Vítima de complicações de uma bactéria associada ao coronavírus. o corpo do eterno apresentador de toadas do Garantido Paulinho Faria, o Paulo de Albuquerque Faria, 61, chegou a Parintins nesta terça-feira (23), onde recebe as últimas homenagens de fãs e dos encarnados que por tantos anos acompanharam sua trajetória como artista ligado ao boi bumbá.
O corpo foi levado em carro de bombeiros pela cidade e será velado na Cidade Garantido. O cortejo para o sepultamento sairá às 12h.
Paulinho morreu ontem, após ter o novo coronavírus e passar por uma cirurgia em razão de um pneumotórax. Ele estava internado em um hospital particular de Manaus. Paulinho havia sido transferido do hospital Jofre Cohen, em Parintins (a 269 quilômetros da capital), para Manaus, no dia 4 deste mês, para dar continuidade ao tratamento contra a Covid-19.
Criatividade, alegria e improviso eram as marcas de Paulinho Faria, primeiro apresentador do Garantido, que assumiu o posto aos 15 anos de idade, permanecendo nesse bumbá por mais de 20 anos, período em que venceu 24 festivais folclóricos.
Chamado de “menino de ouro”, até hoje era considerado eterno item do bumbá. Em Parintins, a Universidade do Folclore leva seu nome.
O Festival de Parintins pode ser dividido entre antes e depois de Paulinho Faria. A família, que torcia, incentivava e ajudava, mas mantinha certa distância, se viu no centro do boi quando o menino, que aos 13 anos começou no rádio, virou apresentador do Garantido, em 1975. A irmã, Graça, cuidava dos itens individuais. Antônio e Omir trabalhavam na estrutura cultural. Zezinho foi presidente. O pai, o empresário João Pedro Faria, o JP, financiava, cedia armazéns, liderava os filhos. A mãe, Maria Ângela Faria, é a eterna “Madrinha do Garantido”.
Foram 26 anos à frente do item, com 24 vitórias. Na única derrota, ele perdeu de 10 a 0, as três noites, o que, por si só, desqualifica o resultado.
Paulinho, nos últimos anos, não precisava nem falar. Bastava levantar o microfone e a torcida entrava em transe. Os rivais também o chamavam de “grilo”, por ser muito magro e dono de voz aguda e penetrante. Os levantadores tinham dificuldade em acompanhá-lo quando, sem harmonia, só na percussão, feita por treme-terras e caixinhas, “tirava” a toada num tom muito alto.
Foi assim, inteiramente no gogó, que Paulinho criou sucessos imortais. É o caso de “Quando eu chegar pra brincar”, de Braulino, que, anos depois, seria o autor de “Tic-Tic-Tac”, maior sucesso internacional dos bumbás, com o Grupo Carrapicho.
O radialista-apresentador impulsionou o Festival de Parintins à base de rivalidades. Primeiro, contra Armando Carvalho, talentoso apresentador do Caprichoso. Depois contra Zé Maria Pinheiro. O rival tinha um serviço de som e ele criou um para a empresa do pai, a famosa picape amarela, pretexto para usá-lo no Garantido. Zé Maria, para completar, torcia pelo clube de futebol Amazonas, adversário histórico do “azulão”. Então, de janeiro a janeiro, fosse no futebol ou no festival, os dois saiam pelas ruas se digladiando.