25/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Emoção e tradição marcam Boi de Rua do Caprichoso, que arrasta multidão em Parintins

Publicado em 21 de junho, 2026

Emoção e tradição marcam Boi de Rua do Caprichoso, que arrasta multidão em Parintins

Uma multidão apaixonada pelo Caprichoso invadiu as ruas de Parintins na noite deste sábado, 20, na brincadeira do Boi de Rua, numa grande celebração do povo que encontra na tradição uma forma de continuar contando sua própria história.

Um dos pontos de partida foi a Francesa, na confluência com a rua Sá Peixoto, reduto do Esconde e Urubuzal, onde os torcedores se reuniram para o tradicional esquenta. De outro lado, vindo do Palmares, bem “pra lá da placa”, o trio elétrico acompanhou a Marujada e os itens oficiais em um grande arrastão. O encontro foi uma explosão de alegria, na esquina da Rio Branco, rua da tradição Caprichoso.

O presidente Rossy Amoedo seguiu na frente da Marujada e até acertou uns toques no tambor.

Brincadeira

“Estou muito feliz vendo essa multidão brincando de boi. O Boi de Rua abraça a todos. É muito afeto, muito amor compartilhado. E a gente vê que o verdadeiro espetáculo é o povo que faz. E é essa emoção que toma conta da gente”, frisou.

Por todo o trajeto, os cantores levantaram toadas que ficaram imortalizadas na história do bumbá. “Alô, vou desfilando na cidade, o meu boi é da mocidade, é boi bonito de verdade”, entoavam. E teve muita “onda” com centenas de triciclos enfeitados e torcedores, ao melhor estilo boi-bumbá. “É hoje que vai ter onda, é hoje, é hoje”, gritavam os torcedores.

O Boi de Rua seguiu pela Avenida Amazonas, brincou na Catedral de Nossa Senhora do Carmo e já era madrugada quando passou pela Cordovil, local do último curral, do guardião Luiz Pereira.

Memória viva

Casa do Pirolote

No Esconde, reduto tradicional do azul e branco, a brincadeira de rua é memória viva. Lá, as famílias enfeitaram as casas com bandeiras, cartazes e um grupo de marujeiros fez o esquenta para a saída nas ruas.

Arlene Fernandes da Cruz e Ilzinei Fernandes estenderam um banner com a imagem de um dos brincantes mais emblemáticos do Caprichoso, Ilsio Meneses da Cruz, o “famoso” Pirolote. Ele foi um brincador de xeque-xeque, instrumento que confeccionava de bambu.

“Papai brincou no boi desde os 10 anos, ele tinha um jeito único de dançar o dois-pra-lá, dois-pra-cá. Ia até embaixo. A roupa dele pra brincar no Caprichoso era impecável, calça de linho, camisa de seda e um chapéu com flores todo enfeitado”, relata a filha Ilzinei.

Os filhos, netos e bisnetos de dona Nelcina Cid, herdeiros de dona Quixita, da família de Roque Cid, estavam emocionados revivendo a herança afetiva de quem aprendeu a amar o boi por meio das lembranças de seus pais e avós.

Histórias contadas nas calçadas, nos quintais, nas rodas de conversa do Esconde, onde o Caprichoso sempre foi identidade, pertencimento e tradição.

O bumbá também foi homenagear Juarez Lima, na casa da família da Cruz, recordando parentes que já partiram, mas continuam vivos em cada verso cantado e em cada passo do cortejo.

A essência da brincadeira está na capacidade de unir as famílias e no olhar emocionado de quem revive a infância ao ouvir os primeiros toques da Marujada.

Superando as limitações

Teo Reis, portador de AME

Entre as emoções que a brincadeira produz estão os encontros que transformam vidas. É indescritível o sentimento de quem viu o boi passar pela primeira vez, mesmo enfrentando limitações físicas, doenças ou desafios diários. Pessoas cadeirantes, idosos, enfermos e tantos outros que encontraram, naquele momento, uma alegria capaz de superar dores e renovar esperanças.

Foi assim com o Teo Reis Dutra, um jovem portador de AME, doença degenerativa, mas que pediu à família que queria ver o Caprichoso pelo menos uma vez. Ele estava esperando o boi na esquina da Rio Branco. Foi um dos encontros com o Caprichoso mais emocionantes. O sorriso de Teo, as lágrimas de sua mãe, o abraço da família, o amor extrapolando todos os sentidos.

“Só o amor pelo Caprichoso faz isso”, disse o presidente do Conselho de Arte, Ericky Nakanome, visivelmente emocionado.

Rei Azevedo, ex amo com pouca visão

Mas os encontros estavam só começando. O Rei Azevedo, eterno amo do bumbá que hoje está em cadeira de rodas e com pouca visão por conta do diabetes, também foi homenageado. “Eu dei um beijo na estrela do meu boi. Só Caprichoso emociona a gente e traz essa surpresa, vem aqui na nossa casa fazer essa homenagem. Estou muito feliz”, disse.

Quem também emocionou foi a Socorro Oliveira e sua filha, que carregavam as fotos dos amigos André Porto e Murilo Faleiros, que não puderam participar do Boi de Rua. Murilo está na UTI em São Paulo, em tratamento de saúde. “Nós estamos aqui pra representá-los, eles são apaixonados pelo Caprichoso e até uma bandeira do boi e um chapéu estão com ele na ITI”, contou. A participação foi uma forma de esperança de que em breve Murilo estará de volta.

Diante de tantas histórias carregadas de emoção, vem a constatação de que só Parintins é capaz de despertar tanto sentimento. E enquanto houver famílias, gente apaixonada e o povo dispostos a cantar, dançar, contar uma lembrança ou se emocionar, a essência do Boi de Rua continuará viva, pulsando nas ruas, nos lares e nos corações de todos que fazem parte dessa tradição.

Texto Peta Cid
Fotos : Elinaldo Tavares
Especial para Portal Marcos Santos

Amigas do Murilo Faleiros

Veja mais notícias em Parintins

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.