21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Saúde não é brincadeira, autoridades do Brasil. Respeitem os médicos e os cidadãos

Publicado em 20 de julho, 2013

A saúde do Brasil está em xeque. Tanto o sistema público quanto o privado patinam em uma crise de décadas, tornando o acesso dos cidadãos cada vez mais difícil. Das autoridades, faz tempo, cobramos uma política de Estado para o setor. Uma política acima dos partidos, de ambições eleitorais e de improvisos equivocados.

Os apelos de médicos, de outros profissionais e trabalhadores da saúde, dos pacientes e do conjunto dos cidadãos, infelizmente, parecem não sensibilizar as autoridades. Os erros são sucessivos, como o recém-lançado Programa Mais Médicos, anunciado como solução para todos os males do Sistema Único de Saúde (SUS) pelo Governo Federal.

É lamentável que o mesmo Governo que anuncia uma série de êxitos no campo econômico, ignore uma questão social da maior importância, perpetuando o subfinanciamento e a gestão ineficiente no âmbito da rede pública de saúde. A desassistência é risco iminente e precisa de ações consistentes agora para ser evitada.

Um dos vários pontos questionáveis do Programa Mais Médicos é a mudança do currículo acompanhada da ampliação do curso de Medicina em dois anos. O governo pretende obrigar, já a partir de 2015, quem entrar na faculdade a passar dois anos em treinamento no SUS. Em outras palavras, afronta a Constituição Federal, criando, na prática, o serviço civil compulsório para médicos. Ou o ser meio médico, meio escravo.

Inadmissível! Inclusive por atrasar a entrada de profissionais no mercado e a formação de especialistas que o Brasil tanto necessita, como pediatras, ginecologistas, médicos de família, entre outros.

A proposta não é efetiva nem eficaz, e sim midiática, para serenar os ânimos dos milhões de brasileiros que têm tomado as ruas exigindo saúde de qualidade e justiça social, pois que ingressar na faculdade de medicina em 2015, só sairá graduado em 2022, o que não é solução para o iminente colapso do sistema.

Os médicos brasileiros não são mercenários, não pautam suas ações no mercantilismo, na busca de dinheiro fácil. Querem sim condições para exercer a profissão com dignidade e resolubilidade.

Não dá para fazer Medicina sem ter infraestrutura, sem ter enfermagem, sem ter cirurgião-dentista, sem ter outros profissionais da área da saúde, sem ter assistente social, sem ter acesso a um hemograma, a raio-X, medicamentos, maca… O dinheiro não compra médico; seu compromisso é com o paciente e a prestação de assistência humanística e de qualidade.

Diz o governo ter se inspirado na Inglaterra para conceber o Programa Mais Médicos. O paradoxo é que a Inglaterra possui um sistema de saúde exclusivo e investe 10% de seu Produto Interno Bruto nele. No Brasil, são investidos apenas 3,5% do PIB.

Pontuadas nossas principais críticas ao Programa Mais Médicos, apresentamos, novamente, propostas simples e eficazes para reverter o caos da saúde. Como solução para o problema da falta de profissionais de saúde em áreas remotas e nas periferias, pedimos especial empenho do Executivo para a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 454/2009, que cria a carreira médica no serviço público, semelhante à de juízes e promotores.

A aprovação da PEC 454 é a garantia da interiorização de médicos brasileiros para as áreas carentes de acesso à assistência. A medida evitaria a necessidade de importação de médicos sem aprovação do Revalida e, dessa forma, reaguardaria o direito à saúde da população.

Que fique registrado, contudo, que a resolução do problema do atendimento integral não depende somente da melhor distribuição geográfica de médicos, mas também de estrutura adequada à assistência. Atualmente, repetimos, o SUS enfrenta um grave subfinanciamento e também distorções no processo de gestão. Por consequência, pleiteamos o aumento da destinação de verbas federais para 10% da Receita Bruta, e a criação de mecanismos adequados à fiscalização da gestão.

Desde já, exaltamos os presidentes do Senado Federal, Renan Calheiros, e da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, assim como a todos os parlamentares do Congresso Nacional a derrubar a Medida Provisória (MP) que institui o Programa Mais Médicos. Também conclamamos a população a entrar imediatamente em contato com os deputados e senadores e deputados que elegeram, cobrando uma posição firme contra a MP e em defesa da saúde dos brasileiros.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Renato Azevedo Jr

Renato Azevedo Jr é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp)

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.