27/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Morre Maca, cantor e performer das noites de Manaus

Publicado em 27 de agosto, 2026

Morre Maca, cantor e performer das noites de Manaus

Artista marcou a boemia manauara com interpretações grandiloquentes e protagonizou no Teatro Amazonas uma apresentação histórica de “Lágrima Borrada”. (Foto: Reprodução)

Morreu Maca, cantor e performer que durante anos foi uma figura marcante das noites de Manaus. A morte traz de volta a lembrança de um artista que fez dos bares, palcos e espaços da boemia manauara o território de interpretações intensas, grandiloquentes e profundamente teatrais.

Maca não era apenas uma voz. Era presença.

Quem frequentou a noite de Manaus em sua época de maior atividade podia encontrá-lo surgindo em bares e casas noturnas, transformando uma música em espetáculo. Cantava com o corpo inteiro. O gesto, a expressão do rosto, a roupa, a movimentação pelo ambiente e a maneira de interpretar faziam parte da apresentação.

Depois, Maca desapareceu da cena. Para boa parte do público, ficou a pergunta sobre o destino daquele artista que durante tanto tempo parecia pertencer naturalmente à noite manauara.

A notícia de sua morte encerra esse silêncio e recupera também uma passagem emblemática de sua trajetória artística.

Uma noite no Teatro Amazonas

O compositor Zezinho Cardoso guardou a memória de uma das apresentações mais marcantes de Maca: a interpretação de “Lágrima Borrada”, em uma temporada do grupo Raízes Caboclas no Teatro Amazonas.

A canção nasceu de uma experiência vivida pelo próprio Zezinho no Centro de Manaus.

Seu escritório funcionava em uma área que, à noite, era ponto de travestis. Da janela, ele observava encontros entre aquelas pessoas e homens que chegavam, muitas vezes, em carros importados. Inicialmente incomodado com situações que encontrava na calçada de seu estabelecimento no dia seguinte, Zezinho percebeu que havia naquela relação uma desigualdade muito maior a ser retratada: apenas um dos lados era julgado publicamente.

Quando o Raízes Caboclas o convidou para escrever uma letra para um espetáculo sobre uma noite de boemia em Manaus, ele levou a questão para o palco.

A proposta era contar a história de uma travesti de rua sem condenação nem idealização. A letra mirava a hipocrisia de uma sociedade que apontava o dedo para quem permanecia na esquina, enquanto preservava o anonimato de quem chegava, consumava o encontro e ia embora.

Nasceu “Lágrima Borrada”, com letra de Zezinho Cardoso e música de Armando de Paula.

E Maca foi escolhido para interpretá-la.

Maca transformou plateia em rua

A apresentação condensava aquilo que caracterizava o artista.

Vestido como a personagem da canção, Maca não se limitou a cantar. Construiu uma interpretação teatral e fez da plateia do Teatro Amazonas a própria rua onde aquela personagem buscava encontros, afeto e sobrevivência.

O espetáculo transformava em drama a solidão escondida atrás da maquiagem e colocava diante do público duas faces da mesma relação: quem era condenado pela sociedade e quem podia voltar tranquilamente para casa.

Um dos versos sintetizava a dureza da personagem: “O prazer que eu te dou é carne sem poesia”.

Segundo Zezinho Cardoso, o Teatro Amazonas estava lotado e Maca terminou a apresentação aplaudido de pé. A cena se repetiu durante as três noites da temporada.

“Lágrima Borrada” seria posteriormente gravada pela cantora Lucilene Castro e também por Armando de Paula. Mas aquela interpretação ficou associada à memória de Maca justamente porque reunia suas principais características: exagero cênico, dramaticidade, coragem e entrega.

Um personagem da noite de Manaus

Maca pertenceu a uma geração de artistas cuja história nem sempre ficou preservada em discos, arquivos ou registros oficiais.

Parte dela sobrevive na lembrança de quem estava nos bares, nas casas noturnas e nos espetáculos de Manaus quando ele aparecia e tomava conta do ambiente.

Era cantor, mas fazia questão de ser também personagem. Não economizava gesto. Não economizava emoção. Não economizava palco.

Depois veio o afastamento e, com ele, o silêncio.

A morte de Maca recupera agora a imagem daquele artista que fazia de cada interpretação uma pequena peça teatral.

E talvez nenhuma lembrança o represente melhor do que aquela noite no Teatro Amazonas, quando um cantor acostumado à boemia entrou em cena como uma personagem marginalizada, transformou a plateia em esquina e saiu do palco sob aplausos de pé.

Maca havia feito o que sabia fazer: transformar uma canção em acontecimento.

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