21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A creche: a primeira Sétima Série da Escola Técnica Federal do Amazonas

Publicado em 30 de outubro, 2012

Éramos muito jovens ainda… Estudantes da Escola Técnica Federal, fazíamos, à noite (no último ano), Curso Técnico (Edificações, Eletrônica, Eletrotécnica, Estradas, Química, Mecânica etc.).  Em mais alguns meses, concluiríamos o antigo Segundo Grau e preparávamo-nos então para o famigerado Vestibular, que à época só era direcionado para, no máximo, três instituições, sendo duas públicas: a antiga UA atual UFAM e o UTAM, atual CEST, da UEA; a outra instituição era o Ciesa, que ainda engatinhava, como primeira faculdade particular destas plagas.

Pois bem, depois da dureza que era o segundo ano, no qual passávamos o dia inteiro dentro do quadrilátero compreendido entre as ruas Visconde de Porto Alegre, Duque de Caxias,  Ajuricaba e Sete de Setembro, precisávamos de um ano mais “light”, por isso, mesmo estagiando, trabalhando de dia, à noite sabíamos que ao adentrar nas salas de aula, não seríamos tão cobrados assim, como nos anos anteriores: os professores entendiam isso e sentíamo-nos mais aliviados. No segundo ano, pela manhã, sala de aula convencional, à tarde, laboratório, as 17h, Educação Física.

Lembro que estudamos na famosa “Creche”, a Sétima Série, primeira na ETFA (Assim mesmo era grafada a Sigla da Escola Técnica, a ETFAM, como sigla oficial, surgiu só em 1985, conforme o manual do Estudante). Por que, “Creche”? Ora, essa era uma forma irônica dos “mais velhos”: o pessoal do “Básico” ou Primeiro ano ou mesmo do segundo e terceiro, chamarmo-nos, pejorativamente. E note-se: a diferença de idade era coisa entre três a cinco anos, que, na adolescência, era algo tamanho…

No famoso Mini-vestibular da hoje centenária instituição, do início dos anos de 1980, cerca de 160 alunos foram selecionados de uma multidão de mais de 3,5 mil que se inscreveram. Naquele tempo, a “elite” da Educação do Estado era ou o Colégio Militar ou a ETFA. Quem estivesse num destes dois “estava bem na foto”, por isso, a disputa era renhida. Depois de passados no concurso, fomos divididos em quatro turmas de 40 alunos. Dentre estes 160, havia gente de 12 a 16 anos, que naquela época de ainda Ditadura militar (e com muito menos entrelaçamento social virtual ou não), fazia muita diferença em faixa etária. Então havia turma com idades variadas. Três meses depois a direção da escola reparou o “erro” e realocou as turmas por idade: A Sétima “A” era para os “novinhos”, as crianças de 12 anos em sua maioria; a “B” para a gente de 13 anos, exclusivamente; a “C” e a “D” para o pessoal mais “velho “… Lembro de uma jovem, que já era mãe e estava na Sétima D. Estudávamos ali no pavilhão do lado da avenida Duque de Caixas, a mesma do “Bar do Pedraça”.

Certa feita, os “veteranos” do básico entraram de chofre numa das salas da Creche, na hora do intervalo, pois durante as aulas, o “seu” Osvaldo (Machado, que tem seu nome hoje dado ao complexo esportivo do IFAM) não deixava ninguém ficar perambulando pelos corredores,  jardins, quadras ou refeitórios – um autêntico bedel, já na faixa dos seus 60 anos. Pois bem, os caras “grandões” entraram fumando em uma das salas, e um deles falou bem alto:

– Tem macho aqui ou só bebê da mamãe?

E caiu na gargalhada escancarada…

Com o silêncio da sala, com poucos alunos naquela hora, o “machão” fez algo que nunca poderia ter feito ali naquele momento: esborrifou a fumaça do seu cigarro Hollywood na cara do Marcão (Marcos Aurélio), um dos nossos mais destemidos colegas, que tremendo de raiva, nada pode fazer contra cinco ou seis caras bem maiores…

– Ah! Só tem mariquinha, aqui… Bando de idiota!

Chutou uma cadeira e saiu rindo às escâncaras com sua rapaziada, empinando o esqueleto….

Há um antigo ditado da vingança que se come em prato frio…

Passados vários e vários dias, eis que Marcão e outros amigos, sem alarde, foram até o laboratório dos “valentes” e lá, sem dó, no corredor, meteram a sova (porrada) nos valentões. Marcão, mesmo sendo mais jovem, era muito forte e “duro na queda”. Nunca mais estes “bolineiros” apareceriam no corredor da “creche”. Promessas de pegar a gente foram muitas, mas…

Nos Jogos Estudantis, nos anos 80, as disputas eram também bastante acirradas: Dom Bosco ou Militar x ETFA no Basquete ou no vôlei, EINSTEIN x ETFA no Polo Aquático, ETFA x Estadual, no handebol feminino etc. Era “casa cheia”, de certeza…. E lá vinha o grito de guerra da torcida: É de escroto/ T de tarado/ F de feliz e A de arretado.. ETFAAA!

Assim que terminamos a 8ª. Série, cada qual teria que fazer sua opção para os Cursos Técnicos e assim a Turma se dividiu. No básico, ou primeiro ano, já éramos, como se dizia jocosamente entre nós: Pedreiro (Edificações), Cosama (Saneamento), Come graxa (Mecânica), Pega choque ou sobe poste (Eletrotécnica) etc. As turmas, à época continham: Estradas e Edificações (meio a meio, mulheres e homens), Eletrônica e Eletrotécnica (no máximo, 20% de mulheres), Saneamento (20% de homens), Mecânica (uma ou duas mulheres por turma), Química (um ou dois homens por turma)…

Professores da “Creche”? Deixa eu lembrar… Tinha a “Mata Hári”, a Márcia, de História; a Waldina, de Geografia; Fátima, de Português; Celso, de Matemática; o “Tamba”, de Inglês, o Honorino, de Física… Na Educação Física: Roberta, Haddad, Mark Clark, César, Valverde (que usava tudo verde: moleton, camisa, sua caneta era verde, sua pasta, até seu carro…).

Continua na próxima

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Autor
Daniel Sales

* Daniel Sales é pesquisador cultural.

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