
Oportunidades passaram e o Amazonas não tem tempo para passar
Os 50 anos passados da Zona Franca de Manaus e os outros 50 da prorrogação criaram uma falsa e perigosa impressão. Vinícius de Morais, no “Poema do Dia da Criação”, afirma que “não há nada como o tempo para passar”. E nossos políticos não entenderam que falava de ócio e não da administração pública. O tempo passou, as crises se tornaram cada vez mais graves e o resultado é o cenário pessimista atual.
A catástrofe foi se aprofundando e o Amazonas, deitado em berço esplêndido, jogando dinheiro fora. Exemplos? O combate feroz aos mais de R$ 200 milhões do hotel 5 estrelas do empresário Waldery Areosa e outros R$ 200 milhões do Porto das Lajes. Sim, os empresários que investiriam no Amazonas, resolvendo gargalos de infraestrutura, foram combatidos ferozmente.
O hotel fez uma falta terrível na Copa do Mundo de 2014 e na Olimpíada de 2016. Teria marina padrão Miami, restaurantes, bares, anfiteatros… Manaus sediou os dois maiores eventos do planeta com honra, mas sem atender ao cobiçado filão dos turistas 5 estrelas.
O porto das Lajes foi outro desperdício incompreensível. A campanha contrária dizia que afetaria o Encontro das Águas. O Instituto Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) tombou o local por conta disso. Só que ninguém “percebeu” que o porto ficaria à jusante da junção dos rios Negro e Solimões. No sentido da correnteza dos rios, o porto estaria entre o Encontro das Águas e a foz do rio Amazonas. Qualquer dano ambiental escorreria rio abaixo e o Encontro das Águas, rio acima, permaneceria incólume.
A discussão foi longa e ninguém viu, também, que existia e existe um terminal chamado Porto Encontro das Águas, em cima do fenômeno. E que, pertencente à Petrobras, é dedicado à operação de petróleo e seus derivados. Existe alguma atividade mais perigosa para o meio ambiente?
O frete de um container é mais caro no trecho Manaus-Santos que de Xangai-Santos. É mais dispendioso do Amazonas para São Paulo que da China para o Brasil. Um container de 20 pés, cheio, com produtos chineses, custa US$ 1,6 mil (R$ 6.208,32 ao dólar de 13/12).
A Log-in Logística e a parceira local, Juma Participações, iriam construir navios cargueiros adaptados às peculiaridades amazônicas. Usariam o mesmo princípio dos navios “Panamenhos”, adaptados ao Canal do Panamá. O porto garantia a cobrança do frete do container pela metade do preço.
Hoje, como é do conhecimento amplo do mercado, frete fluvial-marítimo, entre Manaus e os grandes centros, é dispendioso entrave logístico.
Os amazonenses da primeira metade do Século XX não tinham nenhuma experiência sobre ciclos econômicos. Teve alguma razão – embora desperdício seja sempre péssimo conselheiro – a surpresa com o fim abrupto da Belle Époque.
A lição, porém, foi ignorada. Uma parte por inapetência. Outra por ausência de vontade política. Boa fatia por pura ignorância do quanto seriam – e foram – duros os anos após o apogeu da borracha.
Oportunidades perdidas. Há quem diga que foi por inveja do sucesso empresarial dos donos dos tais empreendimentos. Para outros, apenas reação da concorrência. Um viés aponta para a mais pura incompetência administrativa. Ou ganância cavalgando a corrupção. E a corrente mais forte indica a junção de tudo, num barco em que muita gente boa embarcou.
O exemplo de desperdício e falta de visão é incontestável. O Estado não tem R$ 400 milhões, nem perfil para investir tanto dinheiro em empreendimentos assim.
Como fazem falta sentimento nativista, amor à terra, desvelo pelo povo amazonense e apreço à própria biografia.
Wilson Lima, o governador que chega, terá que fortalecer a Zona Franca, porque é base econômica fundamental. Mas, ao mesmo tempo, partir severamente para busca de alternativas, especialmente no turismo e na biotecnologia.
É um crime de lesa-Amazonas continuar ignorando a Embrapa. Ela está pronta para oferecer alternativas agropecuárias ao Estado.
O Amazonas não tem tempo para passar. Oportunidades perdidas como essas arrastam as esperanças de gerações. O desenvolvimento amazonense é possível e necessário. A mesquinharia, porém, que detesta mangas arregaçadas para o trabalho, tem feito enorme estrago.
A opção é clara. Ou se usa o tempo a favor dos amazonenses ou se mantém o desperdício dele, impedindo melhor qualidade de vida.
É esse o prisma pelo qual a gestão que se inicia em 1º de janeiro terá que ser avaliada.
Veja mais notícias em Opinião