
Homem foi linchado em Fonte Boa. Foto: Reprodução
Equipes das polícias Civil e Militar foram enviadas, neste sábado (18), para a cidade de Fonte Boa (a 678 quilômetros de Manaus), para apurar o caso do linchamento de Ronald Gomes Borges, de 28 anos. Ele foi retirado da delegacia, arrastado pela rua, esquartejado e teve o corpo queimado por moradores do município. O homem tinha sido preso por estuprar e matar uma menina de dez anos. A Polícia Civil informou que vai usar imagens de vídeos que registraram a morte do homem para identificar as pessoas que participaram do linchamento.
Em coletiva de imprensa, em Manaus, na manhã deste sábado, o delegado-geral adjunto da da Polícia Civil, Orlando Amaral, afirmou que o preso “jamais” foi liberado pelos policiais que estavam no plantão da Delegacia de Fonte de Boa, nessa sexta-feira (17). Segundo ele, um efetivo da cidade de Tefé foi enviado à Fonte Boa, mas não chegou a tempo de ajudar a conter a fúria da população.
“A coisa foi se complicando durante a noite. Nós sabemos que no interior temos muitas dificuldades de logística, mas foram deslocados policiais militares de Tefé para lá. Esses não conseguiram chegar a tempo. Mas, nós tínhamos policiais. Não muitos, mas tínhamos. Mas, a quantidade de populares era muito grande. Se a polícia fosse reagir, além do que reagiu, para evitar esse resgate desse preso, o prejuízo teria sido maior para a própria população. Então, realmente, não foi possível, e retiraram o preso lá de dentro. Mataram, esquartejaram e até queimaram o preso. A delegacia chegou a ser apedrejada, viaturas da PM também foram danificadas”, explicou.

Segundo a SSP, três viaturas da polícia foram destruídas, em Fonte Boa. Foto: Reprodução
Mais cedo, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) informou que três viaturas policiais foram destruídas por moradores. Os policiais chegaram a atirar e atingiram duas pessoas. “Nós tivemos que agir na defesa do patrimônio, na defesa das vidas que ali estavam, porque os policiais civis e militares estavam acuados dentro da delegacia. A ação foi uma reação à altura. Até porque a informação que nós temos é que alguém lá do outro lado estava armado, e o policial militar teve que fazer uso da força na mesma proporção, vindo duas pessoas a serem feridas. Um está em estado grave e o outro está em estado estável”, destacou o O chefe do Estado-Maior Geral da Polícia Militar do Amazonas, Coronel Negreiros, que também esteve na coletiva de imprensa.
Negreiros disse que a investigação da Polícia Civil deve apurar se houve participação de familiares da menina no linchamento.
De acordo com Orlando Amaral, sete policiais de Manaus, entre peritos e agentes do grupo Fera, foram enviados ao município. “Também foi enviado efetivo de Coari e Manacapuru. Para apurar. Nós sabemos que eles mataram um criminoso, um estuprador, que estuprou uma criança de dez anos. Mas, o Estado não pode permitir que a população promova essa desordem. O Estado tem que se posicionar. Então, essas pessoas serão identificadas e serão punidas, porque também cometeram um crime”, disse. “Essas pessoas serão identificadas. Existem imagens para isso”, completou o delegado-geral adjunto.
O delegado informou que os policiais poderão efetuar prisões em flagrante ainda neste sábado, caso algum suspeito do linchamento seja identificado. “Se não identificarmos hoje, a gente pode trabalhar com prisão preventiva. Mas, o fato é que o Estado tem que dar uma resposta para essa desordem que aconteceu lá”, afirmou.
Segundo o Coronel Negreiros, o efetivo de Fonte Boa conta com aproximadamente 12 policiais militares, três policiais civis e agentes da guarda municipal. “Com todo esse efetivo, nós não conseguimos conter os ânimos da população. Nós repelimos a ação de fazer justiça pelas próprias mãos. Temos um estado de direito e ele precisa ser respeitado. O crime em si é hediondo. É um crime que nós repudiamos. Como pais e mães, ficamos assombrados diante da violência diante de uma criança”, disse.
Questionado sobre o efetivo de policiais no interior, Orlando Amaral destacou que a situação foi atípica. “Nós temos um efetivo de acordo com a população do município. Fonte Boa é um município que não tem tantas ocorrências. Nosso efetivo de lá é pequeno, mas é um efetivo necessário para aquela necessidade”, respondeu.
Negreiros informou que a SSP-AM determinou, ainda na sexta-feira, que fosse deslocada uma equipe da Força Tática de Tefé, composta por 12 PMs. Talvez, se tivéssemos mais policiais, nós teríamos evitado, porque o número de policiais vai desencorajar uma ação mais firme da população. Mas, quando a população e junta com violência, as pessoas perdem o sentido do espírito da lei. Eles passam a ser uma turba. Eles estão dispostos a matar e a morrer, como os dois que se colocaram em perigo”, enfatizou.

Homem foi linchado por moradores de Fonte Boa. Foto: Reprodução
Ronald foi preso na noite de quinta-feira, por policiais civis e militares. Depois da prisão, moradores foram para a Delegacia de Fonte Boa, e promoveram protestos em frente à unidade. Os policiais não conseguiram conter o tumulto, e o homem foi retirado da delegacia, na noite dessa sexta. Ele foi morto na rua. Conforme informações de moradores, a cabeça dele foi fincada em uma pedaço de madeira e mostrada como troféu.
Videos que circulam nas mídias sociais mostram a retirada dos restos mortais do homem, na manhã deste sábado.
De acordo com informações da polícia, o homem foi apontado pela própria esposa como responsável por ter estuprado e matado a criança. Ele trabalhava como vendedor ambulante.

O corpo da menina, de dez anos, foi escondido debaixo da cama do suspeito. Foto: Divulgação
Neste sábado, o delegado Orlando Amaral informou que a menina trabalhava na casa de Ronald. “Essa criança ajudava a família [do suspeito] fazendo bolo, alguma coisa dessa natureza. Não sei se a família dela tinha conhecimento. O fato é que após esse ato horrível, a menina se debateu, gritou, tentou fugir. Foi quando ele resolveu enforcar a menina e fugiu para o matagal”,
A menina foi encontrada morta na noite de quinta-feira. O suspeito teria levado a criança para o quarto dele, a estuprado e enforcado até a morte. Ao perceber que ela não estava mais viva, ele escondeu o corpo embaixo da cama.
Familiares informaram que o suspeito morava próxima da casa da menina e que ela teria sumido ainda pela manhã. Como a família é grande, eles não foram procurar a menina, pois achavam que poderia estar na casa de um dos parentes.
Familiares iniciaram as buscas no fim da tarde de quinta, ao notar a ausência da criança. Já o suspeito teria cometido o crime e tentando “ter um dia normal” após o homicídio, chamando a esposa para lanchar fora. Quando o casal estava em uma praça, ele teria contado o que fez e queria a ajuda dela para enterrar o corpo.
A mulher teria ficado horrorizada e fez um escândalo na praça, passando a chamar o suspeito de assassino. Ele fugiu do local e a esposa procurou a família da vítima para contar o ocorrido.
A menina foi encontrada debaixo da cama do detido, com sinais de estrangulamento. A família fez a retirada do corpo. A polícia foi acionada e conseguiu prender o homem na estrada da Baré.
Ele foi levado à delegacia e teve prisão decretada.
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