16/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

A primeira escola de samba de Manaus

Publicado em 03 de janeiro, 2012

Escola de Samba Mixta da Praça 14 de Janeiro

Escola Mixta de samba da Praça14 de Janeiro. Essa Escola foi a precursora da Atual G.R.E.S. Vitória Régia (fundada em 01 de dezembro de 1975) – a Verde e Rosa amazonense.  A Mixta (grafado com X mesmo) por diversas vezes foi citada em sambas de enredo de algumas Escolas da cidade, como o da Primos da Ilha (1993) e o da Vitória Régia (1994).  Seu primeiro presidente foi Fernando Medeiros e o baluarte de sua história foi Zé Ruindade, uma espécie de “Paulo da Portela” de Manaus. Em 1946, ele mais um grupo de amigos decidiram fundar aquela que seria a primeira escola de samba da cidade. Ruindade também era o puxador da agremiação e, ia cantando da Praça 14 à Avenida Eduardo Ribeiro. Só utilizava o microfone (das rádios) quando chegava ao palanque oficial. Aí a festa era completa.

 

Tia Lurdinha e a 14

Lembremos da saudosa “baiana” e quituteira da G.R.E.S. Vitória Régia, Tia Lurdinha – falecida em julho de 2003 –, Que desfilou nessa escola por quase três décadas. Tia Lurdinha, quando era requisitada, sempre cantava uma quadra de um antigo samba da escola: “Não é direito/ não é legal/ Mudar o nome de Praça14/ Para Praça Portugal”, rememorando um samba dos anos de 1950 da extinta escola do então longínquo bairro da Praça 14. Samba-protesto, cantado por grande dos moradores do bairro, que não concordava com a possível mudança do nome Praça 14 para Praça Portugal. Como se sabe, a data de 14 de janeiro é alusiva a uma Revolução, ao levante popular, que culminou com a derrubada do governador Taumaturgo Azevedo em 14 de janeiro de 1892, fato que fez com que o Governo Federal designasse para cá, em definitivo, por quatro anos, o engenheiro maranhense Eduardo Gonçalves Ribeiro, para governar o Estado, três meses depois.

A Praça 14 também já foi chamada de Praça da Conciliação e Praça Fernandes Pimenta, passando depois, oficialmente, a se chamar Praça 14 de Janeiro, um pouco antes dos meados do Século XX. O núcleo inicial dos moradores do bairro chegou aqui em 1886. Eram em sua maioria, formado por negros maranhenses, alforriados. O Estado do Amazonas aboliu os escravos, quatro anos antes da Lei Áurea (1888) e grande parte dos negros que queriam a libertação chegavam à Manaus nas embarcações a vapor, desde Belém-PA. Esses negros trouxeram sua forma de viver em vários aspectos e daí o berço do samba de Manaus ser a Praça 14 de Janeiro (Ou Vila Maranhense, como diziam os antigos), que abraçou esta cultura de raízes africanas, “ligada e atada” com os batuques, que gerou o samba de Manaus. No trecho compreendido entre as ruas Japurá e Visconde de Porto Alegre, além das “baixadas” próximas à Avenida Ayrão e parte da Rua Duque de Caxias, foram mais crescentes e pujantes essa influência. No início, mais entrelaçado ao sincretismo religioso (com o catolicismo), com as festas do “Mastro de frutas”, de São Benedito, dando paulatinamente – com o passar das décadas – espaço para o próprio samba iniciar sua história na cidade.

Vide trechos de alguns sambas – dos anos 50 – da Escola Mixta:

 

“Manaus e os seus grandes monumentos”

Compositor: Nezinho

Salve o nosso grande Teatro Amazonas

Que nunca se quebrou

Foi o prédio primeiro construído na Avenida Eduardo Ribeiro

E o ideal que não fica para trás

De ano em ano faz seus bailes de cartaz

Mas o Tribunal de Justiça é quem manda mais

 

“Minha Praça 14 querida”

Compositor: Nezinho

 

Minha 14 querida

O carnaval já chegou

Queremos te ver na avenida (bis)

Cantando o samba

Em seu louvor

Tu és para mim

A escola mais querida

Praça 14 é minha vida

O carnaval já chegou (bis)

Meu senhor

Para alegrar nossa vida

 

“Homenagem ao Teatro Amazonas”

Nasceu em 1800

Não abandono seu sofrimento

Mas o seu nome não morreu

Agora tem outra vida

Parece até o dia em que ele nasceu

 

Está certo! Está certo!

Quem deu a vida ao Teatro foi Gilberto (bis)

 

E o mais conhecido:

“Não está certo, Não está legal”

Compositor: Zé Ruindade

 

Houve um comício

E a turma toda protestou

A nossa Escola não perde a pose

Vamos descer como Praça 14

 

Não está direito

Não está legal

De mudar o nome de Praça 14

Para Praça Portugal (Refrão)

 

* A Mixta encerrou as suas atividades em 1962, com o presidente Edmilson Costa.  As cores do pavilhão da mais antiga Escola de Samba baré eram: amarelo, preto e vermelho. O detentor do estandarte original  era o pesquisador e Mestre de Boi Bumbá, Melchiades Braga, o “Ligeiro”, também compositor, falecido em 2008.

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Autor
Daniel Sales

* Daniel Sales é pesquisador cultural.

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