
Pesquisa aponta que responsabilidades familiares e informalidade ainda dificultam o crescimento de negócios liderados por mulheres no Brasil. (Foto: Tiago Corrêa/UGPE)
A conciliação entre empreendedorismo e responsabilidades familiares continua sendo um dos principais obstáculos enfrentados por mulheres que administram seus próprios negócios. Segundo o levantamento, mais de oito em cada dez empreendedoras já precisaram parar temporariamente suas atividades profissionais para cuidar de outras pessoas, principalmente dos filhos.
A falta de uma estrutura de apoio amplia esse desafio. Cerca de três em cada quatro mulheres ouvidas pela pesquisa afirmam não contar com uma rede pessoal que possa ajudá-las nas tarefas de cuidado.
Para Ana Fontes, fundadora e presidente da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME, reduzir a sobrecarga exige uma organização mais estruturada da rotina profissional. Entre as medidas estão estabelecer horários definidos para o trabalho, calcular corretamente o preço dos serviços, aprimorar a administração do negócio e criar uma rede capaz de dividir tarefas domésticas e operacionais.
A situação financeira também aparece como um dos pontos de maior vulnerabilidade para as empreendedoras brasileiras.
O levantamento mostra que 46,6% dos negócios autônomos comandados por mulheres têm faturamento médio de até dois salários mínimos, equivalente a aproximadamente R$ 3.242.
Para 38% das empreendedoras, essa receita não é suficiente para cobrir todos os custos relacionados à manutenção do negócio. A insuficiência financeira acaba levando parte delas a buscar outras fontes de renda e dificulta a formação de reservas para emergências, investimentos e expansão das atividades.
Uma das estratégias apontadas para melhorar esse cenário é separar completamente o dinheiro da empresa das finanças pessoais. A medida permite identificar com maior precisão quanto o empreendimento realmente arrecada, quais são seus custos e qual é o lucro obtido.
Entre as práticas recomendadas estão a abertura de uma conta exclusiva para a empresa e o estabelecimento de um valor fixo de retirada mensal pela empreendedora. Dessa forma, os gastos pessoais deixam de comprometer diretamente o caixa utilizado na operação.
A informalidade é outro obstáculo identificado pela pesquisa. 31,9% das empreendedoras ainda não possuem formalização, e entre aquelas que permanecem sem CNPJ, 38,9% apontam o custo como a principal razão para não regularizarem a atividade.
A ausência de formalização também pode dificultar o acesso a mecanismos importantes para o desenvolvimento empresarial, como crédito, financiamento e determinadas oportunidades comerciais.
O acesso a recursos financeiros aparece, inclusive, como um dos principais problemas para o crescimento dos pequenos negócios comandados por mulheres. Segundo a pesquisa, 35,4% das entrevistadas consideram o acesso ao crédito e ao financiamento bancário o maior entrave para desenvolver suas empresas.
Para transformar negócios criados inicialmente como alternativa de sobrevivência em empreendimentos capazes de crescer de maneira sustentável, especialistas defendem uma mudança na forma como as próprias empresárias administram suas atividades e também na maneira como políticas públicas e instituições de apoio atendem esse público.
O controle financeiro aparece como um dos primeiros passos. Isso inclui separar as contas pessoais das empresariais, conhecer a margem de lucro de cada produto ou serviço e acompanhar antecipadamente as entradas e saídas previstas no caixa.
Outra frente é a formalização. Para que mais mulheres regularizem seus negócios, a orientação precisa mostrar não apenas as obrigações relacionadas ao CNPJ, mas também as vantagens práticas que podem resultar da regularização, como possibilidade de emissão de notas fiscais, acesso a determinadas linhas de crédito, participação em parcerias comerciais e proteção previdenciária.
A capacitação também precisa considerar o estágio de cada empreendimento. Uma orientação gradual e adaptada à realidade financeira das empresárias pode facilitar a compreensão sobre gestão, formalização e planejamento.
Além das iniciativas individuais, o levantamento aponta a necessidade de medidas estruturais para ampliar as oportunidades das empreendedoras.
Entre os caminhos estão políticas públicas que reconheçam as mulheres como agentes econômicas, fortalecimento de redes de apoio para reduzir o isolamento e criação de mecanismos que combinem crédito, capacitação e acesso ao mercado.
A integração dessas frentes pode contribuir para que os negócios deixem de funcionar apenas como fonte imediata de renda e tenham condições de alcançar maior estabilidade, planejamento e crescimento.
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