O deputado Chico Preto, que entre outras agruras na vida enfrentou a de ter sido meu aluno, empreendeu elogiável esforço para chamar à responsabilidade as empresas de telefonia. Convocou audiência pública na Assembleia Legislativa do Estado, convidou os setores tecnicamente ligados ao assunto e o povo, como é óbvio, tudo para saber uma coisa que tem desafiado a inteligência das mentes mais aguçadas: por que, no Amazonas, os telefones não telefonam? E ainda, de sobra, para esclarecer a razão de, aqui, os sinais de fumaça e o rufar de tambores serem mais eficientes que a internet, fato que por certo escapou ao conhecimento de Steve Jobs.
E lá se foram os empresários a exibir gráficos e planilhas, tudo permeado por palavras desconhecidas do vernáculo, ao fito de demonstrar que se as ondas alfa, sofrendo a influência de radiação beta, cruzarem com um feixe de fibra ótica, produzirão uma reação expressa por pi ao quadrado sobre raiz cúbica de ômega, de tal maneira que o som daí decorrente se torna imperceptível ao ouvido humano. Estava resolvido o problema: os telefones telefonam; nós é que não conseguimos ouvir nada.
Defeito insuperável da mísera condição humana. Oferecem-nos um serviço da mais alta qualidade, mas a péssima estrutura do nosso organismo não nos permite dele desfrutar e ainda ficamos irritados com os fornecedores como se deles fosse a culpa por o barro não ter sido corretamente modelado.
Um atento participante da audiência evocou seus tempos de infância para lembrar que era comum as crianças ligarem duas caixas de papelão por um fio de barbante e através delas se comunicarem verbalmente. Perguntou se não era esse o princípio básico da telefonia e indagou por que o avanço da tecnologia não serviu para melhorar tão empírico brinquedo. Levou um escracho monumental. Foi-lhe feita a advertência de que não manifestasse ignorância tão primária, quando se estava a discutir o que havia de mais moderno e científico no mundo. “Afinal de contas – disseram-lhe – o senhor precisa conhecer o tamanho do capital e do lucro da OI, da TIM, da Claro, da Vivo e de tantas outras empresas que, abnegadas, não pensam em outra coisa senão em fazer com que o senhor desfrute das maravilhas que oferecemos”.
Acachapado, o pobre homem foi embora, não sem antes, à Galileu e olhando tristemente para o telefone celular, formular singelo protesto: “Mas que não funciona, não funciona”.
Já houve casos de a pessoa pegar seu aparelho, digitar um número de telefone e receber a seguinte mensagem, proferida por uma voz robótica: “Este aparelho não está programado para efetuar ligações”. Curioso, não? A programação deve ser feita exclusivamente para permitir que, no fim do mês, recebamos uma conta astronômica. E ai de quem for reclamar! Vai padecer no mais sinuoso dédalo de burocracia e de chatice. “Se você quer contratar nossos excelentes serviços, disque 1. Se quer obter segunda vida da fatura, disque 2. Se acha que sua conta está muito pequena, disque 3. Se quer falar com um dos nossos atendentes e ouvir música, disque 4. Se quer simplesmente ser besta, ligue novamente para nós”.
Vai lá, meu caro Chico Preto. Vamos dar um jeito de enquadrar a canalha. Afinal de contas, ninguém é de ferro.
* Félix Valois é advogado, professor universitário e integrou a comissão de juristas instituída p...