
Quando falta o oxigênio… Médico faz relato do que viveu no HUGV na UTI e diz que vírus está mais agressivo. Foto: Reprodução
“Foi dramático, foi assustador. A deterioração do corpo sem o nível de oxigênio é muito rápida. O doente morre de uma forma muito rápida”. A frase, que registra um pouco do cenário de guerra dentro da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Universitário Getúlio Vargas (HUGV), é do médico cardiologista e intensivista Anfremon D’ Amazonas, publicado nas suas redes sociais, naquele que foi, até agora, considerado o pior dia para profissionais da saúde durante a pandemia da Covid-19: 14 de janeiro de 2021.
Quando falta o oxigênio medicinal para quem está entre a vida e a morte, numa UTI, totalmente dependente dele, não há para quem pedir socorro. Com alto risco de transmissão pelo vírus, recordes batidos de internações, sepultamentos e novos casos diários, Manaus vive uma crise de falta de O2 sem precedentes.
Para atender a demanda, tanto dos hospitais públicos quanto dos hospitais privados, as fornecedoras White Martins, Carbox e Nitron precisavam entregar 76.500 metros cúbicos (m³) diariamente. No entanto, a capacidade de entrega das empresas tem sido somente de 28.200 m³/dia. Para sanar o déficit de 48.300m³ diários, os governos estadual, municipal e federal montaram uma operação para buscar o produto em Fortaleza e São Paulo em aviões da Força Aérea Brasileira (FAB).
As dificuldades de transporte e logística apenas tornam mais dramática a necessidade de ar de pacientes intubados e que necessitam de oxigênio para superar o vírus. E se a matemática não fecha, o que se viu foi o desespero de médicos, profissionais e gestores para buscar formas de salvar vidas. “Foi um momento desesperador, tinha muita gente chorando, porque os pacientes morriam e não tinha o que fazer. Teve três perdas, de 27 pacientes. Cada uma dessas perdas chocou demais a equipe porque é aquela sensação de impotência. Sabe que aquele doente, naquele momento, precisa de oxigênio e você não tem para ofertar”, relatou o intensivista.
Durante o caos instalado, a equipe do HUGV recebeu a empatia e solidariedade de outros hospitais, como do Adriano Jorge e um particular, que abriram leitos de UTI para receber cinco pessoas. E enquanto se tentava buscar cilindros abastecidos onde fosse, nas enfermarias, no mesmo andar, mais doentes pelo vírus passaram mal e precisaram ser intubados. E no meio do caos, ainda se precisou socorrer estes e levá-los para a UTI. “A equipe conseguiu salvar quem dava, quem podia. Infelizmente não deu para todo mundo”.
Anfremon contou que de manhã, assim que soube que a rede de oxigênio havia caído no HUGV, foi para lá. Havia muita gente na UTI, entre médicos, residentes e profissionais que foram chamados de outros andares da unidade para ajudar. A equipe tomou condutas rápidas e eficientes na falta de O2. Primeiro colocaram todos de bruços (pronar, no linguajar médico), para melhorar a oxigenação. Depois, a corrida para trazer pequenas quantidades de oxigênio usadas em outros setores do hospital, as chamadas balas, que são usadas para transporte intrahospitalar, quando o paciente precisa se deslocar para fazer exame ou cirurgia.
“Essas balas foram alimentando os ventiladores e fomos racionando o uso. Tentamos na medida do possível não deixar ninguém sem, personalizando e racionando de acordo com a necessidade de cada paciente. Foi bem dramático, assustador. E a equipe está de parabéns, a família HUGV atendeu o chamado, foi prestar socorro do seu jeito, fazendo atividades distintas. Alguns colegas cuidaram da parte de drogas vasoativas, ao lado dos doentes, outros foram correr atrás de válvula e balas em outros andares e lugares”, relatou o intensivista.
Para Anfremon, há algo de muito estranho nesta segunda onda da pandemia que deixa Manaus à mercê do vírus, muito mais vulnerável. “Manaus vive uma situação de caos desde as festas de final de ano. Essa segunda onda é devastadora, ela aniquila, está diferente. O vírus é mais agressivo e a gente não sabe exatamente porque. Tem doentes que pioram no quinto ou sexto dia, por outro lado, aquele limite de 15 dias que tinha antes, de acabar o perigo, não existe agora. Tem doente indo para o ventilador, sento intubado, piorando da falta de ar, no décimo quinto dia, no vigésimo. Tem experiência de ter intubado paciente no vigésimo oitavo dia”.
O médico não sabe se é uma nova variante da Covid, mas também não descarta o perigo de reinfecção. Mas parece ser tudo uma combinação perigosa de fatores, somados à saturação da rede de saúde com o período de chuvas, que aumentam os problemas respiratórios da população. O clima fica pesado duplamente, pela intensidade da pandemia e pela umidade do ar.
“Não culpo exclusivamente as aglomerações de final de ano, confraternizações. Acho que tudo isso ajuda, tem peso muito importante para propagar o vírus. Mas alguma coisa mudou no vírus. Se fosse confraternização, eleição que teve recentemente, explodiria no país todo. A ciência ainda vai responder, mas o fato é que está pior, mais agressivo. Tem pacientes fazendo mais diálise, gente mais nova com quadro grave com pouco fator de risco ou nenhum. Está sendo devastador”.
E neste cenário sombrio e crítico, todos os hospitais seguem lotados e os particulares praticamente estão com suas emergências fechadas. “Se alguém sofrer um infarto, acidente de carro, tiver que operar apêndice, vesícula, está ferrado. Não tem para onde ir. E se conseguir um lugar para onde ir, corre o risco muito alto de pegar Covid”.
O intensivista relata que se aprendeu muito a manusear e sustentar pacientes do coronavírus vivos por mais tempo. Mas que há um peso contrário nisso, porque os doentes não se recuperam rápido e o sistema fica totalmente sobrecarregado, sem chance de escape. “Está tudo saturado. Rezo para que a vacina saia o mais rápido possível, seja qual for o grau de eficácia, que acho que é a única coisa capaz de evitar que chegue nos outros estados”.
Com a rede colapsada, Anfremon faz críticas ao Governo Federal, e lembra que votou no presidente, e por isso mesmo tem o direito de criticar: “O governo tem sido negacionista em relação à pandemia, banaliza e relativiza tudo. A última foi dizer que o que está acontecendo em Manaus é porque não fazemos tratamento precoce. Faço visita em duas UTIs que trabalho, vejo pelo menos 50 pacientes por dia, e sei que todos fizeram o tratamento precoce, até mesmo com cloroquina. Doentes não são burros e todo mundo está antenado, fazem estoque de remédios em casa e começam a tomar sozinhos. Não é falta de tratamento precoce, isso é uma sacanagem para quem trabalha sério”.
No final do seu depoimento, o médico fala que espera que o que acontece aqui não se repita em outros estados e alerta que o Brasil tem que se preparar para a segunda onda. “Se preparem para a segunda onda, porque ela é devastadora e cruel. Ela vai levar muitas vidas. Perdi muitos amigos, estou perdendo colegas de trabalho. Tudo isso é lastimável, infelizmente”.
E a corrida desesperada tanto para transportar cilindros de oxigênio na própria capital como para importar o insumo até via fluvial e área, de outras partes do país, continua hoje. E falta O2, como se a capital referência da Amazônia vivesse um loop infinito.
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