18/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O médico e o monstro

Publicado em 21 de março, 2021

Por João Lago

Certamente devo ter tomado conhecimento da existência de Mr. Hyde nos desenhos do Pernalonga, no qual o dócil doutor Jekyll, que o coelho conheceu no parque, o leva para casa para alimentá-lo. Chegando na casa do médico, após tomar uma poção de laboratório, o amável doutor Jekyll transforma-se em um monstro. O desenho animado inspirou-se no livro chamado O Estranho caso de Dr. Jekyll e Mr. Hyde de autoria de Robert Louis Stevenson, publicado em 1886, que narra a obstinação do doutor Jekyll em provar a teoria que a bondade e a perversidade reside em qualquer pessoa, mesmo naquelas mais cordatas. Assim, para provar sua teoria, cria uma poção que quando ele mesmo a toma o transforma em um monstro, cuja personalidade é assumida como Mr. Hyde.

Muito provavelmente Stevenson tomou conhecimento do famoso caso do francês Louis Vivet que foi o primeiro indivíduo a ser diagnosticado com Transtorno Dissociativo de Identidade em 1885, condição mental que leva a dupla (ou múltiplas) personalidades. Poderá ter sido uma coincidência, mas a partir da obra de Stevenson essa pertubação psicológica inspirou inúmeras obras, sendo uma das mais famosas o filme Psicose de Alfred Hitchcock. O enredo é o mesmo, o jovem tímido e aparentemente inofensivo, chamado Norman Bates, assume a personalidade perversa da mãe para cometer assassinato. Essa obra-prima cinematográfica de Hitchcock é de 1960.

O governo Bolsonaro, em pouco mais de dois anos de governo, já trocou três vezes de ministro da saúde e novamente o faz no pior momento da pandemia. Provavelmente passaremos de 300 mil mortos antes do final de março. No entanto, devemos abstrair dessa estatística funesta e buscar identificar entre esses números um pai, uma mãe, um avô, uma avó, um irmão, uma irmã, um amigo, uma amiga, uma pessoa muito querida. A cada centenas de mortes diárias são famílias que choram e enterram seus mortos, muitos sem direito a velório, ou despedidas em cemitérios. Até o abraço fraterno e o enxugar das lágrimas alheias tem o potencial perigo de transmissão do vírus. Vivemos na mais mortal pandemia e ainda tem gente que faz pouco caso disso.

O general Eduardo Pazuello sai do Ministério da Saúde com o aumento de mortes em todos o Brasil e pelo iminente colapso em, pelo menos, vinte cinco unidades da federação. Em situação melhor, mas não confortável, estão somente o Amazonas e o Rio de Janeiro. O Amazonas colapsou em janeiro por falta de oxigênio e Rondônia e o Acre prenunciam que os estoques de oxigênio podem acabar nos próximos treze dias. O problema é idêntico para todos: a demanda é maior que a oferta e em algum momento dessa curva o ponto de convergência é a escassez. No entanto, não é somente oxigênio que preocupa, mas todos os insumos que são essenciais nas UTIs e o exemplo disso é a aquisição emergencial de bloqueadores neuromusculares e anestésicos para a realização de entubação de pacientes em tratamento contra a Covid-19 em Santa Catarina. Se não forem mapeados todos os insumos essenciais para o funcionamento das UTIs e com o aumento da demanda em todo o país, brevemente não será somente oxigênio, nem a falta de leitos que farão os brasileiros morrerem sem assistência médica.

Com a vacinação caminhando a passos trôpegos e com a perspectiva que nessa toada somente em 2024 tenhamos vacinado toda a nossa população adulta, a única alternativa que nos resta é controlar a circulação de pessoas nas cidades e enfatizar o uso de máscara (de forma correta), da higienização das mãos e do distanciamento social. Porém, essas medidas simples esbarram no comportamento negacionista de Jair Bolsonaro, no qual reside a dúvida que com a saída de Pazuello alguma coisa possa mudar em sua atitude, ou veremos o mais do mesmo.

Sai o general e entra o médico Marcelo Queiroga, cardiologista renomado entre os seus pares, presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia e que durante essa pandemia já tomou a vacina e defendeu as medidas simples de prevenção já descritas aqui. Demonstra possuir uma alma cordial que agrada quem está a favor da ciência e é contra o negacionismo, mas infelizmente não sabemos o quanto da poção maldita produzida no Planalto que o cordato doutor já tomou. Resta a dúvida se no conflito de obedecer as ordens do monstro, ou seguir sua determinação de bom médico, qual dessas personalidades irá sobressair-se. Para o bem do povo brasileiro torço pelo doutor Jekyll.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
João Lago

* João Lago é professor universitário, mestre em Administração (Estratégica / Marketing), tem 10 ...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.