16/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Empresário denuncia constrangimentos e cobrança de propina por policiais na Venezuela

Publicado em 08 de fevereiro, 2012

Há muito tempo os amazonenses que se aventuram pela BR-174, a caminho da ilha de Margarita, no Caribe venezuelano, têm relatado casos de constrangimentos, agressões, cobrança de propina e assaltos ocorridos dentro daquele país. Dia 20 de janeiro, o residencial onde estava um grupo de quase 50 brasileiros, a maioria do Amazonas, sofreu um arrastão e vários pertences pessoais, dinheiro e joias foram roubados. Agora, um empresário que viajava com filhos, nora, neta e amigos, denunciou à embaixada venezuelana em Brasília constrangimentos e extorsão praticados por policiais na estrada, a caminho de Margarita.

O empresário, que pediu para serem preservados os nomes dos envolvidos, faz um relato completo da situação e pede providências à embaixadora da Venezuela no Brasil, senhora Heloisa Gimenez. Ele diz que os policiais do sexo masculino não titubearam em fazer revistas íntimas das mulheres que estavam na comitiva, uma delas gestante e outra menor de 14 anos, alegando a busca de drogas que não existiam.

O grupo teve que pagar 1 mil bolívares por cada um dos dois carros da comitiva, numa barreira da cidade de El Tigre, e mais 500 por veículo na barreira das proximidades da cidade de Anaco. Propina significa, em espanhol, o mesmo que gorjeta, em português. Só que, nesse caso, o sentido é o do português brasileiro, ou seja, extorsão, suborno de funcionário público.

Os policiais não usam qualquer identificação, mas o comando certamente saberá identificá-los pela escala do plantão no dia da denúncia. Espera-se que os parlamentares amazonenses façam coro à denúncia e exijam a punição dos envolvidos e reparação moral do grupo que estava na viagem.

Leia, a seguir, a carta enviada pelo empresário à embaixada da Venezuela (as identificações estão omitidas a pedido dele, mas, no original, ele oferece todos os dados para que a embaixada possa encontrá-lo e promete testemunhar contra os policiais corruptos):

 

“Manaus, 08 de Fevereiro de 2012.

 

A

Embaixada da Venezuela em Brasília

Att. Senhora Heloisa Gimenez

 

Prezada Senhora

 

Levo ao conhecimento de V.S.a os fatos desagradáveis por que passei na viagem que empreendi com minha família e um grupo de amigos a Ilha de Margarida/Venezuela no dia 18 de Janeiro p.p. por via terrestre, para que essa Embaixada tome as providências que se fazem necessárias, pois imagino que, o Governo da Venezuela não compactua com atos de bandidismo praticados por policiais corruptos . Eis os fatos:

No dia 22/01/2012 as 10h, horário local, ao passarmos pelo Posto Policial EL Arco, na saída da cidade de El Tigre, as viaturas JXN-XX11, dirigida pelo meu filho (nome omitido a pedido) e o veículo JWF-XX38 dirigida pelo meu amigo (nome omitido a pedido), foram abordadas por policiais daquele posto, para que parassem os veículos a fim de serem vistoriados.

Toda a documentação pertinente aos veículos e as pessoas que ocupavam os mesmos foi apresentada, de conformidade com o que exige as Leis Venezuelanas e em consonância com a relação de documentos que nos foi fornecida pelo Consulado desse país em Manaus-AM.

Não encontrando qualquer irregularidade na documentação apresentada, o policial conduziu os dois motoristas aqui citados para uma saleta onde se encontrava um elemento sem farda ou qualquer  documento aparente que o identificasse,  armado com uma pistola, se intitulando comandante do Posto Policial, que os acusou de terem quase provocado um acidente com o veículo de placa JWK-XX41 e acrescentando ainda que uma senhora havia se ferido levemente e que ela dera parte da ocorrência no Posto Policial. Tudo mentira, forjada na mente doentia de um elemento de alta periculosidade, pois o veículo em questão estava sendo dirigido por mim e nada disso ocorreu.

Na falta de qualquer coisa que pudesse fundamentar a sua falsa acusação, um dos policiais, que não foi possível identificar, porque não usava crachá de identificação, solicitou a importância de 1.000,00 Bolívares de cada um dos condutores, sob a ameaça de que, se a propina não fosse dada, os carros seriam multados e retidos até a segunda feira seguinte, dia 23/1/2012.

Havendo relutância dos condutores dos veículos em dar a propina exigida, um dos policiais foi até as duas viaturas e de uma delas mandou que desembarcasse a minha nora, gestante de 6 meses,  para ser vistoriada, pois eles afirmavam que ela conduzia droga. De forma truculenta e ameaçadora, impediram que o meu filho assistisse à vistoria da sua esposa, tendo a mesma informado posteriormente que um dos policiais mandou ela levantar a roupa para que fosse feita a devida inspeção. Apesar da minha nora ter argumentado estar grávida e que tal procedimento deveria ser feito por uma policial, o mesmo ameaçou-a de prisão se ela não concordasse em se submeter à inoportuna vistoria.

Concluída a inspeção da minha nora, sem que fosse encontrada qualquer tipo de droga, eles mandaram  a minha neta, menor de 14 anos, adentrar a sala para também sofrer o mesmo tipo de  vistoria. Esclarecemos a V.S.a que o local onde eles fazem a vistoria é o dormitório que utilizam quando estão de plantão.

Nessa sala, eles procederam com a minha neta da mesma forma que foi utilizada com a minha nora. Também nenhuma droga foi encontrada.

Com relação a uma amiga, a coisa foi mais séria. Eles mandaram que ela levantasse a roupa (a mesma usava um vestido), para ser feita a inspeção e após ter sido concluída a mesma o policial que havia feito o procedimento deu uma palmada nas nádegas da citada senhora.

Um absurdo! Uma Vergonha! Como a senhora Mara portava a sua bolsa com todo o dinheiro reservado para a viagem, o policial retirou todo o dinheiro e colocou embaixo do colchão do beliche e afirmava a todo momento que a bolsa continha droga. Ele portava em uma das mãos um pacote de pequeno volume que queria fazer crer ser droga que pretendia introduzir na bolsa da senhora Mara, a fim de acusá-la de tráfico. Como a mesma continuou com a bolsa em sua mão, não houve chance para que o bandido consumasse o seu intento.

Devido à insistência da senhora Mara para que ele devolvesse o dinheiro dela, ao falar mais alto,  seu marido percebendo o perigo que ela corria, adentrou ao recinto onde se encontrava a mesma e retirou o dinheiro dela do local onde o policial havia colocado (embaixo do colchão do beliche).

Diante de tantas arbitrariedades e atos de vandalismo próprio de bandidos de grande periculosidade, que se encontravam fortemente armados e portando carteirinha de polícia, os dois condutores resolveram dar a propina exigida, pois já não sabiam onde ia parar a violência.

No Posto Policial numero 4 – Posto policial km 90 nos limites da cidade de Anaco –, as duas viaturas voltaram a ser incomodadas pelos policiais desse posto, que exigiram de cada um dos condutores a importância de 500,00 Bolívares de propina, com a alegação de que um passageiro de cada viatura estava sem o cinto de segurança. Outra acusação infundada, porque todas as pessoas que estavam nos dois veículos portavam o citado cinto.

Para não haver maiores aborrecimentos, os dois condutores pagaram a propina, pois já estavam extremamente estressados e queriam se livrar daquela situação.

Informamos a V. S.a. que, ao que nos foi possível perceber, o pessoal do posto número 1 da Cidade de El Tigre se comunica via rádio com o posto situado na cidade de Anaco, pois, quando estávamos nos aproximando do citado posto, já vieram na direção dos veículos referenciados, um policial  para cada um. Percebe-se que como os policiais do primeiro posto conseguiram extorquir aos mesmos, comunicaram aos do outro posto que poderiam conseguir também o mesmo objetivo. Esse fato também nos foi narrado por várias pessoas que se encontravam hospedadas no Margarita International Resort, onde nos hospedamos.

A Senhora Irajane Souza, receptiva internacional do hotel supracitado, tem conhecimento dos fatos que ora relatamos, inclusive de outros de características rigorosamente iguais, praticados pelos mesmos bandidos dos posto policiais em questão, porque lhes foram relatados por inúmeros amazonenses que tiveram a infelicidade de serem abordados  por esses patifes.

Quero informar a V.S.a. que fatos semelhantes aconteceram com um grande número de amazonenses que se deslocaram até Margarida nesse período de férias e que não fizeram a denuncia com medo de represálias. Porém, como divulguei aqui em Manaus que iria dar conhecimento dos fatos deploráveis as autoridades venezuelanas, podem ter certeza que inúmeras denúncias  haverão de chegar ao seu conhecimento.

Coloco-me a inteira disposição dessa Embaixada sobre quaisquer outros esclarecimentos que venha à necessitar sobre o assunto e aguardo esperançoso as medidas punitivas que as autoridades competentes haverão de tomar, para evitar que delinqüentes perigosos possam empanar o brioso nome de seu pais.”

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