06/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Professores surdos da Ufam orientam pesquisas de Iniciação Científica pela primeira vez

Publicado em 06 de novembro, 2018

Foto: Divulgação

Pela primeira vez, dois docentes efetivos surdos da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) orientaram pesquisas de Iniciação Científica em Manaus. São eles: professora Joana Angélica Ferreira Monteiro Cabral Stoller e o professor Fábio Tadeu Cabral Stoller. A atuação deles como orientadores de trabalhos no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) é um marco na trajetória do curso de Letras – Libras da Instituição, pois esta é a primeira vez que docentes surdos orientam projetos dessa natureza.  A instituição conta, atualmente, com seis docentes efetivos surdos.

Sob a orientação da professora Joana Stoller, Crisoney de Brito Gomes realizou pesquisa intitulada “Semântica na educação básica no contexto da Língua Brasileira de Sinais no ensino de língua materna”. As acadêmicas de Letras – Libras Larissa Dantas de Lima e Ana Francisca Ferreira da Silva desenvolveram as pesquisas “Falsos cognatos a partir de uma análise fonológica e suas implicações semânticas entre Língua de Sinais Americana – ASL e Língua Brasileira de Sinais – Libras” e “Cartilha sinalizada: temática de saúde sobre Outubro Rosa e Novembro Azul”, respectivamente. Ambas foram orientadas pelo professor Fábio Stoller. A discente Ana Francisca e seu orientador foram agraciados com menção honrosa no Congresso de Iniciação Científica (Conic), cuja premiação ocorreu no último dia 30 de outubro.

De acordo com a professora Joana Stoller, que já desenvolve uma série de projetos nas áreas de ensino e extensão, avançar na pesquisa acadêmico-científica relacionada à Língua Brasileira de Sinais é de suma relevância para a região, pois esse esforço contribui para a formação do discente-pesquisador no âmbito da Licenciatura abrigada na Faculdade de Letras da Ufam.

“Há perspectiva de futuros profissionais na educação básica com alunados surdos. De igual modo, as contribuições estendem-se às demais graduações da Universidade, em contextos interdisciplinares. Assim, a produção científica de diferentes áreas e domínios tem sido objeto de pesquisa em Libras, buscando resultados que contribuem com a educação de Surdos no estado como parte do processo de construção do conhecimento”, esclarece a docente.

Para o professor Fábio Stoller, poder dar sua contribuir para a pesquisa é muito gratificante tanto para os docentes quanto para os discentes, em especial pela relevância e maior demanda em pesquisas na área da Língua Brasileira de Sinais no Amazonas. “Além do pioneirismo como docente Surdo orientador de IC (PIBIC) na Ufam, tive o prazer de ser agraciado com Menção Honrosa por uma pesquisa premiada”, orgulha-se o orientador.

Sobre as pesquisas

O discente Crisoney Gomes tratou da semântica na educação básica ao considerar o contexto de Libras no ensino de língua materna. A investigação consistiu numa pesquisa de campo para se analisar as principais dificuldades encontradas por docentes alfabetizadores de crianças Surdas. “A partir do conhecimento dessa problemática, foi possível criar mecanismos e estratégias de ensino aprendizagem que possibilitem o entendimento de escolares sobre a estrutura da semântica, explorando suas habilidades e sua cultura”, destaca o resumo. Um dos principais encaminhamentos deu-se no sentido de se produzir materiais didáticos propícios ao uso de recursos linguísticos visuais, de modo a tornar esclarecer os significados semânticos.

Larissa Dantas investigou a presença de falsos cognatos entre a Língua de Sinais Americana – ASL e a Língua Brasileira de Sinais- Libras. O estudo foi realizado com base nas produções linguísticas de nativos surdos da cidade de Manaus. “O contato entre Línguas e a aproximação de povos e culturas – pela tradução ou pelo ensino e aprendizagem de línguas que possuem a mesma família linguística ou relação – podem acarretar conflitos no processo de dissociação e associação do significado e significante de léxicos com a mesma base linguística, podendo ter significados semelhantes ou distintos”, diz o resumo. Esses são os cognatos e falsos cognatos.

Por fim, a discente Ana Francisca realizou sua pesquisa a partir da necessidade de disseminar informações a respeito das campanhas Outubro Rosa e Novembro Azul, direcionada aos usuários surdos do Sistema Único de Saúde (SUS), para a população surda. “Na perspectiva promover acessibilidade das principais terminologias relevantes, ou, signos linguísticos de saúde relacionados ao tema Câncer, com o “outubro Rosa” e “novembro Azul” em Libras, surgiu a necessidade de desenvolver a, cujo objetivo é identificar e organizar, em Libras, as principais terminologias […]”, informa o resumo do trabalho.

Ao considerar a relevância dessas informações, é necessário reforçar a participação da população como corresponsável pela manutenção de sua saúde. Após o levantamento descritivo de dados encontrados, descrevendo os percentuais e comparando-os com a realidade descrita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) da população surda no Amazonas, a discussão apontou para a necessidade da produção materiais acessíveis em Libras para promover e disseminar a educação em saúde.

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