O Mocidade Clube foi uma entidade carnavalesca, sucessora do entrudo, que era a forma mais rudimentar de se brincar o Carnaval. A diferença era que os brincantes desfilavam em cima de um caminhão.
Consistia o referido em um grupo de amigos que costumeiramente se reunia para sair em cima de um caminhão alegorizado pelo tema do ano.
É claro que os participantes também se fantasiavam e saiam para se divertir no carnaval.
O local de encontro era a serraria de Jackson Cabral, no bairro de Educandos. E, de lá, iam para a Eduardo Ribeiro. Os desfiles do Mocidade duraram 25 carnavais: seu início foi em 1953 e o último desfile, em 1977, ocorreu ainda na Avenida Eduardo Ribeiro.
No livro É Tempo de Sambar – A história do Carnaval de Manaus há um trecho que relembra as atividades do grupo. Ei-lo:
Não diríamos que Manaus teve seu Zé Paredes ou Zé Pereira, batendo o seu tambor pelas ruas – isso aconteceu no Rio de Janeiro e no Século XIX (1851) –, mas a capital baré teve seus muitos “Blocos de sujo” e o “Mocidade”…
Bem, a “Mocidade” é o que poderia ser tecnicamente, hoje, um Bloco de Sujo organizado (os seus participantes postados irreverentemente em cima da carroceria de um caminhão, que saía no dia principal das folias de Momo, advindo de uma serraria do bairro de Educandos – Zona Sul de Manaus – , e que em todos os carnavais prometia surpresas, as melhores delas na Av. Eduardo Ribeiro.
Esse bloco ainda chegou a desfilar nos carnavais dos anos 70, do Séc. XX, e conseguia cumprir para o público tudo o que prometia, ou seja: no carnaval do ano tal viriam de Marinheiros. E lá vinham todos eles vestidos de branco. No outro ano, fantasiados de árabes. E eis que surgiam todos com túnicas alvas. Em outro, ainda, de Banda de Fox Trote americano.
No primeiro desfile, Branca de Neve e os sete anões, depois, de cangaceiros, donas de pensão e assim por diante.
Eram formadores do Mocidade jogadores de futebol, empregados do comércio, jornalistas, radialistas, profissionais liberais, estudantes – gente da classe media e alta de Manaus, salvaguarda aqui ou acolá alguém da periferia. Inclusive, dessa agremiação, ainda hoje existem celebridades locais que participaram dele desde o seu alvorecer e que residem em Manaus, para contar os pormenores: Flaviano Limongi é uma dessas pessoas.
Com mais de 80 anos de idade, (ex– goleiro do extinto Tijuca Clube – clube de futebol do bairro de Aparecida, Zona sul e também de uma das seleções amazonenses de futebol), Limongi era um dos foliões desse legendário bloco, que tantas homenagens recebeu da Prefeitura de Manaus nos anos 70.
Flaviano Limongi, que também ajudou a fundar a Federação Amazonense de Futebol (FAF), durante muitos anos escreveu uma coluna social, de nome Bazar, na imprensa local.
No Mocidade desfilaram, além de Limongi: Theomário Pinto, Max Teixeira, José Maria Bichara, Luiz Cabral, Raimundo “mão de água”, Almério Cabral dos Anjos, Nélson Bentes, Alfredo Tetenge, Joaquim Loureiro, dentre outros. O bloco desfilou durante 25 anos em Manaus.
O Mocidade também já foi decantado por algumas agremiações carnavalescas locais, por exemplo, no enredo “Folias de Momo”, da Sem Compromisso, em 1985, samba de autoria de Celito e Rinaldo Buzaglo.
Os “mocidadanos” tomavam “todas” as biritas da época, mas a batida de taperebá era a preferida da turma.
Os temas carnavalescos do Mocidade Clube
O Mocidade apresentou mais de duas dezenas de temas carnavalescos:
Branca de Neve e os sete anões; Os Ciganos; As Donas de Pensão; Só deve quem compra; Cangaceiros do Nordeste; As lavadeiras; Os Babuínos; Só compra quem tem; Maternidade; Os músicos de Fox Trote, etc.
No último desfile houve uma homenagem ao primeiro tema: Branca de Neve e os sete anões.
O prefeito de Manaus, nessa despedida, era o coronel Jorge Teixeira, que condecorou os já veteranos participantes do bloco.
Foram contemplados: Flaviano Limongi, Andréa Limongi, José Barros, Mário Bacalhau Bittencourt, Flávio Augusto, Raimundo Bertuceli, Mário Orofino, José Maria Bichara, Theomário Pinto, Miguel Jorge, Nelson (Cachimbinho) Bentes, Almério Cabral dos Anjos, Alfredo Tetenge e Pedro Bichara.
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* Daniel Sales é pesquisador cultural.