Foi publicado na imprensa: “Polícia prende um sujeito que falsificava bebidas finas e as vendia, inclusive pela internet. Interrogado, entre outras coisas, confessou: para justificar os preços abaixo do mercado e esconder a verdadeira origem, convencia os clientes que se tratava de bebidas desviadas de uma renomada importadora.” Tinha ótima clientela!???
Segunda história: cidadão estava a admirar uma reforma feita em um antigo grupo escolar privilegiado com a belíssima arquitetura do início do século passado. Ao tentar elogiar o trabalho foi bruscamente interrompido por outra pessoa com esse discurso: “O queee! Isto ai é um deslavado roubo. Essa reforminha não vale a metade do que foi pago. Não sei como esse povinho continua votando nesses ladrões”. E, depois de inúmeros outros impropérios contra corruptos e corruptores de todo mundo, concluiu: “Só eu não pego uma boquinha dessas”!???
Dizem os estudiosos que fatos dessa natureza identificariam a ética média dos brasileiros. Ou seja, por essa teoria, no geral, assim agiriam os brasileiros e que, dependendo das circunstâncias, parte considerável estaria pré-disposta a “pegar uma boquinha”.
Levar vantagem era o que protagonista e coadjuvantes da primeira história pretendiam. O crime do protagonista é muito claro, pois desviar significa roubar, o que dá origem ao crime dos coadjuvantes. Quem compra roubo é receptador. Receptação é crime e deveria ter pena muito mais rigorosa do que o roubo, pois, afinal, é ela quem cria o mercado que alimenta essa criminosa cadeia. A sociedade não se apercebe disto e, ao contrário, parece aceitá-la como um crime menor, pois quase nunca se tem notícia de receptador na cadeia.
A segunda história mostra o discurso que mais se ouve no país. Mas, como ninguém tem a coragem do nosso personagem, não se pode saber o que, realmente, esconde a veemência das palavras. Qual será essa motivação? Indignação de quem paga os seus impostos e, portanto, está sendo roubado ou é a indignação da inveja, como deixou claro o protagonista desse cenário? Mas esclarecer essa dúvida parece não levar a nada, diante do surto de amnésia que tomou conta do País. Os pecados de hoje, amanhã serão esquecidos. A nossa indignação é efêmera. E os pecadores repudiados na ausência são reverenciados na presença, não raro, diante da mesma plateia, que sequer nota a contradição.
E, de pecado em pecado, sem o castigo correspondente, vai se consolidando a cultura da transgressão, que dizem ter começado desde a viagem da “família real” para o Brasil, quando teriam desaparecido, misteriosamente, alguns tesouros. Oficialmente não veio nenhum mágico na viagem, mas os tesouros públicos continuam desaparecendo. Agora nem tão misteriosamente.
Com a chegada da corte, a Colônia, que levava uma vida simples, começou a ver uma nova forma de viver. Dos altos impostos cobrados, grande parte era desviada para atender o luxo em que viviam os nobres. Era grande a troca de favores e uma pesada burocracia se instalava dificultando a vida dos que construíam o País.
Para se defender da burocracia, os colonos desenvolveram mecanismos e atalhos para facilitar o cotidiano, coisa que os escravos já vinham fazendo em busca de sobrevivência mais digna. O “jeitinho brasileiro” dava aí seus primeiros passos. Parido pela burocracia, o pernicioso “jeitinho” cresceu sob o esbanjar dos recursos públicos e se tornou primo legítimo da corrupção, mazelas que a sociedade carrega desde então.
As sociedades mais evoluídas corrigiram as suas mazelas com o remédio chamado educação, hipótese sequer cogitada pela corte, que preferiu o analfabetismo à ideia de perseguir o conhecimento já disponível àquela altura. É bom que se diga que essa decisão não foi deliberada, mas, também, por ignorância, falta de compromisso e de visão.
Sem educação a vontade de mudar não se instala coletivamente, pois a capacidade de análise crítica não pode florescer no escuro e infértil terreno da ignorância, impiedosa produtora do atraso. Nesse quadro tudo fica à espera da aquisição do conhecimento, pois reconhecer as necessidades coletivas vai depender dos avanços que a sociedade conseguir percorrer no campo intelectual.
Enquanto esse avanço não acontece, os “mal feitos” florescem geometricamente. Bombardeado de todos os lados pelos rotineiros e violentos acontecimentos, o cérebro não mais reage. Acostuma-se com tudo e entra no que se poderia chamar de “loop” da aceitação permitida. O “vírus da banalidade” se instala e o umbigo passa a ser o foco da maioria que se deixa levar pelo “enquanto eu e os meus estivermos bem o resto pouco importa”, mesmo que o “estar bem” seja resultado de ações pouco ortodoxas.
Esse foi o caminho que construímos até a grave situação de hoje, quando a sociedade se encontra num extraordinário caos ético e ninguém mais se reconhece no seu semelhante. São mais de 200 assassinatos diariamente; o número de mortes produzido pelo trânsito não é menor; os estupros não são inferiores; furtos e roubos são incontáveis; delegacias e presídios estão superlotados; meliantes e assassinos com várias passagens pela polícia, diariamente, aparecem praticando novos crimes; na periferia, as escolas estão sitiadas por traficantes; jovens ameaçam professores, que se tornam impedidos de exercer a sua nobre profissão; viúvas e órfãos vivem hoje um futuro que não planejaram e pais sofrem a mais terrível das perdas, a irrecuperável perda de um filho, muitos em tenra idade. Enfim, mais de 40% dos brasileiros, de uma forma ou de outra, já sofreram com esses crimes. São números tenebrosos.
A necessidade de investimentos em novas delegacias, presídios, quartéis e contingentes é reclamada pela população. Mas os recursos dirigidos para essa atividade, que não são poucos, são aplicados dentro da mesma estratégia e de uma repetida dinâmica que não produz resultado satisfatório. A educação de qualidade, como fator de transformação, tem demorado tanto a chegar, que, com o passar do tempo, talvez não seja ela sozinha remédio suficiente para colocar o País no caminho das sociedades civilizadas.
A sensação de insegurança só faz crescer. Tudo indica que não restará alternativa diferente do uso de penas definitivas. Os fora da lei perderam o respeito pelas instituições. Está se chegando a um ponto que só medidas extremas poderão assegurar um futuro de crescimento e tranquilidade à população, onde a obediência à lei seja reconhecida como o princípio maior da convivência civilizada. Que se afaste de vez o que diz Marcelo Andrade: “Nenhum pastor, em sã consciência, trocaria um rebanho de ovelhas por um lobo. Ele não hesitaria em matar o lobo. Nossa sociedade, porém, preserva o lobo e mata as ovelhas. O pior é que nós somos as ovelhas”.
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* Francisco R. Cruz é empresário e trabalhou muitos anos na área de tecnologia e, entre 2001 e 20...