Como espetáculo da natureza, valeu a pena. Desfrutávamos da hospitalidade da querida Janete, ali no restaurante Palazzolo, quando o temporal desabou. Veio com uma fúria avassaladora, compatível com a imensidão da floresta. A água caía em pesadas bátegas, formando uma cortina que a vista mal e mal conseguia superar. A sexta-feira terminou mergulhada nos efeitos da manifestação pluvial que a mãe natura decidiu despejar sobre a Cidade Sorriso, talvez apenas para engrossar a caudal desse gigante de ébano que a acaricia na sua margem esquerda. Os igarapés, seus filhotes, beberam mais do que podiam e não se puderam conter em seus leitos estreitos, já tão entulhados por anos seguidos de desrespeito e deseducação.
De repente, a escuridão total. As luzes de Manaus se apagaram todas, ao mesmo tempo, como obedecendo à batuta de um rígido maestro que abruptamente deliberou encerrar o concerto antes de que o violino chorasse o último acorde. Dos Educandos à Ponta Negra, do cais do porto a Flores, tudo era o mais completo breu, onde nem a mais aguçada das visões lograria penetrar um palmo que fosse.
Primeiro, a natureza; depois, a irresponsabilidade. Daquela, conhecida por seus caprichos, nada a lamentar, já que ela nunca esqueceu de manifestar seus humores cíclicos, permitindo, se não mapeá-los com precisão milimétrica, pelo menos estabelecer o mínimo de confiável previsão. Da última, pela carga ínsita de menosprezo e insensatez, há que se falar com toda a revolta do mundo, não só pela absoluta falta de originalidade do comportamento, como pelos transtornos que causou.
Não é de hoje que essa tal de Amazonas Energia vem desservindo à população desta terra. Estou careca de falar sobre isso e, há muitos anos, formulei uma dúvida que até hoje me acompanha sem solução: qual é a incompatibilidade insuperável entre água da chuva e fornecimento de energia elétrica? E asseverei: tão logo São Pedro libera as comportas celestiais, o fornecimento de eletricidade em Manaus se recolhe ao seu sarcófago, qual o Conde Drácula diante da imagem do crucifixo.
Li a nota de esclarecimento da companhia, emitida depois que o governador do Estado lhe deu um ralho. As “descargas elétricas” são o bode expiatório. Teriam caído com tamanha intensidade que os circuitos (ou seja lá o nome que tenham), em compreensível manifestação de autodefesa, se desligaram a si mesmos para evitar danos maiores. Ora vão pentear macaco.
Numa era em que a tecnologia alcança patamares impensáveis, é ridículo afirmar, mesmo para um leigo estúpido como eu, que um sistema de produção de energia não disponha de mecanismos capazes de evitar ou minimizar a lesividade dos raios. Mas não vou discutir. Tamanha é a minha revolta que, francamente, não me sinto isento para fazê-lo. Vou apenas transcrever, como já o fiz de outra feita, texto do artigo da professora Elizabeth Cartaxo, da Universidade Federal do Amazonas. Cai como uma luva, até pela autoridade de quem o produziu. Ei-lo:
“As ferramentas disponíveis do planejamento energético são modernas e capazes de estabelecer estratégias para enfrentar todas as possíveis situações críticas de abastecimento, desde danos elétricos, redução de reservas das fontes geradoras a surtos gerados pelas intempéries. O planejamento energético e operacional racional de um sistema elétrico não permite o improviso, o temporário, e o emergencial não pode se tornar perene, esse caminho é o salário da falência”.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...