ELAíZE FARIAS (Especial para o blog)
A morte de uma moça de 17 anos e a contaminação de aproximadamente 20 pessoas no município de Parintins, no Amazonas, não foram causadas por carbureto nem por contaminação de bactérias após o consumo de tucumã.
A informação oficial sobre a ausência de bactérias no fruto foi dada nesta sexta-feira (13) com exclusividade a este blog pelo diretor-presidente da Fundação de Vigilância Sanitária (FVS), Bernardino Albuquerque, após conclusão da análise de exames feitos nas amostras dos tucumãs no Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen), em Manaus. “Não há nada que comprove que o tucumã foi o veículo causador da morte e da infecção nos pacientes”, disse ele.
Karina Fonseca da Silva morreu no último dia 26 de agosto, enquanto estava hospitalizada no hospital Padre Colombo. A suspeita que recaiu sobre o tucumã levou a medidas drásticas no município, como a proibição da comercialização do fruto, um dos preferidos do cardápio do amazonense.
A Secretaria de Produção e Abastecimento do município contabilizou uma queda de 30% nas vendas do tucumã em Parintins, prejudicando uma das principais cadeias extrativistas do município. Conforme dados da Embrapa, o tucumã de Parintins abastece várias cidades do Amazonas, incluindo Manaus.
Segundo Bernardino Albuquerque, uma equipe enviada pela FVS a Parintins já havia descartado o uso do carbureto (composto químico usado em frutas para acelerar o amadurecimento) nos tucumãs coletados e comercializados na feira onde a moça teria adquirido os frutos.
A equipe fez um trabalho minucioso de investigação da origem dos frutos, indo até a comunidade rural Carubi, onde os tucumãs foram coletados, chegando até o comprador e o vendedor dos frutos, cuja banca ficava em uma feira do bairro Itaúna. A equipe também visitou a casa de cada um dos doentes (além da família de Karina). Segundo Albuquerque, foi constatado que os frutos amadureceram naturalmente, sem uso de carbureto.
A outra hipótese da causa do óbito da moça e da infecção das outras pessoas (muitos chegaram a ser hospitalizados) seria a presença de bactérias causadoras de infecção. Para isso, foi feito exame nas amostras de sangue de todos os pacientes, já que havia a suspeita de que todos teriam sofrido uma infecção alimentar após consumo do tucumã. Mas, segundo Albuquerque, o resultado deu negativo para as bactérias que normalmente causam esta doença. São elas: estafilococos, salmonelas, shiguella, bacillus-cereus e e.coli.
“Durante a investigação se constatou que as primeiras ocorrências dos sintomas (da infecção) se deram em cerca de três horas após a ingestão da alimentação. Foi no lanche da tarde, quando eles também comeram farinha, café e leite. Alguns ingeriram pão. Então, a infecção poderia ter se dado por infecção de algum alimento contaminado por bactéria, mas todos os resultados que foram feitos nos tucumãs deram negativo. A única verme que cresceu em quantidade muito pequena foi de fungos, mas isto não justifica a situação encontrada nos pacientes”, disse Albuquerque.
A possibilidade de ter sido bactéria também já havia sido afastada, pois se descobriu que Karina e os demais pacientes comeram o tucumã in natura. Bernardino destacou que a prática (não recomendada) de comprar tucumã já descascado nas feiras é mais comum em Manaus e não no interior, onde a maioria da população descasca em casa.
Para Bernardino Albuquerque, diante dos resultados, “não há como definir ou ir além disso” sobre o que causou a morte da moça, já que também não foi feito exame de sangue nela.
No período da primeira internação de Karina, ainda no Hospital Jofre Cohen, a família retirou a moça antes de quaisquer exames mais aprofundados. Curiosamente, na segunda internação, no Hospital Padre Colombo, também não foi feito exame para se chegar com precisão à causa da morte.
“A suspeita de que foi o tucumã a causa da morte não foi confirmada. Pode ter sido outro alimento”, disse ele. Perguntado se uma exumação para que seja feita uma autópsia possa dar a resposta, ele disse que “se foi bactéria, esta matéria já morreu”.
Repercussão
A morte de Karina Fonseca da Silva causou grande comoção e alvoroço em Parintins. A associação de sua morte ao carbureto no tucumã levou a uma mobilização por parte dos agentes públicos de saúde do município. A medida mais radical foi proibir a venda do tucumã na cidade e o recolhimento dos que já estavam sendo comercializados.
O secretário de produção e abastecimento do município, Samarone Moura, disse ao blog nesta semana que a venda direta do tucumã caiu 30%. Um levantamento completo ainda está sendo feito para atestar com mais detalhes os prejuízos. “Os feirantes vivem disso. Eles tiveram uma perda muito grande”, disse Moura.
Para Moura, um exame em Karina que atestasse com precisão a causa da morte poderia ter evitado a repercussão negativa contra o consumo do fruto. “Não se pode afirmar uma coisa apenas baseados nos sintomas. Deveria ter sido feito um laudo pericial em cima de uma necropsia, por exemplo. Fica difícil afirmar sem um laudo comprovativo”, disse.
Legista disse que causa foi tucumã
O atestado de óbito de Karina Fonseca da Silva, assinado pelo médico legista Jorge de Paula, dá como causa “intoxicação exógena (contaminação por alguma substância tóxica) e desequilíbrio hidroeletrolítico (desidratação)”. Para ele, Karina morreu pela ingestão de fruto contaminado.
Em entrevista ao blog, Jorge de Paula disse que se baseou no histórico clínico de Karina e nas suas condições físicas. “As evidências são altamente pelo consumo do tucumã. E ela estava com todos os sinais prodômicos (indicativo de uma doença) que confirmam uma intoxicação. Tinha as orelhas roxas, leitos das mãos escurecidas, unhas roxas, orelhas roxas”, disse o legista. Indagado por que não optou por uma autópsia, Jorge de Paula disse que “não era necessário, pois já estava confirmado que foi intoxicação”.
Sintomas iguais causaram suspeita
A “culpa” atribuída ao tucumã ocorreu somente após a sua segunda internação, quando outros pacientes foram atendidos (alguns em emergência, outros hospitalizados) no Hospital Padre Colombo.
A secretária municipal de saúde, Maria Desterro, disse que quando Karina deu entrada no Padre Colombo, no dia 26 (mesma data de seu falecimento) foi perguntado se ela havia comido tucumã, pois outros pacientes foram atendidos com os mesmos sintomas. Segundo Maria, “a família ainda não havia atentado para essa possibilidade”.
A partir das conexões entre os sintomas de Karina e dos demais pacientes, surgiu a suspeita do tucumã ter sido a causa das infecções, pois todos os doentes haviam comido frutos comprados na mesma feira. Alguns sintomas, porém, foram identificados apenas em Karina, como o fato de ela estar extremamente pálida e fazendo fezes com sangue.
“A Karina estava com diarreia com sangue e vômito. Ela havia sido hospitalizada no Jofre Cohen, mas a família havia pedido alta. A assistente social esteve na casa deles e em nenhum momento disseram que fizeram isso por causa de algum descaso que a moça sofreu no hospital. Então ela foi para casa no domingo (25), mas passou a perder muito líquido. Foi quando a família a levou para o Padre Colombo. Com a piora, ela chegou a ser preparada para ser enviada para Manaus, mas veio a falecer”, disse.
Exame na moça não foi realizado
O coordenador de vigilância epidemiológica de Parintins, Sipriano Coelho, confirmou que não foi coletado exame de sangue em Karina no Hospital Padre Colombo, apesar de ter sido solicitado pelo órgão. “A gente pediu, mas não sei o que aconteceu. Alguns enfermeiros disseram que não daria pois eles não estavam conseguindo aplicar a agulha na veia dela. Alguns disseram que estava muito avançado”, disse, se referindo à gravidade da saúde dela. A questão é que quando a Karina foi tirada do Jofre Cohen pela família ela não estava bem. Quando foi para o Padre Colombo estava bastante debilitada, sentindo muita cólica, diarréia constante, dor de cabeça”, disse.
Segundo Coelho, após e o episódio da morte e da alta dos demais pacientes, não houve mais registro de intoxicação na cidade. Ele afirmou que a venda do tucumã não está mais proibida, mas que há orientação para que haja “precaução”.
Morte da garota teve polêmica
A polêmica envolvendo a morte de Karina atingiu até mesmo o diretor do Hospital Jofre Coehn, Oswaldo Ferreira. Ao blog, ele disse que a família insinuou em entrevistas dadas a programas de rádio que houve negligência médica, o que foi descartada pelo diretor do hospital.
Segundo Ferreira, quando foi internada no Jofre Cohen e após exames de rotina (sangue, fezes, urina), constatou-se que Karina estava com gastroenterite. Em nenhum momento, segundo ele, a família citou que ela havia comido tucumã. No primeiro dia de internação, Karina teve melhora, mas no segundo dia a situação se reverteu. “Eu solicitei o parecer do médico que a atendia, mas isto não chegou a ser feito pois a família retirou a paciente do hospital alegando que ela não estava recebendo o tratamento correto. A partir deste momento, cessou a responsabilidade do Jofre Cohen”, disse.
A reportagem não conseguiu falar com o delegado de Parintins que acompanha o caso e nem com a família de Karina.
Chance de carbureto matar é remota
O uso do carbureto (fusão do cal com o carvão em alta temperatura e pressão) no amadurecimento das frutas é mais comum do que se imagina, mas não há registro de óbitos causados pelo seu consumo, segundo o pesquisador da Embrapa no Amazonas, Jeferson Macedo. O órgão de pesquisa já acompanha o uso controlado do carbureto para uniformizar a maturação da banana. A prática, no caso da banana, é recomendada pela Embrapa.
No tucumã o carbureto vem sendo utilizado para acelerar o amadurecimento do fruto. A razão desta medida ocorre porque a demanda do tucumã é maior do que a oferta, já que 99% da coleta é de origem extrativista (não existe produção).
O uso do carbureto no amadurecimento do tucumã ocorre de maneira artesanal. O comerciante simplesmente joga uma pedrinha de aproximadamente dez gramas de carbureto em um saco cheio de tucumãs e os deixa armazenados. No dia seguinte, o fruto está pronto para consumo. Em contato com a umidade dos frutos, o carbureto libera o gás acetileno. É o acetileno é que promove a maturação rápida dos frutos. O gás não fica impregnado no fruto e vai sendo diluído pelo ar.
“A chance de alguém morrer por causa do carbureto é muito remota. Só se alguém fosse ficasse trancado em uma sala exalando uma grande quantidade de gás e se a pessoa tomasse uma sopa de carbureto”, disse.
Para Jeferson, seria necessária uma investigação mais apurada no episódio ocorrido em Parintins antes de se atribuir a causa ao tucumã. “Me parece que há outros fatores que na estão bem elucidados. Mas preferiram atribuir a culpa um produto que tem consumo fantástico. Todo mundo gosta de tucumã. Talvez seja um momento para reflexões”, disse.