Roberto Sá Gomes é professor, tem sessenta e seis anos de idade e há 36 passou a morar na Avenida Constantino Nery, aquela que, na minha infância era conhecida como João Coelho. Sua casa fica ali nas proximidades do terminal um e, apesar de não estar cercado por nenhum modelo de estética, sua vida e a de sua família transcorreram sem maiores transtornos até coisa de uma década atrás. É que, então, no uso da garantia constitucional da liberdade de culto, fez-se erguer, bem ao lado da residência, um templo da Igreja Evangélica do Avivamento Jesus é o Caminho. Que avivamento!
Os cultos, com seus cânticos e orações, são celebrados num tom que dá a impressão de que se dirigem a uma divindade irremediavelmente surda, daquelas que nunca escutaram nada na vida e para as quais é inútil qualquer aparelho científico, por mais sofisticado que seja. O som é amplificado por mecanismos de última geração e os alto-falantes, voltados para a área exterior, se encarregam de obrigar a todos, crentes e incréus, beatos e agnósticos, a participar das celebrações, ouvindo os repetitivos “aleluias” que se dirigem aos céus em incontáveis decibéis. (Não é uma rima; é mera coincidência).
As filhas de Roberto, duas moças cursando o nível superior, já não conseguiam dar conta de suas lições. Ler um livro em casa era tarefa inglória, impossível, eis que as louvações divinatórias ecoavam pelo mundo, vencendo obstáculos de qualquer monta e penetrando nos mais recônditos locais da residência. Nem mesmo um cérebro einsteiniano lograria concentração suficiente para o estudo diante do barulho infernal (seria mais adequado “divinal”?) que envolvia as jovens desde as primeiras horas da noite. O jeito era sair dali, buscar as casas de amigas ou mesmo um singelo banco de praça onde se pudesse desfrutar de um reconfortador silêncio. Qualquer coisa, menos aqueles ruídos supostamente jaculatórios e musicais.
A tal ponto chegou o imbróglio que o Ministério Público estadual foi chamado à colação e ajuizou contra a tal igreja uma ação civil pública, na Vara Especializada do Meio Ambiente e Questões Agrárias (VEMAQA), buscando coibir a poluição sonora causada pelos cultos. O feito, entretanto, se arrasta há nove anos sem uma solução definitiva, o que, por certo, não é culpa desse diligente magistrado que é o doutor Adalberto Carim Antônio, mas mero sintoma de um defeito crônico e quase irremediável da máquina judiciária.
Mas não seria tudo isso pura intolerância do professor Roberto? Uma intolerância exacerbada a qualquer tipo de som? Não é razoável acreditar nessa hipótese. O professor não é outro senão o Beto do “Blue Birds”, conjunto musical que há longo tempo faz as delícias do público manauense. É, pois, um homem acostumado à música (de boa qualidade, é claro) e aos sons e não seria a singela elevação de um tom ou outro que o faria chegar às raias do desespero em que se encontra, incapaz de ter para si e para os seus o direito de ficar em paz dentro de seu próprio lar.
Hoje, Beto tem atestado médico afirmando que ele padece de uma doença que, pelo nome, deve ser terrível: insuficiência coronariana e hipertensão arterial sistêmica. Para se manter vivo é obrigado ao uso de remédios de nomes ainda mais estranhos, eis que têm “efeito inibidor da enzima conversora da angiotensina e diurético”. Tudo por causa do avivamento.
Mas, como a desgraça anda aos pares, a infelicidade da família, que parecia não poder ser pior, está conseguindo sê-lo. Pois não é que o pastor, responsável pelo barulhento rebanho, resolveu construir mais um templo do outro lado da casa residencial? Parece humor negro, mas não é. Agora, além de suportar as ruidosas manifestações religiosas, Beto está com medo de que lhe caia a casa, pois as obras, sem nenhuma licença do poder público, estão comprometendo as estruturas do imóvel. A sabedoria popular assim se expressaria: além da queda, o coice.
É claro que Beto não se tem mantido passivo. Diante da soez agressão, reage como pode, buscando demonstrar que não se conforma com aquela forma bizarra de louvar a divindade, que, seja ela qual for, não deve concordar com essa barbaridade. Mas essa simples reação não fica impune. Atiçados por seu guia, os fiéis se colocam em polvorosa e dizem ver na figura do professor a própria imagem do satanás, predizendo-lhe um futuro de chamas eternas, onde queimará implacavelmente, como compete a todos os seguidores ao anjo caído.
Que coisa lamentável! Cuido que tudo se poderia resolver se o pastor, enquanto usa o cajado para tanger suas ovelhas, pudesse compreender que seu direito de cultuar o que bem entender cessa diante do direito alheio de ter sossego e paz. Mera questão de civilidade e de educação doméstica. E de civilização.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...