
Silvino Santos registrou cenas do cotidiano amazônico em fotos e vídeos, na primeira metade do século XX. Foto: Reprodução/Museu Amazônico-Ufam
O manuscrito não publicado, intitulado ‘Romance da Minha Vida’, foi encontrado no acervo documental do cineasta Silvino Santos localizado no Museu Amazônico da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O português Silvino Santos registrou o cotidiano amazonense em fotos e vídeos. Entre seus registros estão cenas da extração do látex da borracha na Amazônia, no início do século XX. Ele também fez imagens da cidade do Rio de Janeiro.
A descoberta foi feita pela equipe do Laboratório de Pesquisa em Arquivologia, História e Patrimônio, coordenado pelo professor Leandro Coelho de Aguiar, ligado à Faculdade de Informação e Comunicação da Ufam. O laboratório é o responsável pelo projeto, existente desde 2018, de diagnóstico, preservação, criação de instrumentos de pesquisa, das obras do português, radicado no Norte, realizado por meio da parceria com o Museu Amazônico.
Ao todo, são mais de 1.600 itens que retratam a vida e a obra de Silvino Santos. A coleção é formada por fotografias, negativos em vidro, filmes, equipamentos fotográficos, documentos e objetos pessoais, recortes de jornais, revistas, livros e manuscritos adquiridos pela Ufam, por meio de compra e doações. De acordo com o professor Leandro Coelho de Aguiar, mesmo com o projeto ainda em andamento, alguns resultados se mostram relevantes, como a descoberta do manuscrito não publicado assinado pelo próprio Silvino Santos.
“Estamos na etapa de levantamento das informações do acervo para, posteriormente, produzir um catálogo que será publicado em formato físico e digital. O resultado preliminar é a descoberta do ‘Romance da Minha Vida’, ainda não publicado, que pela relevância social e histórica do próprio Silvino, representa um importante achado para sociedade. Todo mundo o conhece enquanto fotógrafo e cineasta, que representou tão bem a região Norte, mas agora estamos diante de um romance, apresentando assim uma outra vertente do Silvino”, enfatizou o professor.
O pesquisador explicou que o projeto tem como objetivo dar acesso e contribuir com a preservação física e intelectual do patrimônio documental do Silvino Santos pertencente ao Museu Amazônico. “O acervo do fotógrafo e cineasta tem relevância social, histórica e cultural na formação e consolidação de Estado. A ação de preservação do patrimônio documental visa criar condições para o seu acesso”, explicou.
Segundo o diretor geral do Museu Amazônico, Dysson Teles Alves, o processo de organização arquivística dos vários acervos do Museu vem sendo construído em parceria com Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic).
“Os alunos de Pibic têm a possibilidade de realizar pesquisas nos nossos acervos. Essa troca é interessante tanto para o aprendizado do aluno, que entra em contato direto com o acervo que deseja pesquisar como para o Museu Amazônico, que recebe essa mão de obra em processo de qualificação para organização dos seus acervos. Com a coleção do Silvino Santos aconteceu isso. O acervo já estava pré-catalogado, composto com mais de 1.600 itens, e dentre eles o projeto do Laboratório de Pesquisa em Arquivologia, História e Patrimônio encontrou o ‘Romance da Minha Vida’, que não está publicado”, explicou o diretor.
Ele lembrou que acervos bem catalogados e identificados facilitam o trabalho dos pesquisadores. Ao falar especificamente sobre o romance, o responsável pelo Museu Amazônico enfatizou que ele não se resume apenas a uma autobiografia.
“Trata-se de um relato histórico, desde a sua infância em uma aldeia portuguesa, passando pela adolescência e chegando até a vida adulta. Destaco que como se tratava de uma pessoa com muitas experiências, sobretudo de viagens. Silvino Santos narrou no manuscrito os aspectos políticos e econômicos dos países em que ele visitou como França, Portugal e Brasil. Há aspectos que o Romance do Silvino proporciona informações muito ricas, principalmente, históricas. Lembro que existem algumas dissertações e teses que mencionam a existência do ‘Romance da Minha Vida’, mas nenhuma analisou a fundo. O que estamos fazendo agora é a transcrição do Romance, respeitando caligrafia e a gramática da época. Os alunos de Arquivologia, coordenados pelo professor Leandro, deram continuidade ao processo de identificação e catalogação deste material. Segundo minhas pesquisas preliminares, o manuscrito não foi editado e o Museu Amazônico tem projeto para futura publicação”, finalizou.
Português radicado no Norte do Brasil, Silvino Santos desenvolveu seu trabalho – primeiramente com fotografia, em seguida com cinema – em Manaus (AM), onde morreu em 1970, aos 84 anos. É do cineasta e fotógrafo alguns dos mais importantes registros visuais da Amazônia, como por exemplo, na primeira metade do século 20, o filme ‘No Paiz das Amazonas’ (1921). As obras foram bem recebidas na época de lançamento, apresentadas com bons públicos nas principais capitais brasileiras e na Europa.
Trata-se de um pioneiro da fotografia e do cinema no Brasil, que legou importantes registros da vida social e cultural da Amazônia da primeira metade do século XX.
O comendador Joaquim Gonçalves de Araújo, conhecido como JG Araújo, contratou Silvino para fazer um documentário sobre o desenvolvimento econômico no Norte do país. A produção ‘No Paiz das Amazonas’ foi exibida na Exposição Internacional do Centenário de Independência do Brasil, em 1922, no Rio de Janeiro.
Fonte: Ufam
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