18/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Livros e impostos

Publicado em 16 de agosto, 2020

Por Felix Valois

Meu compadre Getúlio Pessoa, de quem não canso de ter saudades depois que ele foi morar fora do Brasil, postou o seguinte: “Por isso na impaciência/Desta sede de saber/Como as aves do deserto/As almas buscam beber/Oh! Bendito o que semeia/Livros, livros a mancheias/E manda o povo pensar!/O livro caindo n’alma/É germe – que faz a palma/É chuva – que faz o mar.—Isso é um trecho do poema “O Livro e a América”, de Castro Alves. Lembrei-me desse poema, de que boa parte ainda sei de cor e que decorei quando era aluno do quarto ano no Grupo Escolar Barão do Rio Branco, em Cruzeiro do Sul, Acre. Li, hoje, na Folha de São Paulo, a coluna de Luiz Schwarcz, cujo início transcrevo: “O ministro Paulo Guedes veio a público defender sua reforma tributária e a taxação dos livros. Seu argumento é mais ou menos o seguinte: o livro é um produto de elite, logo, quem compra pode pagar um preço maior”. Castro Alves ou Paulo Guedes? Você decide, mas lembre-se de que estou falando de livros e não de posto de gasolina”.

É, meu compadre, é vergonhoso. O nosso país – essa é a verdade – nunca teve uma “política de Estado” para a educação. As tais “leis de diretrizes” são pontuais e sazonais, sem nunca terem alcançado o cerne do problema, que implica necessariamente em qualificação e boa remuneração de professores e assistência integral ao alunado. Nenhum dos países que hoje despontam como grandes potências econômicas chegou a esse patamar sem ter feito investimentos maciços e sérios na educação. Desde o ensino fundamental até o superior.

Esse defeito é congênito no Brasil. Faço esta ressalva para que os bolsomínions fanáticos (perdoem-me o pleonasmo) não me venham dizer que atribui injustamente ao capitão o surgimento do problema. Entretanto, os sintomas dessa patologia social só tendem a se agravar no governo Bolsonaro, onde cultura é sinônimo de ofensa, com a prevalência absoluta da ideologia das armas de fogo.

Acho que essa é a clara tendência: se “livro é um produto de elite”, um revólver não o deve ser, na medida em que só faz crescer o estímulo oficial para a aquisição de armas e munições. “Não leia; atire”, seria um slogan bem apropriado para botar em comparação os ideais da cultura e da violência. Assim como se fosse preciso algo mais para incrementar o volume e a estatística dos crimes.

Dizem os arautos do governo que é direito de cada cidadão ter e portar arma de fogo. Ainda que o fosse, não ultrapassa a categoria de mera falácia a divulgação de que a disseminação de armamentos tem como objetivo permitir a autodefesa, em caso de agressão. Não é só falacioso: é mentiroso, pois qualquer adolescente bem ajustado sabe que o chamado “homem médio” não tem a vocação nem a habilidade para o uso de revólveres e similares.

Mas, compadre Getúlio, o desprezo do governo pela educação não se confina a essa surreal taxação de livros. Adianto-lhe: o Ministério da Economia já informou ao Ministério da Educação que o orçamento deste, para o próximo ano, sofrerá uma redução de 18,2% em relação ao do ano em curso. Quer isso significar que será retirado do MEC algo em terno de quatro bilhões e duzentos milhões de reais.

Que o ensino vá às favas; que as nossas crianças continuem sem perspectivas. Nada disso importa. Permaneçam nas trevas da ignorância e vão sobrevivendo como for possível, assim como estão fazendo diante dos estragos causados pela pandemia.

Por essas e outras, o culto da estupidez só tende a crescer. Exemplo disso foi a sentença prolatada pela doutora Marchalek Zarpelon, da primeira vara criminal de Curitiba (que coincidência!). Para condenar a quatorze anos de prisão um homem negro de quarenta e dois anos, chamado Natan Vieira da Paz, Sua Excelência esbofeteou a humanidade ao escrever que Natan é “seguramente integrante do grupo criminoso em razão de sua raça”.

Uma cretina desse jaez com certeza nunca leu um livro. Não pode: eles estão sendo taxados pelo Paulo Guedes.

Veja mais notícias em Colunas
Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.