O homem chegou a este planeta como uma das muitas espécies gestadas ao longo de bilhões de anos de lenta e sábia evolução, mas logo se destacou dos demais entes deste ecossistema e passou a agir sobre ele de forma inconsequente e predatória.
Eu nunca me canso de dizer que a história humana sobre a terra, embora não tão breve, é muito significativa do ponto do impacto causado ao planeta. Ainda que hoje a humanidade desaparecesse completamente, suas marcas seriam identificadas na terra, ainda que se passassem séculos e milênios, na forma de lixo não biodegradáveis produzidos na proporção de milhares de toneladas produzidas a cada dia. Hoje, além dos diversos polímeros que empestam a vida cotidiana – Marca indelével do homem sobre a terra – podemos dizer, sem sombra de dúvida alguma, que o impacto que causamos no planeta veio cobrar a conta e a fatura é alta.
A essa perturbação causada pelo homem na natureza, eu chamo de “Homentropia”, pois é causada pela ação humana sobre o meio-ambiente, naturalmente equilibrado por seus próprios mecanismos de regulação interna, pois sem a interferência humana, a natureza se incumbe de auto ordenar a si mesma, mantendo em equilíbrios as diversas populações de produtores e consumidores, predadores e presas.
Desde o surgimento de nossa espécie neste planeta, o homem viveu naquilo que podemos rotular como “estado de cegueira”, condição na qual o homem não tem consciência dos efeitos de suas ações sobre o ecossistema em que vive.
Esta existência inconsciente quanto ao resultado de seu comportamento em relação ao nosso planeta deriva, a princípio, da autoimagem que faz de si o homem como um ser apartado da natureza, fruto de uma criação divina relatada em uma diversidade de versões, tantos quantos forem os mitos da criação elaborados em cada cultura.
O mesmo Deus que o criou, é também o provedor e controlador da natureza. Assim, o homem não precisa pensar no que sua ação significa para o ecossistema, pois este lhe foi dado por Deus para seu usufruto, ficando a manutenção à cargo da ação divina. Desta feita, o homem tem irrestrita liberdade para realizar o seu mister sem preocupações com a finitude dos recursos que extrai.
Esta visão de mundo limitada foi praticamente inofensiva na maior parte da história humana, já que as populações humanas eram diminutas e nossa espécie se limitava a um extrativismo de baixo impacto. A ação de dezenas de pequenos barcos de pesca com rede, por exemplo, era irrelevante frente ao gigantismo dos mares prenhes de vida. A melhor das pescas, nem arranhava a gigantesca população de sardinhas nos oceanos, e o fruto deste lanço se destinava à uma pequena comunidade restrita às poucas famílias que viviam na pequena cidade de onde zarpara a nau.
Atualmente, a população humana supera o sétimo bilhão de indivíduos ávidos pelo consumo. Nunca antes, em nossa história, tivemos tantas bocas a alimentar e investimos com tamanha sanha contra os recursos naturais. A pesca de subsistência deu lugar à pesca profissional e, hoje dia, à pesca predatória das redes de arrasto. A proporção com que exploramos os recursos naturais do planeta nunca foi tão exacerbada, e tal implica em consequências que o homem somente agora começa a perceber.
O advento da revolução industrial marca o ponto chave em que a humanidade passa a utilizar os recursos da natureza em grande escala, de forma sistemática e irrefletida. A lógica da produção em massa se espalhou por todas as atividades econômicas, transformando todo recurso natural em matéria-prima a ser transformada em bem de consumo.
Hoje, a fatura dessa quase irretratável conta é um estado de entropia global de proporções quase que bíblicas, pois culminou em um colapso do modelo econômico conhecido – já nas últimas semanas; Infecção viral com a morte prematura de milhares de vidas humanas em pouquíssimos dias, e um estado de pânico e histeria nas pessoas e nos Mercados de Valores.
Nunca uma espécie teve tanto impacto sobre o meio ambiente em que vive a ponto de causar alterações no clima em escala planetária. Da mesma forma, a destruição dos habitats naturais ameaça a sobrevivência de centenas de espécies diferentes da fauna e da flora. É claro que populações de animais vão migrar de ambiente nesse cenário e, obviamente, as diversas mudanças de habitats e os demais fatores estressógenos desse impacto impulsionaram mutações e a contaminação humana, não só desse Corona vírus, mas de outras centenas de infecções.
Não obstante dessa realidade, encontramos o homem ainda promovendo a regulação irracional dos bens de capital pelo nexo do “princípio da escassez”, para forçar uma lógica de consumo e de preços totalmente desequilibrada, à revelia dos mais prejudicados, empurrando o mundo e os mercados para a barbárie em busca por fontes de energia e alternativas que, como todos sabemos, só refletirão em mais impacto direto na já castigada mãe natureza.
A ação da espécie humana sobre a terra alcançou proporções inimagináveis e isso nos obriga a uma reflexão: é certa a forma como nos relacionamos com o meio ambiente de nosso planeta? Que direito temos de decidir sobre a vida de todas as outras formas que conosco dividem esse mesmo lar? Hoje pagamos, mesmo que ao custo altíssimo de várias vidas, a fatura do Homentropia, a crise do “Coronatróleo” é só mais uma prova de que falhamos enquanto gestores do nosso planeta.
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