21/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

O ovo

Publicado em 20 de setembro, 2012

Com seus nativos, entre os quais orgulhosamente me incluo, e os que por aqui optaram, Manaus abriga hoje quase ou um pouco mais de dois milhões de habitantes. Seriedade é o mínimo que se há de esperar de quem se propõe assumir a governança dessa massa considerável de pessoas. E seriedade foi exatamente o que não existiu no recente episódio do ovo, ocorrido durante a campanha eleitoral.

A ópera bufa deve ter se sentido ultrajada. A direção do espetáculo foi simplesmente medíocre e o desempenho artístico não merece sequer comentários. Ressalva se há de fazer para o responsável pelos efeitos especiais. Este, demonstrando talento para concorrer com Spielberg, conseguiu o milagre de transformar clara de ovo em cuspe. (Ia eu escrever “cuspe humano”, mas a redundância é óbvia já que alguém pode até esperar que a vaca tussa, mas cuspir mesmo é apanágio da humana espécie).

De qualquer forma, fui consultar especialistas para saber se a transmudação assim operada não teria sido forçada demais. Um deles, que me pareceu o mais ladino, explicou que o ovo utilizado deve ter sido de pata. E justificou: no ovo patal, o pH da clara é menor do que no seu correspondente galináceo, de forma que é possível estabelecer uma tênue semelhança entre ela e a saliva. Talvez por isso, filosofou de quebra, a fêmea do pato não faça tanto alarde quando expele o produto da sua concepção, lição que me pareceu perfeitamente dispensável, tendo em conta o objetivo específico da consulta.

É importante ponderar que o caso do ovo foi uma clara demonstração de como é vasto, quase infinito, o campo em que os candidatos podem atuar na sua faina de conseguir a preferência dos eleitores. A depender da criatividade, a coisa se transforma num vale-tudo, em que, como diziam os moleques na minha infância, só não pode chutar o céu da boca.

Tenho que não cabe invocar a rígida legislação eleitoral. É ela rígida, de fato, e hipócrita, na medida em que parte do pressuposto de que qualquer candidato, por definição, é desonesto e, para compensar esse defeito de fábrica, tem que fazer voto de pobreza franciscana e desenvolver sua campanha invocando apenas as virtudes do irmão sol e da irmã lua. Apesar disso, deixa tantas brechas ovais que, nesse labirinto, os subterfúgios se desenvolvem à larga, permitindo a escamoteação de direitos e deveres e, ensejando, aí sim, o privilégio dos ricos ou o dos que se movimentam à sombra do poder constituído.

O folclore aumenta nas campanhas assim conduzidas. Outro dia vi num carro um adesivo com os seguintes dizeres: “Para vereador – Doutor Fredegundo – PYHZ, número 69999 – UM HOMEM QUE TRABALHA”. Não pude deixar de pensar: e daí? Desde quando trabalhar é atividade que, por si só, mereça o destaque que lhe quis dar o pretenso edil? Mas é tamanha a distorção que o trabalho foi erigido à qualidade de virtude, da mesma forma como o foi a honestidade, esquecido o vulgo de que ambos integram o elenco primário de deveres de qualquer ser humano que se preze.

Voltemos ao ovo. Cuido que a culpa remota pelo incidente vai ser encontrada lá no governo Fernando Henrique Cardoso. Não se apresse e me deixe explicar. Todos se recordam de que, naquele período, com a estabilização monetária, um dos setores que mais se desenvolveram foi o da avicultura. Os preços do frango e do ovo sofreram queda vertiginosa e o consumo dos dois produtos atingiu o mais alto patamar da história recente do país. Era um tal de comer frango e ovo que as pessoas já estavam desenvolvendo um complexo de mucura.

Pois muito que bem. Apesar de ultrapassada essa “corrida do frango”, semelhante à “corrida do ouro” ocorrida na Califórnia, ficaram resquícios da época e, de uma forma ou de outra, os seus efeitos ainda são hoje sentidos, de maneira que um ovo, mesmo que de pata, é um produto que qualquer pessoa pode adquirir. Essa abastança permitiu, por certo, que o espetáculo de que se cuida fosse montado com um orçamento reduzido, nada que venha a exigir a atenção do desembargador Pascarelli nem dos tribunais de contas.

Ora essa. Palhaçada por palhaçada, fico com o Tiririca. Pelo menos foi autêntico e, apenas com indumentária e maquiagem profissionais, amealhou mais de um milhão de votos dos conservadores paulistas. O exemplo merece ser seguido.

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Autor
Felix Valois

* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...

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