Parintins, última semana de junho. As feições da ilha começam a mudar a partir da segunda-feira, quando a ela chegam as primeiras “quadrilhas de turistas”, expressão que uso sem a devida permissão de seu autor, nosso poeta universal Aldísio Filgueiras. Apesar de lá estar, não me considero um quadrilheiro. Vou porque gosto; vou porque sou amazonense e ali me sinto em casa. Também, pudera! Sou recebido na chácara “Pedacinho do Céu”, nome mais do que apropriado para o sítio espetacular que Maria e Alfredo Santana, amigos do peito, mantém às margens do igarapé do Macurani. Com uma vantagem sobre o éden bíblico: não vejo nenhuma serpente tentando alguém a comer do fruto proibido. Quando muito, um imenso camaleão, curtindo o sol, e as piaçocas que voejam sobre os murerus.
Na cidade mesmo, o movimento decuplica e a exploração passa a campear desenfreada. É o grande momento da economia local, a aproveitar o festival dos bois. Tudo aumenta de preço e o próprio festival é um acontecimento elitizado, pois não é qualquer ser humano que pode pagar mais de novecentos reais para ter direito a comparecer às três noites de espetáculo, ocupando lugar no que chamam de arquibancada especial. Isso para não falar que os preços das passagens fluvial e aérea crescem muito mais que o pibinho da doutora Dilma, a ponto de o trecho Manaus/Parintins, num avião de duvidosa qualidade, custar mais caro que muitas viagens para a Europa. No Chapão e no Comunas realizam-se verdadeiros congressos de pinguços, oriundos de todos os rincões do planeta e que se esbaldam ao som das toadas, através das quais Emerson Maia e Chico da Silva mostram o imenso poder de suas criatividades e de seus talentos.
Na chácara estão quase todos os membros da Sede. Explico aos profanos: a Sede é uma instituição atemporal e apolítica, que se reúne todos os sábados na casa do Eurivan Reis de Paula, ali no Campos Elíseos, mais precisamente na avenida Genebra. Lá, vemos futebol, jogamos sinuca e dominó, ouvimos o Zico e o Rinaldo Buzaglo tocarem violão, além de esmiuçarmos com profundidade todos os problemas nacionais e universais, concluindo com diagnósticos tão inúteis quanto qualquer reunião da Câmara dos Deputados, principalmente se a reunião for presidida pelo pastor Feliciano.
Pois muito que bem. Na dita semana, a Sede entra em recesso, que seus integrantes não são de ferro e precisam restaurar suas forças, desfrutando do lazer parintinense. Assim é que Tadeu Nery assume a gerência dos negócios da cozinha da chácara, providenciando ranchos e bebidas (principalmente estas), enquanto Eurivan fica responsável pelo setor de transportes. A juventude, este ano representada por Marcos Rezende, Márcio André Bottinely e Edmundo Junior, se encarrega do impecável abastecimento da mesa, colocada à beira da piscina, com a devida proteção das buganvílias. No serviço médico, atuam os doutores Edmundo Nery e Francisco Rezende que, com a assistência do bioquímico Agenor Brasil, não têm mais trabalho que, vez por outra, receitar algo para manter em forma a Dorismar Horta, a nossa Dorinha, também conhecida como Madre.
No bumbódromo, o Caprichoso dá ao Contrário uma lição irrepreensível de como se deve apresentar um bumbá. Tarefa inútil, já que os jurados, oriundos sabe lá de onde e num processo de votação mais complicado que a teoria da relatividade, resolveram que o vermelho deveria ser vencedor. Paciência. Ano que vem tem mais.
Enquanto os bois evoluíam na arena, estávamos nós postos em sossego lá na chácara. À mesa, a simpática figura do professor Ray Viana que, comigo, saboreava esse néctar chamado Johnnie Walker, o do rótulo vermelho, é claro. Ray é filho de seu Waldir Viana, nome quase lendário naquela ilha e famoso pelas muitas curas inexplicáveis que realizou, principalmente em casos de fraturas ósseas. Não existe parintinense digno desse nome que não se refira com deferência especial à memória de Waldir Viana, falecido em 2005.
Pergunto a Ray sobre o “velho”. Seus olhos adquirem novo brilho e é impossível deixar de notar as gotas de lágrimas que lhes querem aflorar. Conta-me, então, da dedicação e humildade com que seu Waldir Viana cumpria o que, a seu sentir, era missão traçada pela divindade. Nenhuma remuneração, nenhum proveito material. Apenas a satisfação de servir ao próximo, como no episódio da menina indígena que, aos oito anos de idade, foi picada por cobra altamente venenosa. Desenganada pela medicina, a criança foi levada a seu Waldir. Saiu completamente curada e vive até hoje.
“Meu pai nunca se abateu com as adversidades. A doença que o levou foi das mais cruéis. Nunca ouvimos uma reclamação”, completa o professor Ray. Para concluir, num elogiável rasgo de amor filial: “Meu pai era o Missionário da Luz”. Até eu lhe respeito o misticismo. A conversa foi uma lição de bondade.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...