24/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Oficinas fortalecem cobertura vacinal contra à Covid-19 em comunidades quilombolas e ribeirinhas do Amazonas

Publicado em 15 de fevereiro, 2023

Oficinas fortalecem cobertura vacinal contra à Covid-19 em comunidades quilombolas e ribeirinhas do Amazona

Com aproximadamente 350 famílias, que ocupam hoje um território ainda não legalizado, a comunidade Nova Canaã sofre com a falta de infraestrutura. 
Foto: Divulgação/Fiocruz Amazônia

O projeto Amazônia: Ciência, Saúde e Solidariedade no Enfrentamento à Covid-19, desenvolvido pela Fiocruz Amazônia em parceria com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), iniciou as oficinas de educação popular e comunicação em saúde voltadas às populações ribeirinhas, quilombolas e migrantes da Amazônia, visando identificar fatores que impactam na baixa cobertura vacinal e levantar estratégias para divulgação da importância da imunização nos respectivos territórios por meio de iniciativas construídas de forma participativa pelas próprias comunidades.

A oficina “Educação Popular e Comunicação em Saúde para Engajamento Social e Fortalecimento da Cobertura Vacinal da População Ribeirinha, Quilombola e Migrante”, já foi realizada na comunidade Matupiri, território quilombola do município de Barreirinha (distante a 330 quilômetros da capital), e na comunidade Nova Canaã, no quilômetro 41, da BR-174 (Manaus-Boa Vista), área rural de Manaus.

Com aproximadamente 350 famílias, que ocupam hoje um território ainda não legalizado, a comunidade Nova Canaã sofre com a falta de infraestrutura e conta nos dedos as conquistas obtidas ao longo dos 25 anos de existência. Uma delas, considerada pelos comunitários como a mais importante, é a Unidade Básica de Saúde (UBS) Ada Viana.

“A questão da saúde é séria e as pessoas aqui precisam muito de orientação. Na nossa UBS temos hoje alguns serviços básicos que são prestados para os comunitários como exames de pronto atendimento, primeiros socorros, exames preventivos, diagnóstico e tratamento de malária e vacinação”, informou o presidente da comunidade, Rony Nascimento, que reside na Nova Canaã há oito anos.

Voz influente na área, Rony destacou que a UBS hoje tem um papel fundamental dentro da comunidade. “São aproximadamente 2.750 pessoas morando aqui e precisando muito desse suporte. Ainda não tínhamos visto isso por aqui. Não temos Wi-fi e o aplicativo do WhatsApp é o único meio de comunicação que usamos”, disse Rony, além de ressaltar que muito antes da Covid-19 chegar, a comunidade já sofria com a alta incidência de malária, devido à proximidade com áreas de floresta.

Nascida de um processo de ocupação, a comunidade logo se tornou área endêmica para malária, exigindo das autoridades públicas um enfrentamento rigoroso à doença.

A publicitária e mestre em Saúde Pública, Denise Amorim, uma das facilitadoras do Amazônia, Ciência e Solidariedade, explicou que esse é um dos compromissos do projeto, dar voz às comunidades e levantar informações que possam ser importantes para a definição de estratégias a serem desenvolvidas em favor dos moradores da área.

“O projeto visa fazer um diagnóstico das comunidades, levantar quais são os fatores de risco ou que impedem que as pessoas se mobilizem para se vacinar contra a Covid-19 e também trabalhar outras temáticas, a partir das demandas que eles levantarem, fazê-los refletir sobre a realidade em que estão inseridos”, afirmou Denise, citando como uma das referências trabalhadas a do conceito de território para além de um pedaço físico geográfico.

Presente à oficina, o agente de combate a endemias Gilson Braga contou que há 21 anos trabalha no enfrentamento à malária na Nova Canaã. “Temos visto no decorrer desses anos muitas doenças acontecendo na comunidade, entre elas a dengue e a CovidD-19, e os esforços das autoridades de saúde em tentar dar apoio, mas a malária é de longe o pior dos problemas e combatê-la não é fácil. Em sua grande maioria, as pessoas que pegam malária não procuram fazer um bom tratamento. Buscamos ajudar, se possível levar o medicamento até eles para que possam tomar e surtir efeito. Mas, infelizmente não conseguimos adesão e muitos só vão atentar para a gravidade da situação quando estão próximos do fim”, lamentou.

Apesar das dificuldades, os profissionais que atuam na UBS Ada Viana são categóricos em afirmar que a comunidade responde de modo satisfatório às campanhas de vacinação, inclusive a de Covid-19. Um dos fatores positivos é o de que a UBS leva a vacina até as localidades mais distantes.  A comunidade possui aproximadamente 28 quilômetros de ramais, segundo Rony. Em alguns trechos é impossível sair de casa devido à ausência de transporte e as condições precárias da estrada de barro, principalmente quando chove. “A vacinação hoje tem acontecido sim, porque a UBS Ada Viana tem dado esse suporte, não fosse isso não sei como seria”, confirmou.

Metodologia

Com um dia e meio de duração, a oficina é dividida em ciclos de cultura, que é uma metodologia própria da educação popular, que trabalha por meio de problematização, diálogos, construção compartilhada de saberes, considerando os saberes tradicionais daquelas populações em diálogo com os saberes científicos. “É fundamental que estejam os agentes de saúde, os movimentos sociais presentes no território, as associações, lideranças, enfim, o público-alvo é bastante diversificado, é bem plural. A ideia é que a gente tenha várias vozes para pensar como melhorar a cobertura vacinal naquele território a partir de problematizações”, explicou. O trabalho conta com o apoio do Conselho de Secretários Municipais de Saúde (Cosems) e Fundação para o Desenvolvimento Científico e Tecnológico em Saúde (Fiotec).

Parcerias

No Brasil, a Usaid, a NPI Expand e a Sitawi Finanças do Bem se uniram para criar uma parceria para apoiar a Resposta à Covid-19 na Amazônia. Entre 2020 e 2021, a primeira fase do projeto do NPI EXPAND Resposta à Covid-19 na Amazônia distribuiu mais de 23 mil cestas básicas e kits de higiene, capacitou mais de 500 agentes comunitários de saúde, doou mais de 1,4 milhão de máscaras feitas por costureiras locais e divulgou mensagens educativas de prevenção para mais de 875 mil pessoas na região.

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