17/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Escuridão do Século XX

Publicado em 16 de janeiro, 2012

O apagão tem componentes pesados. Afeta a indústria, o comércio, traz todos os malefícios para a segurança causados pela escuridão e, sobretudo, mexe com a autoestima das pessoas. O breu da noite de sexta-feira, 6/01, é inaceitável. É coisa do século passado, o Século XX.

Esperava-se da presidente Dilma Rousseff, uma mulher tida como operosa, capaz de conduzir a administração federal a gestos concretos, mais prática e menos discurso. Infelizmente, o Amazonas tem tido frustrações seguidas com essa expectativa.

Ouço, de um lado, o governador Omar Aziz queixando-se de que transferências prometidas à bancada federal do Amazonas, que deveriam ocorrer até o fechamento do exercício 2011, em 30 de dezembro, não foram cumpridas. Isso comprometeu obras na Saúde, Turismo e Infraestrutura, setores em que o Amazonas precisa de ajuda séria e sem mais delongas.

De outro lado, o apagão se repetindo, sob uma justificativa quase infantil, do ponto de vista técnico. Descargas elétricas, segundo a Amazonas Energia, desceram por três ou quatro minutos ininterruptos e atingiram a rede de transmissão da corrente elétrica nos diversos pontos cardeais. Ora, a natureza nunca conseguiu tal feito, nesses anos todos, e a Amazônia sempre foi a região brasileira onde esse fenômeno natural mais acontece.

O Amazonas precisa, neste momento, de menos viagens para anunciar prorrogações que acontecerão de qualquer maneira e mais atitudes concretas. Era o que se esperava de uma pessoa afeita à administração e com fama de dureza na gerência de projetos.

Vê-se anúncios de que o Linhão de Tucuruí está chegando – e parece que desta vez as obras avançam – e que o Governo Federal está investindo bilhões e bilhões para resolver os problemas de fornecimento de energia no Amazonas… e tome apagão.

Chega o verão, apagões por excesso de consumo. Vem o inverno, apagões por raios em demasia. No meio disso tudo, o consumidor vai recebendo um reajuste aqui e outro ali, como se o fornecimento estivesse às mil maravilhas e merecesse todos os prêmios de gestão do planeta.

Os danos causados por três horas de escuridão, numa cidade como Manaus, que sofre com a violência decorrente de seu próprio crescimento e se tornou atração da corrente migratória interna, são inimagináveis.

A diretoria da Amazonas Energia anuncia que formará uma equipe, com especialistas da empresa, Eletronorte e Centro de Pesquisa de Energia Elétrica (Cepel) da Eletrobras. Dentro de 20 dias será apresentado o resultado de um estudo para indicar como evitar que um raio desligue o sistema inteiro, na ação em cadeia programada pelos próprios técnicos. Mas os raios não existiram desde sempre? Será que os técnicos da Centrais Elétricas de Manaus (CEM) sabiam alguma coisa que a engenharia não transmitiu aos atuais? Olhe que essa empresa foi fundada na década de 1960, com emenda parlamentar de meu pai, Arthur Virgílio Filho, quando deputado federal e depois senador, e do então também deputado federal Almino Afonso.

É claro que, no meio disso tudo, tem muita propaganda e pouca vontade política, seriedade, concretude.

O apagão, tanto o de cinco horas, no dia 11 de novembro, quanto o de três horas, na semana passada, é insuportável.

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Autor
Arthur Virgílio Neto

* Arthur Virgílio Neto é diplomata, ex-líder do PSDB no Senado e prefeito de Manaus

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