A professora Elizabeth Cartaxo é doutora em quantas ciências existam, vinculadas à questão energética. Filha de Campina Grande, na Paraíba, para aqui se deslocou, aqui constituiu família, aqui vive e aqui trabalha, dando contribuição da maior importância na área de pesquisas da Ufam. É dela o texto que, sem sua permissão, transcrevo a seguir, mantendo o título original:
“De repente via tudo com tanta clareza. Sempre condicionei sem perceber que a felicidade era feita de momentos ou dependia de atender algumas condicionantes. O lugar onde moro, a profissão que escolhi, os amigos que não fiz, a estação do ano, o peso ideal, o parente querido distante, o colega de trabalho, os resultados da pesquisa científica, de tudo e nada dependiam minha felicidade, meu estado de alegria ou de paz. Talvez ela viesse completa amanhã, ou na semana seguinte, ou no próximo ano, mas ela poderia estar ainda mais longe, dependia das condicionantes.
Sempre me perguntei por que fui tão longe, não nos sonhos, esses são sem limites, digo longe daqueles que chamo de meus, meus pais, meus irmãos, meus amigos, minha casa, minha terra, minha origem, meu sotaque, meu cheiro, meus sabores, meus ritmos, minha identidade. No início seria só uma aventura trazida pela flecha do cupido, uma passagem bem passageira em terras estranhas com bilhete de volta. Mas o tempo foi passando e da necessidade de ficar surgiu a sedução do novo, da conquista, do desafio, maquiando o desconforto inquietante de querer partir, voltar.
Manaus, essa cidade mal amada, desterrada das raízes, mal tratada, com histórias desconectadas, de realidade antrópica, me incomodava. Rejeitava essa desvalorização daqueles que a exploram, marcada historicamente pela distorção de sua realidade e de suas paisagens urbanas, mas o que sempre e mais me incomodava era a desconcertante autoestima baixa de seus filhos nativos.
Contaminada por esse desejo também de partir, transferi minha felicidade para lugares temporais, pessoas temporais, ocasiões temporais.
Sorte tem aquele que descobre em tempo que a felicidade é ser e não estar, que não depende de tempo, pessoas ou lugar, a felicidade é lugar comum, pessoa comum, coisa comum.
Dessa sorte fui contemplada, primeiro porque a desafiei, depois porque pensei, pensei porque pensar é libertador, para então, mudar de opinião, sem vergonha de mudar, e ai, num dia qualquer, percebi que moro numa cidade muito legal, ao contrário do que quiseram me convencer. Manaus é uma cidade de desafios, deveria ser construída de pau, pique e palafita, no entanto tem um dos maiores polos industriais da América Latina, aqui se bebe das melhores bebidas do mundo, dos frutos e da pesca se podem obter sabores que fariam os deuses descerem do Olimpo, terra de povo moreno que aprendeu a ser feliz com as diferenças que lhe foram impostas, estilos e hábitos que contrariam sua condição física e ambiente em favor do mercado global do qual necessariamente não teria que fazer parte, porque chique e elegante é ser diferente, é ser original. Aqui, as estações são somente duas, chuva e sol, mas tem sol e chuva o ano inteiro, e não tem nada mais lindo do que contemplar uma tarde chuvosa nas varandas das casas e dos edifícios, faz qualquer sertanejo nordestino se contorcer de inveja, mas também de respeito, porque natureza é coisa séria. E quando chega a estação do sol e do calor intenso, tem gente de pele clara ou amarela, aqueles que fingem que pensam, dizendo, vocês aqui não sofrem porque estão acostumados, ora, se assim fosse, esquimó não sentia frio!
E quando o sol se põe na tarde quente, é lindo de se ver as multicores das tonalidades de laranja e fogo que se formam em contornos e contrastes espelharem-se no rio de águas negras da praia ou da ponte da Ponta Negra.
Manaus é assim, cheia de encantos e contradições, como o homem, como os humanos, diferente e igual. Mas tem aqui um espirito de resistência, uma áurea guerreira, porque se sua arquitetura descortinou sua natureza, é das bordas dessa Hiléia que sopra a energia da mata, das águas dos rios, que tudo cura e liberta, inclusive o desejo injusto e ingrato de repudiá-la. Renegar a raiz é viver sem alma. Manaus, minha segunda pátria, meu canto, meu lar, aqui ou lá, o que importa é ser feliz!”
Que belo texto! E que tapa na cara de quantos cospem no prato em que comem, falando mal da cidade que os acolheu com carinho e hospitalidade. É um ralho, também, nos próprios manauenses, eis que constata “a desconcertante autoestima baixa de seus filhos nativos”. Alio-me ao canto de louvor a esta Manaus dos meus amores. A esta Manaus que me viu nascer e crescer e onde haverão de ser guardados meus ossos. Manaus, “terra da felicidade”. Muito obrigado, professora Elizabeth Cartaxo.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...