05/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Despesca do pirarucu, uma festa que o turismo joga fora

Publicado em 27 de novembro, 2010

Os cerca de 547 moradores das comunidades do entorno dos lagos Violão e Picica, que integram o conjunto de 23 lagos da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagacu Purus, próxima da Vila de Itapuru (a 62 quilômetros da sede municipal de Beruri), encerraram quinta-feira a despesca de 154 pirarucus com mais de 1,50 metro. O total representa oito toneladas e 20% do estoque adulto dos lagos, segundo a chefe da reserva, Ana Cláudia Leitão.

Até a caminhada de oito quilômetros pela mata, depois do almoço e com a segurança do conhecimento do caboclo seria uma curtição para o turista

Foi uma festa digna de mostrar para o mundo. Infelizmente, o setor de turismo amazonense ainda não atentou para o potencial desse evento.

Imaginemos (clique para ler):

Um grupo de turistas (europeu, japonês, norte-americano) chega aos lagos, em barcos especiais, com cobertura, rapidez e conforto. Já naveguei com um palmo de calado em barco com todos esses requisitos. Os caboclos começam a despesca.

No lugar de malhadeira, o único arreio de pesca usado é o arpão. Os turistas são convidados a participar. Consegue-se, então, a primeira captura. O pirarucu, quando arpoado, reage duramente. Nada em grande velocidade para longe. Esconde-se no meio da galhada. Desaparece. É por isso que os pescadores não podem dispensar a “arpoadeira”, uma espécie de bóia flutuante amarrada na ponta da linha do arpão e que é solta na água nessa hora.

Depois de algum tempo, num lugar insuspeito, a bóia vem à tona. O pescador rema rapidamente para pegá-la. Começa a batalha mais direta com o pirarucu. A canoa, geralmente pequena, por causa da velocidade exigida, quase vai ao fundo.

A canoa é pequena e são necessários muitos homens para puxar a rede e trazer o pirarucu para bordo. Alguns caboclos, porém, são tão jeitosos que usam apenas o arpão e conseguem vencer a luta contra o pirarucu

Finalmente, o pirarucu está a bordo.

As mulheres, na margem, acompanhando divertidas o alvoroço de binóculos dos turistas, pegam o peixão e começam a “tratá-lo”. Evitam perfurações no couro, que será usado na indústria de calçados. Retiram as escamas maiores com carinho porque elas servirão para o uso cosmético – limpeza de unhas. A língua é colocada à parte, quase num ritual, para ralar castanha e até os duríssimos bastões de guaraná.

Ao final de tudo, o pirarucu vai ao fogo.

Peraí, que esse fogo tem que ser uma fogueira enorme, feita com restos de madeira colhida na margem. A primeira parte a ser servida é a cabeça, o “santo antonio”, com aquelas cartilagens frescas, deliciosas. Depois vem a ventrecha, com bastante farinha regional, tucupi, pimenta e outras iguarias.

Quando o turista acha que o ritual acabou, o caboclo saca então a caldeirada, de enorme caldeirão suspenso numa forquilha sobre a fogueira. Vem recheada de todos os miúdos do peixe e pela carne maravilhosa, temperada com cheiro-verde.

Isso é turismo. Basta um deles por dia, em uma semana ou mais de despesca, para que o pirarucu possa oferecer ao Amazonas mais que algumas toneladas de carne para serem vendidas ao supermercado Pão de Açúcar.

* Dados técnicos:

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus foi criada por meio do decreto 23.723, de 05 de setembro de 2003, incorporado a APA Lago do Ayapuá, do Médio Purus. A Unidade de Conservação ocupa uma área de 809.268,02 hectares. A pesca, a agricultura, a caça e a extração de produtos madeireiros e não-madeireiros são as principais formas de sobrevivência das populações da área.

O Purus responde por 60% do pescado consumido em Manaus.

* Fonte: Agecom

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