No caso da Apple e demais empresas voltadas à tecnologia, os softwares desempenham um importante papel como agentes desses ambientes digitais interconectados.
Corpo e alma
“O smartphone é o corpo, e os softwares são a alma”, diz Camila Ghattas, que estuda macrorrevoluções tecnológicas e trabalha com previsões de tendências.
Ela considera que a Apple tem os smartphones como commodities, e que eles nada mais são do que uma grande plataforma que abriga infinitos softwares, projetados para atender quaisquer tipos de demanda.
A qualidade desses softwares, segundo Ghattas, é outro elemento que garante a relevância da empresa. “A Apple teve a capacidade de lançar o smartphone no mercado de forma mais esperta. Ela já tinha um hardware melhor do que os outros, mas o que fez de mais inteligente foi pensar no software, no ecossistema”, pontua. “O hardware por si só não teria tanta relevância sem as funcionalidades dos softwares.”
Marca mais valiosa do mundo
Em 2021, a Apple apareceu no topo da lista das marcas mais valiosas do mundo. O ranking, intitulado Best Global Brands 2021, foi divulgado pela Interbrand, uma consultoria mundial de marcas. No ano anterior, a empresa também havia sido apontada pela Forbes como a mais valiosa. Já neste ano, a Apple se tornou a primeira de capital aberto a atingir um valor de mercado de US$ 3 trilhões.
A empresa, no entanto, não é a líder de vendas global entre as fabricantes de smartphones. Durante todo o ano de 2021, a Samsung se manteve em primeiro lugar. Xiaomi e Apple se revezaram entre a segunda e a terceira colocação, de acordo com dados da Counterpoint Research. No último quadrimestre, a diferença foi pouca: a Apple possuía 14% do market share; a Xiaomi, 13%.
Lidar com a aproximação das empresas competidoras é um dos desafios sob a gestão de Tim Cook, CEO da Apple desde a renúncia de Steve Jobs ao cargo, em agosto de 2011, e sua morte, pouco mais de um mês depois. À frente da empresa, Cook apostou no investimento em serviços, na lógica de ecossistemas digitais. Dentre os principais serviços criados pela marca estão o iCloud (armazenamento em nuvem), Apple Music (streaming de música), Apple Podcasts, iTunes (reprodutor de áudio), Apple Arcade (assinatura de videogames), Apple TV+ (streaming de vídeo sob demanda) e Apple Fitness+ (aplicativo de acompanhamento de exercícios físicos. Além dos serviços, estão o sistema operacional iOS e produtos para além do iPhone, como iPod, iPad e MacBook.
O foco de Cook nos serviços pode ter compensado a desaceleração do crescimento do iPhone, visto que não ocorreu mais uma vez, nos anos mais recentes, outros lançamentos revolucionários. Estes eram marcas da carreira de Steve Jobs, que se consolidou como inventor apresentando, ao lado de parceiros, criações como os computadores Apple II e Macintosh, o iMac e o iPod — considerado uma espécie de precursor do iPhone.

iTunes
Lançado em 2001, o reprodutor de mídia portátil era integrado ao iTunes e teve sucesso no mercado, conquistando adeptos não apenas por sua funcionalidade, mas pelo design e pela praticidade de uso. Não à toa, o produto foi citado inúmeras vezes por Steve Jobs durante a primeira apresentação do iPhone, em 2007. “Ele não somente mudou a maneira como todos ouvimos música, ele mudou a indústria musical inteira”, afirmou na ocasião.
A cada novo lançamento, nos últimos 15 anos, os celulares traziam algum recurso novo, que impactava o mercado e a maneira como nos conectamos no cotidiano. A melhora das câmeras, o design com tela touchscreen e a passagem do 3G para o 4G — que possibilitou que possamos utilizar a internet móvel para diversos fins, desde pedir comida até encontrar o amor — são apenas algumas das principais mudanças ao longo da linha da evolução dos smartphones.
“Desde o iPhone 3G, o primeiro a chegar no Brasil, até o iPhone 4, todos os celulares vinham bloqueados para algumas operadoras. Naquela época, era necessário fazer modificações para desbloquear o aparelho para uso de qualquer operadora”, diz Rafael Fischmann, fundador e editor-chefe do blog MacMagazine, que produz conteúdo sobre produtos e serviços da Apple. Ele lembra, ainda, que o iPhone original não estava disponível no Brasil e que os preços já não eram considerados acessíveis. “Acho que toda essa aura restritiva também contribuiu com o sucesso inicial”, comenta.
O primeiro marco na evolução dos iPhones, para Fischmann, veio no iPhone 4 (lançado em 2010), que introduziu a tela retina, de maior resolução. Considerada, hoje, um padrão, a tela se diferenciava de outras da época, que ainda permitiam que se visualizassem os pixels.
“Qualquer pessoa batia o olho e percebia a diferença, era uma tela muito mais nítida”, afirma. O modelo também apresentou a câmera frontal, possibilitando as videochamadas. Um ano depois, com o iPhone 4S, surgiu a Siri, primeira assistente inteligente em um aparelho celular.
Em 2012, houve a passagem do 3G para o 4G, que ocorreu paralelamente ao lançamento do iPhone 5. Com a tecnologia, foi possível expandir as atividades realizadas pela rede móvel, abrindo novas possibilidades para a comunicação via voz, vídeo e redes sociais, por exemplo.
Lançamentos
Já em 2014 — três anos após a morte de Steve Jobs — foram lançados os iPhones 6 e 6 Plus, com telas maiores que as anteriores (4,7 e 5,5 polegadas, respectivamente). Fischmann lembra que a mudança não foi bem recebida por alguns grupos, que a interpretaram como um ato de conformismo mediante o mercado. “A Apple sempre ditava a tendência. Era como se dissesse ‘A gente te diz o que você quer’. Mas, com o iPhone 6, ela seguiu a tendência, com telas maiores”, ressalta.
O iPhone X, lançado em 2010, foi, para Fischmann, o último grande salto. As novidades foram a tela de ponta a ponta (quase sem bordas) e a biometria facial. “Um sistema seguro”, destaca, “que não pode ser enganado por alguém segurando uma foto”.
Hoje, para o fundador do MacMagazine, o mercado já conquistou amadurecimento e chegou a um platô de inovação. “Todo ano surge algo diferente: recarga mais rápida, leitor de impressão digital na tela, resistência a água. Cada ano tem alguma coisinha que alguma fabricante traz”, comenta, salientando que as mudanças entre os lançamentos de hoje são muito menos disruptivas do que os grandes saltos de inovação que haviam entre os primeiros produtos.
A desaceleração no ritmo de lançamento de grandes transformações tecnológicas apresentadas pela big tech abre espaço para questionamentos sobre o que está por vir. “Por isso, se fala muito de qual será o próximo produto que vai assumir o lugar que o iPhone tem há tanto tempo”, afirma Fischmann.