04/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Vítima do ‘estuprador do Eldorado’ revela detalhes de estupro e reclama de delegacia

Publicado em 05 de março, 2012

Uma das vítimas de Anderson Ferreira da Silva, o “Negão”, 28 anos, preso na sexta-feira, após ter sido acusado de estuprar 15 mulheres no conjunto Eldorado, conta os detalhes de seu encontro com ele. Ela reclama do atendimento que recebeu na Delegacia da Mulher e elogia o trabalho da Delegacia de Roubos e Furtos, afirmando que sua persistência ajudou a prender o acusado. A história revela o drama das vítimas desse homem. Leis a íntegra da entrevista:

Anderson Ferreira da Silva, o “Negão”, é foragido da penitenciária, tem mulher, filho e amante, mas é acusado de estuprar 15 mulheres, tendo sido reconhecido por seis delas

Você foi estuprada por esse homem preso pela polícia e identificado como Anderson Ferreira da Silva, o “Negão”, 28 anos, que teria estuprado 15 mulheres no total, no bairro do Eldorado?

Vítima – Sim. Fui eu que corri atrás da polícia, senão ele estaria solto.

 

Que dia foi isso?

Vítima – Dia 20 de janeiro, uma segunda-feira, por volta das 20h.

 

Como foi que aconteceu?

Vítima – Eu desci na parada do Eldorado… E lá encontrei com um amigo meu, jornalista, quando o estuprador chegou por trás do meu amigo, anunciou assalto e nos ameaçou. Disse que qualquer movimento ele nos matava porque não tinha nada a perder na vida dele. De lá ele nos mandou entrar no conjunto Eldorado e nos levou para um matagal. No meio do mato, amarrou meu amigo, me mandou tirar a roupa e consumou o ato.

 

Qual sua impressão sobre ele? Frio? Violento? Bateu em você? Tentou algum tipo de aproximação?

Vítima – Depois que li a entrevista dele no jornal A Crítica percebo que é um grande mentiroso. Tenho quase certeza que ele não estava drogado quando cometeu o crime. Eu tentei ficar muito tranquila e passar essa tranquilidade para ele porque o tempo todo ele dizia que não tinha nada a perder na vida, apontando a arma para nós dois. Acho que porque fizemos tudo que ele pediu, não agiu com violência. Graças a Deus, comigo tudo demorou uns três minutos. Esse cara é um doente. Nas entrevistas, diz que não gosta de mulher, mas é casado, tem um filho de seis anos e ainda tem amante. Doente!

 

Ele roubou alguma coisa de vocês?

Vítima – Sim. Ainda na parada de ônibus pegou os dois celulares do meu amigo e outros dois meus. Levou o notebook do meu amigo e uma bolsa minha com uns R$ 40. Quando chegou no matagal tirou toda joia que eu tinha, até anéis que não tinham valor. Me amarrou e nos deixou jogados lá dentro do mato. Quando observei que ele não estava mais por perto comecei a tentar me soltar e, graças a Deus, consegui. Depois soltei meu amigo e nós saímos correndo por dentro do mato, até chegar próximo à quadra. Corremos para a rua.

 

Aí vocês buscaram ajuda da polícia?

Vítima – Na esquina tem um bar e o povo correu para nos ajudar. Ligaram para a polícia e ficamos esperando praticamente 30 minutos. Até hoje eles não chegaram. Foi então que resolvemos ir ao jornal Diário do Amazonas, denunciar tudo. De lá é que fomos fazer o Boletim de Ocorrência (BO), na Delegacia da Mulher, que não deu muita atenção ao caso. Eles me mandaram para o IML e à maternidade Moura Tapajós, para fazer exames e começar a tomar medicação preventiva.

 

Como é que você está lidando com essa história toda? Como se sente psicologicamente?

Vítima – Ainda estou muito revoltada. A turma do Diário, que faz o caderno policial, começou a correr atrás e soube de um retrato falado na delegacia da Cidade Nova. Fomos, eu e meu amigo que estava comigo na hora do estupro, correndo até lá. Não era o cara. No outro dia, o delegado da DRF (Orlando Amaral) entrou em contato dizendo que também tinha uns retratos para nós verificarmos. Isso já era sexta-feira e o caso aconteceu na segunda. Foi nessa delegacia que vieram dar atenção ao caso. O delegado Orlando pediu que nós fôssemos ao local do crime e quando chegamos por lá tinha várias coisas de outras mulheres. Eles saíram recolhendo documentação, cadernos etc. e conseguiram entrar em contato com elas, que depois foram à delegacia. Lá que eu fui ouvida pelo escrivão. Quase entrando pela noite (sexta-feira!!!), a Delegacia da Mulher entrou em contato comigo para fazer esse procedimento. Um absurdo! Praticamente cinco dias depois do acontecimento.

 

Essas outras mulheres que deixaram objetos no matagal do Eldorado tinham sido estupradas antes de você?

Vítima – Não. Aí é que tá. Foram vítimas depois de mim.

 

Você chegou a reconhecer o estuprador depois de preso?

Vítima – Sim. Acho que foi por isso que ele disse, numa entrevista (jornal A Crítica), que não gosta de loiras. Porque, infelizmente, dei de cara com ele no corredor da delegacia. Tomei um susto. Quando eu cheguei na delegacia ele tinha saído para fazer os exames e como eu era uma das vítimas pediram para eu ficar em um corredor dentro da delegacia. Só que teve uma hora que eu levantei, quando chegou a equipe do Diário para a coletiva, e nesse momento eu tomei um susto porque um policial pulou em cima de mim e falou: “Aqui tem uma vítima. Esperem.” Foi quando eu virei e dei de cara com ele.

 

Você chegou a cruzar com outras vítimas?

Vítima – Sim. Tinha uma vítima que foi estuprada no dia 8 de fevereiro. Ela estava contando o caso para um policial e entrou em desespero. No meio disso tudo, Marcos, acabei descobrindo que sou muito forte, mais do que imaginei.

 

Quer dizer que sua revolta maior é mesmo com a polícia?

Vítima – Sim. Segunda-feira aconteceu outro caso pior que o meu, com um casal de namorados. Com isso o Diário liberou a matéria de quinta, que repercutiu na cidade. Fiquei furiosa quando soube que a polícia estava no local e não viu nada. Não percebeu o momento em que ele abordou o casal. Minha revolta maior é porque, em todo momento, tive que correr atrás deles, pressionar ou então acho que esse bandido ainda estava à solta, atacando pela cidade.

 

Parabéns pela persistência…

Vítima – Agora há pouco, soube que ele está sendo transferido para o novo presídio, porque está sendo jurado de morte na penitenciária da Sete de Setembro (Raimundo Vidal Pessoa). Vi um dia desses uma reportagem falando sobre a nova cadeia pública, que oferece conforto. Deus me perdoe, mas ele não merece isso não. Esse cara é louco. Outra coisa: dia 8 é o Dia da Mulher e aquela “bosta” da Delegacia da Mulher ainda vai ser homenageada… Se eu fosse depender deles…

 

Como está lidando com isso, psicologicamente, neste momento, na relação com seu namorado ou marido?

Vítima – Sou solteira. No início fiquei muito abalada. Mas vi que não estou só e existem pessoas perto de mim que querem me ajudar. Isso tem me dado muita força.

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