Toda gente que escreve (bem, como muitos, ou mal, como eu) já pensou em produzir uma crônica de Natal. Entende-se. O ambiente é propício ao sentimentalismo pois a Igreja Católica conseguiu cercar a festa de uma aura que transborda a própria crença religiosa. Quem nela foi criado, como é o meu caso, mesmo que se afaste dos preceitos, jamais consegue esquecer os presépios e a ternura das canções que a todos envolvem. É uma época, mesmo para os mais empedernidos, de expressar boa vontade e reconhecimento, de tal maneira que o chamado “espírito de Natal” se faz presente nos mais corriqueiros gestos.
Se assim é – e rendo-me à evidência –, parece-me de todo em todo correto que possa eu traduzir esse sentimento natalino através da evocação da figura da amizade. Ser amigo é ser leal e solidário. É compreender e desculpar os defeitos que, na “humana lida” se apresentam inexoráveis. Dizer o que se pensa e escutar também, com aquela paciência que não se encontra na vulgaridade do egoísmo pretensioso. Talvez por isso não seja tão fácil fazer a contabilidade dos verdadeiros amigos. Camilo Castelo Branco, o grande literato português, já exclamava: “Amigos, cento e dez ou talvez mais eu já contei/Supus que sobre a terra não havia mais ditoso mortal entre os mortais”. E o triste lamento que se lhe segue: “Um dia adoeci profundamente: ceguei/Dos cento e dez houve um somente que não desfez os laços quase rotos”.
Quanto a mim, posso proclamar um nome para o qual tais laços não se romperiam diante da minha cegueira. Nem mesmo se desgastariam. Alfredo Moacyr Cabral. Há cinquenta e três anos, desde que o conheci ainda nas aulas da escola “Sólon de Lucena”, Alfredo tem sido meu companheiro fraterno, o confidente em cujos ombros deposito minhas mágoas e de cuja boca recebo sempre as mais ternas e compreensivas palavras quando a vida desanda a me atormentar.
Dei o seu nome a um dos meus filhos. E quando o meu Alfredinho sofreu acidente gravíssimo que quase lhe tirou a vida apenas iniciada, Alfredo Cabral não lhe deixou a cabeceira, constante na solidariedade e incansável na tentativa de consolar os pais que se abatiam diante da brutalidade da ameaça que então pairava inclemente. Era o Alfredo Cabral de sempre.
Cavalheiro por formação e convicção, dele alguém jamais presenciou uma grosseria até porque, firme nos seus propósitos, sabe, como cidadão e como advogado (dos melhores, que é) sustentar seus pontos com a firmeza necessária, sem descambar para a perda da lhaneza. Isso, digo-lhes, é impensável. Alfredo Cabral é a essência da gentileza e, se é certo que o cavalheirismo verdadeiro já não anda tão em voga, é ele um remanescente autêntico da espécie, a todos encantando com seu falar escorreito e impecável educação, tanto mais admirável quando se sabe que foi criado em lar paupérrimo, contando apenas com o apoio de dona Cândida e dona Vivi, mãe e tia que nos legaram essa preciosidade.
A elas, e em sua memória, agradeço por o terem feito. E através de ti, meu amigo Alfredo Moacyr Cabral (como é sublime poder assim dizer!), transmito toda a minha sincera esperança de que a Humanidade, no Natal ou fora dele, encontre o caminho da paz e da concórdia, da convivência sem ódios e sem preconceitos, da prevalência da sabedoria sobre a ignorância. Isso será possível se se multiplicarem os seres humanos como tu. Obrigado por existires.
Feliz Natal.
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* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...