Durante a II Guerra Mundial, em 1943, na Bielorrússia (atual República da Belarus), militares do 118º Schutzmannschaft e da 36ª Divisão Waffen Grenadier da SS entraram na vila de Khatyn e retiraram todos os moradores de suas casas e os colocaram num grande galpão que foi trancado, coberto com palha e incendiado. Os que tentaram escapar foram fuzilados pelos soldados. Ao todo 140 pessoas, incluindo 75 crianças, foram assassinadas. Khatyn tornou-se um símbolo do genocídio da população civil.
O Massacre de Khatyn é um desses episódios que expõe o máximo da bestialidade humana. Após a guerra, os autores do massacre foram identificados e julgados. Em 1969, ele foi nomeado como memorial de guerra nacional da então República Socialista Soviética da Bielorrússia.
O extermínio de inocentes desarmados causa revolta e indignação. Entretanto, o ser humano somente fica revoltado com o assassinato de populações humanas. A invasão de um território com o extermínio das pessoas que nele vivem é uma atrocidade, um crime que nem as Leis da guerra podem tolerar, mas aqui convidamos à reflexão: Toda vida não deveria ser protegida do extermínio?
A tacanha visão ética da humanidade é ainda muito pouco evoluída. Consideramos apenas o valor da vida humana, ou seja, de seres com os quais podemos nos identificar. Ignoramos completamente o valor de diversas formas de vida as quais não somos capazes de ver como seres detentores do direito fundamental de continuar a existir.
O verdadeiro julgamento ético não pode ser limitado à ideia de que é errado eliminar apenas uma vida humana. Valorar apenas a existência humana enquanto considera todas as demais formas de vida “coisas” das quais se pode dispor é totalmente absurdo. No entanto, é o que fazemos todos os dias enquanto espécie.
Apenas em 2018, uma população de mais 6.657.000 indivíduos foi exterminada no território da Amazônia brasileira, segundo dados oficiais do Ministério do Meio Ambiente. Este massacre, no entanto, não gerou comoção e revolta, nem motivou a realização de um tribunal de guerra pelo simples fato de as vítimas não serem seres humanos. As mais de 6,5 milhões de árvores assassinadas na Amazônia em 2018 – um dos menores índices de desmatamento já registrado naquela região, diga-se de passagem – não foram capazes de despertar nos humanos qualquer sentimento de culpa, compaixão, empatia e nem a mínima reflexão moral sobre o ato.
Invadir uma floresta é como invadir um território estrangeiro e derrubar árvores é o mesmo que trucidar pessoas, mas por que só nos importamos com a vida quando é a de nosso semelhante da mesma espécie? As árvores e todas as demais formas de vida que dependem delas para existir são inocentes desarmados e são atacados e exterminados todos os dias sem que nos importemos. A elas não são construídos memoriais nem dedicados dias.
Um ser vivo que não se move, não se comunica por sons nem tem um sistema nervoso não é considerado em nosso sistema de valores como algo vivo, pelo contrário, é tratado como coisa. A árvore viva, plantada no solo, é por nós considerada exatamente igual ao pedaço de madeira que compõe o tampo de nossas mesas.
Matar árvores para reduzir seus corpos a pedaços de madeira a ser utilizado na confecção de nossos móveis é natural, assim como é natural criar animais submetendo-os à contínuo sofrimento e abusos apenas para comer a carne de seus corpos. Nossas necessidades põem em marcha nossas ações e nesse curso de ação, tudo que satisfaz nossos interesses é usado sem que reflitamos sobre o impacto do que fazemos e nem sobre o valor das vidas que subtraímos.
Há dois séculos, também, era algo totalmente natural colocar correntes em outro ser humano sequestrado no continente africano e escravizá-lo, comercializá-lo como mercadoria, subtrair-lhes os filhos e fazer deles também mero objeto de mercancia. Essa ideia de algo natural impedia que mesmo os homens e mulheres considerados bondosos, piedosos e fortemente imbuídos de fé religiosa se detivessem para refletir sobre a monstruosidade da escravidão.
Não fazemos reflexões morais sobre o que é natural. E por isso, não nos preocupamos em julgar o valor ético da forma como tratamos os animais nascidos e criados para nos servir, aparentemente.
A contínua destruição de florestas e outros biomas pelo desmatamento para extração de madeira, abertura de pastos e ocupação humana está na raiz do acelerado processo de extinção de milhares de espécies em todo o planeta.
Em maio de 2019, os cientistas da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, na sigla em inglês) apresentaram um dado alarmante: as taxas de extinção de espécies animais e vegetais estão aumentando em uma escala sem precedentes como resultado direto da atividade humana e constitui uma grave ameaça ao bem-estar de nossa própria espécie em todas as regiões do mundo. Mais de 40% das espécies de anfíbios, um terço dos corais e mais de um terço de todos os mamíferos da terra estão ameaçados. Vivemos um novo “Holocausto”.
Precisamos urgentemente de mudança de atitude em relação aos demais entes naturais que coexistem neste planeta, e essa tem de vir precedida pela inevitável mudança em nosso sistema de crenças e valores. Cremos que somos diferentes e apartados dos demais seres vivos deste planeta e que podemos usá-los para nossos interesses e dispor das vidas deles como se fossem inferiores e sem importância, e isso é o mesmo sistema de crenças que sustentou as maiores atrocidades conhecidas na história humana.
* Leonardo Costa é professor especialista em planejamento estratégico e análise de negócios em ambientes digitais.
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