Filho de pais com curso superior, Carlos nasceu em meados da década de 1970, no mesmo ano em que Dora, jovem analfabeta funcional, dava luz a Pedro, resultado de uma relação fortuita. Por coincidência, dois anos depois, foi trabalhar na casa de Carlos, onde passou a morar com o filho.
Bancado pelo patrão da sua mãe, Pedro iniciou a alfabetização junto com Carlos num dos melhores colégios da cidade. “Um verdadeiro milagre de Deus”, dizia Dora, o que agradecia em longas orações diárias e não deixava de repetir o sonho de todas as mães: “Meu filho será gente”.
Os caminhos da vida, porém, quase sempre fogem ao controle do seu protagonista. Com Dora não foi diferente. De forma inesperada, como sempre, seu coração atingido pelo cupido com certeira flechada, não resistiu. O amor chegara completo em soberana prosápia. Suas artérias estavam em ebulição permanente provocando um rubor que nem o seu rosto moreno conseguia esconder. A paixão, esse sentimento que enobrece a alma e destrói a razão, tomou conta de todo seu ser. Nada mais a interessava. Nem mesmo os conselhos e apelos de seus patrões foram suficientes para segurá-la. Dora pegou o filho e foi viver o que considerara ser o grande amor da sua vida.
Carlos sentiu muito a separação daquele “quase irmão”. Sem alternativa, concentrou-se na sua trajetória de estudante aplicado. Enfrentou o vestibular, sendo aprovado em três universidades. Optou pela Universidade Federal onde o estudo, além de reconhecidamente melhor, era gratuito, embora essa vantagem não tenha sido considerada, pois não era problema para sua família. Formou-se em Engenharia, fez outros cursos paralelos e se tornou um profissional de sucesso.
Enquanto isso, mergulhado na distante periferia da cidade, Pedro completara o Ensino Fundamental na escola pública. Estranhara muito, pois, diferente da sua escola anterior, as coisas aconteciam sem controle. Professores e alunos chegavam atrasados sem qualquer justificativa e as aulas não aconteciam com regularidade, seja porque os professores faltavam muito ou pela falta de professor para algumas matérias, principalmente na área das exatas.
Com algumas interrupções conseguira concluir o Ensino Médio numa escola onde as condições eram piores do que no fundamental. Estudara à noite, pois precisara trabalhar para ajudar a mãe, àquela altura morando sozinha com ele.
Com esse currículo, nem mesmo ele acreditava que pudesse ter sucesso no vestibular para Direito, que se candidatou na Universidade Federal. Não se sentia preparado. Mesmo assim, não recuou. Duas tentativas não foram suficientes para desanimá-lo. Não esqueceu as palavras do patrão da mãe, onde morou: “Nunca desista dos estudos. A educação é a única chance que você tem para ter sucesso na vida”.
Como era difícil concorrer com os que vinham das boas escolas particulares! Chegava a ser desleal, avaliava. Mas tinha compromisso consigo mesmo e aproveitava todo o tempo livre para estudar. Passou na terceira tentativa, mas o que poderia ter sido uma alegria transformou-se em grande decepção. Não conseguiu classificação.
Justamente naquele ano tinha sido implantado o sistema de cotas na universidade. Dois dos seus amigos, além de outros, com notas inferiores as suas, tomaram-lhe o lugar. Ficou revoltado. Era pobre como os dois e estudara na mesma escola pública como eles, mas, diferente deles, não era negro. Não conseguiu entender como, em pleno Século XXI, pudesse ser eliminado por um motivo que a humanidade abominava e punia com os rigores de crime hediondo. Quanta contradição!, bradava. E a meritocracia, que todo sistema democrático deve preservar? Ficou sem respostas convincentes, capazes de aliviar sua decepção.
Curtiu a pior das ressacas, a da injustiça, e decidira dar um tempo. Uma boa faculdade particular não podia pagar. Aderir ao “Prouni”? Tinha muitas dúvidas. Lia com frequência o governo ameaçando cancelar cursos, por insuficiência de desempenho, nas faculdades que ele próprio credenciara. Restava o FIES (Fundo de Financiamento Estudantil), mas não tinha simpatia por terminar o curso endividado. Seu sonho era mesmo entrar para a Federal.
Perdido nessa encruzilhada da vida, caminhava sem rumo pelas ruas da cidade, quando deparou com uma passeata organizada pelo Sindicato dos Professores do seu Estado: “Fora Governador…”, “Fora Prefeito…” diziam as duas primeiras placas, evidenciando que tais governantes não pertenciam ao partido que apoiavam. Em seguida vieram outras: “30% de aumento já”, “Um terço da jornada de trabalho fora da sala de aula”, “Educação pública e gratuita para todos” e outras que não conseguiu ler.
Ficou pensando naquela última placa e intuiu que, além da gratuidade, deveriam exigir, também, a qualidade. De repente passou pela sua cabeça duas perguntas: “E se a Universidade Federal cobrasse mensalidade de quem pudesse pagar? Talvez mais vagas fossem criadas”. Ou, o que mais o agradou: “E se a educação básica fosse de qualidade?” Ambos os casos resolveriam seu problema, mas eram apenas meras hipóteses. Esquecer era a única alternativa naquele momento.
Já era fim de tarde, quando se deu conta do congestionamento que se formou na avenida por onde caminhava. Despretensiosamente olhou para o engarrafamento e, ao volante de um belíssimo carro, um rosto lhe pareceu familiar. Ainda angustiado pelos acontecimentos seguiu o seu caminho sem destino definido. “A educação é sua única chance…”. Aquela recomendação vinha em flashes constantes. De repente, deu um pulo! Lembrou de quem era aquele rosto. O filme da sua infância passou pela sua memória no fim do qual restava uma inevitável pergunta: “E se eu não tivesse saído da casa dele”? Naquele instante resolveu nada contar à sua mãe. Não deveria fazê-la sentir-se culpada, afinal, tudo é perdoável, em nome do amor.
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* Francisco R. Cruz é empresário e trabalhou muitos anos na área de tecnologia e, entre 2001 e 20...