Ao longo de minha carreira acompanhei e participei de várias ações que tinham como objetivo realizar algo a partir de pessoas motivada por uma causa. Também participei de ações pontuais de campanhas de cunho assistencial, às vezes filantrópica, que visa resolver problemas estruturais com soluções esporádicas. O motivo é bom, mas não sustentável.
A sensação de estar fazendo o bem parece ser suficiente para que essas ações sejam chamadas de campanhas ou trabalhos solidários feitos, na maioria das vezes, por Voluntários, na época do Natal. Infelizmente, não é suficiente.
Faço parte de uma Associação que tem por missão a disseminação do conhecimento no mundo do trabalho. Somos todos voluntários que, ao longo de 14 anos de existência, dedicamos tempo, conhecimento, experiência e compartilhamos com a comunidade, através de projetos e programas desenvolvidas por diretores voluntários de diversas áreas do conhecimento e de atuação. A motivação é a oportunidade de colaborar no desenvolvimento de profissionais, pessoas e organização. É um bom modelo de Voluntário.
Foi a partir desse grupo voluntário da ABRH-AM que o Programa Natal da Esperança foi criado, no início, com ajuda das empresas associadas. A ideia era envolver os colaboradores das empresas em projetos que arrecadassem donativos e ao mesmo tempo fossem sensibilizadas, para atuar de forma permanente, ações estruturadas e organizadas do voluntariado empresarial. Era uma boa ideia, mas não foi adiante, logo foi atender outros interesses, com uma atuação mais ampla, onde o Governo arregimentou para si a ideia, a organização e o que poderia advir de uma ação filantrópica dessa natureza. Seria um bom exemplo de voluntariado, se não fosse o assistencialismo imediatista travestido de Papai Noel. O conceito voluntário não sobreviveu. Foi contratada empresa para gerenciar o Natal da Esperança. Doação só de coisas, não das pessoas.
Acredito muito na força e na capacidade das pessoas de se doarem e de realizarem o que quiserem, a partir de algo que acreditem e que tenha significado. Assim é o Ser Voluntário. “Dê-me uma causa e eu mudarei o mundo”.
Temos uma oportunidade concreta de criar, construir e desenvolver uma cultura de Voluntariado no Amazonas, com o advento da Copa do Mundo. Organizar equipes, treinar, capacitar pessoas, motivá-las a colaborar, ter orgulho de realizar algo bom para si, para o outro e para o ambiente em que vive. As pessoas gostam de ajudar, às vezes não sabem como, não tem iniciativa e esperam ser chamadas.
Se soubermos aproveitar esse exército de candidatos que será treinado e desenvolvido para trabalhar como Voluntário no período da Copa, daremos início a um processo de uma efetiva mudança da forma de doação. O voluntário doa tempo, talento e trabalho. É uma rede do bem que funciona em todas as esferas e tipos de necessidades, de forma permanente e organizada. É um processo, um caminho.
É fundamental que esse embrião de cultura de voluntariado que chamamos de “Legado da Copa”, seja adotado por pessoas e governantes de visão estratégica e de futuro, para que um Programa de Voluntariado possa ser mais um braço que apoia, um coração que sente, uma mente que pensa e a mão que executa, numa complementaridade que forma e transforma ideias em ações e projetos em realidade. Atuar na causa e prevenir o efeito minimiza as divergências sociais e alinha as diferenças culturais.
Tenho certeza que o mundo será melhor e as pessoas mais completas na sua essência se conseguirmos acessar o seu código do Ser Voluntário e se engajar em causas e missões significativas.
Desejo que todos possam um dia experimentar Ser Voluntário de verdade!!!
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Ozeneide Casanova Nogueira é advogada e assistente social, com MBA em Gestão de Pessoas (FGV-ISA...