01/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Governo recua e devolve R$ 100 milhões à UEA após pressão política e reação do setor produtivo

Publicado em 11 de junho, 2026

Governo recua e devolve R$ 100 milhões à UEA após pressão política e reação do setor produtivo

O Governo do Amazonas recuou da decisão que retirava R$ 100 milhões do orçamento da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Nesta quinta-feira (11), o governador Roberto Cidade anunciou a suspensão do decreto que determinava o contingenciamento dos recursos da instituição, após uma onda de críticas que envolveu a comunidade acadêmica, o setor produtivo e lideranças políticas do Estado.

A medida havia provocado forte reação nos meios universitário e empresarial por atingir recursos historicamente vinculados à manutenção e expansão da UEA, considerada uma das principais conquistas institucionais do Amazonas nas últimas décadas.

O episódio ganhou repercussão nacional após pronunciamento do senador Omar Aziz (PSD-AM) na tribuna do Senado Federal. Em discurso contundente, Omar criticou a retirada dos recursos da universidade e associou a medida à tentativa de reforçar o caixa do sistema previdenciário estadual, pressionado por perdas decorrentes de investimentos realizados no Banco Master.

Pronunciamento

O pronunciamento recebeu apartes igualmente duros dos senadores Eduardo Braga (MDB-AM) e Plínio Valério (PSDB-AM), que, apesar das diferenças políticas, manifestaram apoio à defesa da universidade e criticaram a retirada dos recursos.

A convergência dos três representantes do Amazonas no Senado chamou atenção em Brasília e ampliou a pressão sobre o governo estadual.

Nos bastidores, a avaliação predominante era de que os recursos da UEA poderiam ser utilizados para ajudar a recompor o fundo previdenciário estadual, afetado por aplicações financeiras que passaram a ser alvo de questionamentos após dificuldades envolvendo o Banco Master. Embora o governo tenha negado qualquer intenção de desviar recursos da universidade para outras finalidades, a hipótese alimentou a reação política e institucional observada nos últimos dias.

A repercussão também foi intensa no Polo Industrial de Manaus (PIM), principal origem das receitas que sustentam a UEA. Empresários e representantes da indústria demonstraram preocupação com a possibilidade de utilização de recursos vinculados à educação superior para cobrir déficits de outras áreas da administração pública.

Modelo

O modelo de financiamento da universidade foi criado durante o governo de Eduardo Braga justamente para garantir autonomia financeira à instituição. Desde então, a UEA passou a contar com receitas associadas à atividade econômica da Zona Franca de Manaus, permitindo sua expansão para dezenas de municípios do interior e consolidando um dos maiores programas de interiorização do ensino superior do país.

Ao anunciar a suspensão do decreto, Roberto Cidade afirmou que a decisão foi tomada para evitar interpretações de que os recursos da universidade poderiam ser destinados a outros fins.

Segundo o governador, os valores permanecerão temporariamente bloqueados como medida de controle fiscal e serão liberados gradualmente conforme a recuperação da arrecadação estadual.

O governo atribui a necessidade de contenção de despesas à queda das receitas provocada pela desvalorização do dólar. Como grande parte da arrecadação do Amazonas está ligada às operações de importação realizadas pelas indústrias da Zona Franca de Manaus, as oscilações cambiais afetam diretamente o caixa estadual.

Arrecadação

De acordo com o vice-governador Serafim Corrêa, a perda acumulada de arrecadação neste ano se aproxima de R$ 700 milhões em comparação com o mesmo período de 2025. A expectativa do governo é de recuperação gradual da receita ao longo do segundo semestre.

O reitor da UEA, André Zogahib, afirmou que a universidade continuará funcionando normalmente e que não haverá prejuízos para as atividades acadêmicas, programas de bolsas, obras, pesquisas e demais compromissos da instituição.

Segundo ele, os recursos permanecem vinculados à própria universidade e serão liberados conforme a arrecadação prevista pelo Estado for efetivamente confirmada.

A suspensão do decreto encerra, pelo menos temporariamente, uma crise que mobilizou setores estratégicos do Amazonas. Para observadores políticos, o recuo foi resultado direto da pressão exercida simultaneamente pelo Senado, pela comunidade universitária e pelo Polo Industrial de Manaus, que enxergaram na medida uma ameaça ao modelo de financiamento que sustenta a UEA há mais de duas décadas.

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