04/AGO 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Brasil completa 30 anos

Publicado em 03 de agosto, 2026

Primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Brasil completa 30 anos

Há 30 anos, foi criada a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira unidade desse modelo de conservação no Brasil. Com mais de um milhão de hectares de florestas alagáveis, a reserva protege um dos mais importantes ecossistemas de várzea do planeta. Integrante do Complexo de Conservação da Amazônia Central, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial Natural, e também da lista de Áreas Úmidas de Importância Internacional da Convenção de Ramsar, Mamirauá reúne alguns dos mais elevados reconhecimentos internacionais concedidos a áreas protegidas.

Nesse território vivem espécies emblemáticas da fauna amazônica e comunidades ribeirinhas que, ao longo de décadas, vêm contribuindo para a construção de um modelo pioneiro de conservação, baseado na integração entre pesquisa científica, conhecimentos tradicionais e indígenas e gestão participativa dos recursos naturais.

Desenvolvido a partir de iniciativas iniciadas na década de 1980, esse modelo representou uma inovação na conservação da natureza ao demonstrar a viabilidade da conciliação entre a proteção da biodiversidade, a permanência das populações tradicionais em seus territórios e o uso sustentável dos recursos naturais.

Natureza

Essa transformação teve entre seus principais idealizadores o biólogo José Márcio Ayres (1954–2003), cuja atuação foi decisiva para a criação da Reserva Mamirauá e para a consolidação de um novo paradigma de conservação da natureza. Em um período em que predominavam modelos de proteção baseados na exclusão da presença humana, Ayres ajudou a construir uma proposta inovadora para a Amazônia, posteriormente reconhecida internacionalmente e premiada como uma das mais importantes contribuições à conservação da biodiversidade. Embora tenha falecido precocemente, aos 49 anos, seu legado permanece vivo na Reserva Mamirauá e inspira iniciativas de conservação em diferentes regiões do mundo.

Criar uma área protegida nem sempre significou proteger quem vive nela. “Naquele momento, a criação de uma unidade de conservação ainda era frequentemente associada à retirada das populações que viviam no território”, explica João Valsecchi do Amaral, Diretor Geral do Instituto Mamirauá. A instituição mudou esse cenário ao demonstrar que a conservação da Amazônia depende de seus moradores. “Mamirauá mostrou que era possível seguir outro caminho: reconhecer as comunidades tradicionais como protagonistas da conservação, assegurando sua permanência no território e valorizando seus modos de vida”, afirma. Essa virada de chave só foi possível pela integração entre o conhecimento tradicional e a ciência aplicada, além da construção de uma ampla rede de parceiros dos setores público e privado.

Marco

“Chegar nesses 30 anos é realmente um marco de continuidade”, destaca Valsecchi. Ele aponta que o momento traz o desafio de seguir fortalecendo esse modelo diante dos novos cenários climáticos, sociais e econômicos que a Amazônia enfrenta. Tudo isso, segundo ele, “sem perder de vista o que sustentou a Reserva Mamirauá até aqui: a permanência das comunidades em seus territórios e o compromisso com a pesquisa de ponta, na ponta, com impactos positivos reais”, relata.

Hoje, a Reserva Mamirauá representa, há 30 anos, um dos principais exemplos de área protegida no Brasil onde a pesquisa científica orienta diretamente as normas de uso dos recursos naturais. De acordo com o diretor, esse modelo de gestão é baseado na integração entre os resultados da pesquisa básica e aplicada, o monitoramento contínuo da biodiversidade, a inovação tecnológica e a construção de regras de manejo baseadas nesse conhecimento e definidas em conjunto com quem vive no território há gerações.

Hoje, três décadas depois de sua criação, o modelo inaugurado em Mamirauá está presente em 46 Reservas de Desenvolvimento Sustentável distribuídas pelo Brasil, consolidando uma das mais importantes contribuições brasileiras para a conservação da natureza.

“A minha infância na RDS Mamirauá foi de muito aprendizado. A gente morava numa comunidade tradicional, onde tudo era comum: o convívio com a natureza, com os bichos, com a comunidade, foi muito valioso para o que eu sou hoje. Eu acredito que o mais precioso de morar dentro de uma unidade de conservação é saber que onde você mora está protegido, e que as futuras gerações vão poder usufruir de tudo aquilo, sentir a mesma natureza que eu senti. Mamirauá é onde tudo começou. Nós, como moradores, temos muito orgulho de dizer que o nosso território foi a nossa escola de aprendizado para o futuro”, conta Carlos de Carvalho Gonçalves, morador da Reserva Mamirauá e Diretor Presidente da AMURMAM.

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Ao longo dessas três décadas, a Reserva Mamirauá consolidou-se como um importante espaço para pesquisas de longo prazo sobre ecossistemas de várzea, manejo sustentável dos recursos naturais, conservação da biodiversidade e modos de vida amazônicos. Um dos exemplos mais conhecidos desse trabalho de longo prazo é o manejo participativo de pesca do pirarucu, criado a partir de pesquisas e conhecimento tradicional ribeirinho sobre o comportamento e a reprodução da espécie. O sistema é baseado em contagens regulares dos estoques, feitas pelas próprias comunidades pesqueiras antes de cada temporada, e em cotas de captura definidas a partir desses dados. O Programa salvou a espécie do risco de extinção, com aumento de estoque acima de 600% nas áreas manejadas e tamanho médio de pirarucu pescado em 1,80m. Hoje, a metodologia é usada como referência técnica por outras iniciativas de manejo pesqueiro na Amazônia e em outros países da bacia amazônica.

Pesquisas

Centenas de outras pesquisas e ações na ponta junto às comunidades são conduzidas na Reserva. Ruth Martins, moradora da Reserva de Mamirauá desde que nasceu, relembra a abundância da flora e fauna na época de sua infância, o que era enxergado como uma carta livre para utilização dos recursos naturais. “Antigamente, havia muita extração de madeira em um lugar específico aqui. Mas com o programa de manejo florestal, o povo foi conscientizado para não retirar madeira ilegal. Hoje, essa área não é mais de exploração madeireira”, comenta.

Ela também enxerga a aliança do conhecimento tradicional com o conhecimento técnico científico como sendo importante ator nos rumos que a comunidade da Reserva tomou dali para frente. Hoje, trabalhando com turismo de base comunitária na pousada Casa do Caboclo, a vida de Ruth tornou-se um exemplo dessa aliança de conhecimentos, juntamente com o retorno à sua própria identidade. “A pousada é uma inovação para mim dentro da unidade de conservação e dentro da minha comunidade, além de ser fonte de renda familiar e comunitária que nos permite manter a subsistência. Eu quero continuar com a minha cultura, com o meu perfil de ser cabocla e indígena, e quero ter o meu costume aqui. Eu nasci aqui, então eu tenho que usar o que eu gosto daqui, não é?”, explica.

Território

Trinta anos depois de sua criação, a Reserva Mamirauá permanece como um território de diálogo entre ciência e conhecimentos tradicionais, contribuindo para ampliar a compreensão sobre a Amazônia e seus desafios socioambientais e demonstrando, por meio de evidências científicas e da experiência acumulada, o potencial de estratégias que conciliam conservação ambiental e desenvolvimento social.

“Reserva Mamirauá representa, há 30 anos, um dos exemplos de área protegida no Brasil onde a pesquisa científica orienta diretamente as normas de uso dos recursos naturais. Esse modelo de gestão é baseado na integração entre monitoramento contínuo da biodiversidade e regras de manejo dos recursos naturais definidas em conjunto com quem vive no território há gerações. Chegar nesses 30 anos é realmente um marco de continuidade, nos trazendo o desafio de seguir fortalecendo esse modelo diante de novos cenários, sejam eles climáticos, sociais e econômicos que a Amazônia enfrenta, sem perder de vista o que sustentou a Reserva Mamirauá até aqui: a permanência das comunidades em seus territórios e o compromisso com a pesquisa aplicada na ponta, com impactos positivos reais “, afirma João Valsecchi do Amaral, Diretor Geral.

Para além da conservação da biodiversidade, a permanência das famílias na reserva também está ligada às condições de vida no território, como o acesso a renda, moradia e transporte, entre outros fatores que fazem parte do cotidiano de quem vive na região.

“Não adianta ter a natureza intacta se não houver dignidade para o povo ribeirinho, como por exemplo, o acesso a renda, moradia, transporte de qualidade e políticas públicas, para que as famílias não precisem abandonar o território em busca de algo melhor. Quem fica não faz isso por dinheiro, mas por amor à Mamirauá, lutando para manter a floresta em pé porque esta é a nossa casa. O grande legado é reconhecer que o bioma, a natureza e o ser humano caminham juntos”, complementa Carlos.

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