudo.
Propostas dessa natureza podem abrir espaço para questionamentos e levar o Brasil a perder a paciência com as nossas lamúrias e passar a nos questionar o porquê, depois de tanto tempo, não conseguimos encontrar outros caminhos ao nosso desenvolvimento.
Quais os resultados conseguidos com o modelo que tantos impostos favoreceram o Estado? Há boa educação? Boas estradas? Ruas limpas e bem asfaltadas? É bom o sistema de saúde? Há boas universidades? Os jovens foram e estão sendo preparados para o mundo tecnológico? O sistema de saneamento é bom? E a mão de obra? Que estratégias foram criadas, ao longo desse quase meio século, para o aproveitamento da nossa biodiversidade? Por que não conseguimos nos livrar do gatilho dos incentivos? Aproveitamos os impostos e o sucesso do modelo para levar ao interior boa estrutura capaz de atender projetos inovadores? Enfim, essa lista pode ir muito mais longe. Vamos responder o que?
A Amazônia em geral e o Amazonas em particular, não têm escolha. Qualquer iniciativa, que não tenha como base o conhecimento tecnológico/cientifico não privilegiará o desenvolvimento e nem consolidará o nosso mais importante modelo e todas as alternativas a partir da floresta e dos rios serão desperdiçadas.
Há que se levar o conhecimento para o interior e aposentar de vez o machado, o terçado, a enxada e a motosserra que, em pleno século XXI, ainda são as principais ferramentas tecnológicas a sustentar o desenvolvimento interiorano.
A criação de peixe, que se tem alardeado como alternativa, é um caso típico dessa questão do conhecimento, ou da falta dele. O Amazonas é a terra do peixe, mas foi em outros estados que a pesquisa se desenvolveu e o conhecimento floresceu. Resultado: hoje além das técnicas de criação, importamos do alevino à ração. Esta, como principal insumo da atividade, chega aqui a preços exorbitantes, inviabilizando os empreendimentos da aquicultura, no caso a piscicultura.
Já se viu esse filme antes. O alto custo da ração liquidou a atividade de criação de frangos no Estado. O frango consumido na capital e em todos os demais municípios hoje é importado. Vem de Santa Catarina ou Rio Grande do Sul, atravessa o Brasil e o Amazonas e vai atender o agricultor no alto Juruá, por exemplo. Viaja de carreta, balsa, barco, canoa e até de avião. Um absurdo! Mas, mesmo assim, é mais barato.
Seguindo o mesmo caminho do frango, o tambaqui já é hoje importado de Rondônia e Roraima. Se não encontrarmos rapidamente uma alternativa protéica para a piscicultura a preços competitivos, outras espécies seguirão o mesmo caminho, liquidando a própria pesca artesanal, atividade que gera renda a milhares de ribeirinhos.
Para continuar apenas no exemplo do peixe, há mais de 20 anos se ouve falar que o INPA estaria envolvido na pesquisa para aproveitamento da pele dos nossos peixes. Acredito na seriedade dessa pesquisa, mas dela não se sabe exatamente os resultados alcançados. Parece não serem muitos, pois, diariamente continuamos a jogar no lixo toneladas dessa riqueza em todos os cantos do nosso Estado.
É preciso pesquisar, gerar conhecimento e transformá-lo em divisas. O que afinal é feito do conhecimento produzido no INPA, no CBA, na UFAM, na UEA, na EMBRAPA e outros órgão afins? Não duvido que neles devam existir belíssimas teses. Mas, por que delas a sociedade não se apropria e sequer conhecimento toma?
O CBA, por exemplo, nascido em 2000 como uma interessante alternativa à pesquisa da nossa biodiversidade. Perdeu importância no governo passado e dele quase não se ouve falar. O que faz ou o que já fez não se sabe.
Em grande parte do planeta, diariamente nascem empresas em garagens e fundos de quintal, como resultado do conhecimento gestado por jovens nas universidades e centros de pesquisas. Essa prática aqui é muito acanhada. Não há conhecimento, incentivo e apoio, sem contar a tresloucada burocracia que tolhe qualquer iniciativa.
Além do mais, nossas universidades, ideologizadas que são, transmitem aos jovens a aversão que têm à iniciativa privada e ao capital. Nelas ainda sobrevivem ideologias atrasadas que povoaram os sonhos da juventude na primeira metade do século XX.
Em 2001 mencionei em artigo que escrevi para a Gazeta Mercantil, que deveríamos formar mestres e doutores. Defendi que valeria a pena importar pessoas com essa formação de outros estados e até do exterior. Seria uma forma de cortar caminho para aproximação tecnológica com o mundo desenvolvido. Esse pessoal não só produziria conhecimento, mas, sobretudo, ajudaria na formação de outros mestres e doutores localmente.
Embora, ainda insuficiente, reconheço que nos últimos anos houve avanços. Uma quantidade maior de mestres e doutores vem sendo formada. O histórico brasileiro, porém, induz-me dizer, que a esmagadora maioria não segue o caminho das ciências exatas e das engenharias. E sem esse conhecimento não entraremos no jogo tecnológico. Sequer sentaremos no banco de reservas, pois não seremos capazes de criar e inovar.
Se Manaus não se transformar num CENTRO DE EXCELÊNCIA TECNOLÓGICA, não será possível dar suporte ao nosso polo industrial e independência ao modelo. Sem isto, corremos dois riscos: 1) ver minguar o PIM e 2) não ver florescer outros polos que tenham origem na nossa rica biodiversidade. E, como querem muitos, viveremos de contemplar a floresta.
Levar adiante essa imprescindível empreitada exige educação de boa qualidade. E vejam o tamanho do nosso desafio. Temos de caminhar numa velocidade maior que o resto do mundo, pois precisamos dramaticamente encurtar a distância que nos separa dele mundo e do Brasil. E em matéria de educação estamos para o Brasil da mesma forma que o Brasil está para o resto do mundo. Nos últimos lugares.
Mesmo a despeito disso, parados não devemos ficar. Sugiro que deveríamos levantar imediatamente o estoque de conhecimento que temos no Estado e traçar estratégias objetivas para o seu aproveitamento. A Secretaria de Estado correspondente, juntamente com a FIEAM poderiam liderar esse processo, com a participação de toda a sociedade, especialmente da Suframa, das Universidades, dos organismos ligados à ciência e tecnologia já mencionados aqui, além evidentemente, das entidades de classe dos empresários e dos trabalhadores. A partir daí estaríamos mais seguros para descobrir outros caminhos que nos levem a sair da periferia tecnológica onde nos encontramos.
É engano pensar que a solução do modelo esteja exclusivamente no campo político, pois, ainda que, eventualmente, ganhemos todos os embates políticos envolvendo o PIM, poderemos ser surpreendidos pela tecnologia. Essa sim terá o poder de nos estagnar, regredir, desaparecer ou nos elevar. Vai depender do estoque de bons cérebros que conseguirmos formar e atrair.
Insistir na atual dinâmica, perenizado ou não, o modelo continuará frágil e portador de um sucesso transitório e de um fracasso potencial. Mudar esse jogo é tarefa de todos nós.
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* Francisco R. Cruz é empresário e trabalhou muitos anos na área de tecnologia e, entre 2001 e 20...