
Estudo reúne relatos de mulheres do Amazonas e destaca impactos do racismo estrutural no atendimento à saúde materna. (Foto: Pixabay)
Uma pesquisa da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) aponta que mulheres negras enfrentam maior risco de sofrer violência obstétrica e negligência durante o atendimento de saúde. O estudo, desenvolvido pela doutoranda em Antropologia Social Rafaele de Souza Queiroz, indica que esse grupo tem 62% mais chances de passar por um pré-natal inadequado.
O trabalho, intitulado “Cor Visível, Corpo Desumanizado: experiências de mulheres negras e racializadas na assistência médica”, foi publicado no livro Racismo e Saúde: Perspectivas Antropológicas Contemporâneas, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).
A pesquisa reúne experiências de mulheres negras e racializadas da comunidade Purupuru, no Careiro, no Amazonas, com relatos de situações envolvendo negligência, constrangimento e falta de acolhimento durante atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo o estudo, muitas situações de violência obstétrica acabam sendo naturalizadas e nem sempre são reconhecidas pelas próprias vítimas. Entre os problemas apontados estão agressões verbais, desrespeito às escolhas das gestantes, falta de informação sobre procedimentos e demora no atendimento.
A pesquisadora destaca que mulheres negras são afetadas por desigualdades históricas que também se refletem nos serviços de saúde. Dados citados no estudo mostram que elas enfrentam mais dificuldades no acesso ao pré-natal adequado e maior peregrinação em busca de atendimento.
A pesquisa também aborda a realidade de mulheres ribeirinhas do Careiro, que muitas vezes precisam deixar suas comunidades antes do parto para buscar assistência em Manaus ou outros municípios.
O levantamento ganhou destaque em meio a debates recentes sobre violência obstétrica no Amazonas. Em maio deste ano, uma mulher deu à luz no banheiro do Instituto da Mulher Dona Lindu, em Manaus, após demora no atendimento. A família denunciou possível negligência, e a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (SES-AM) informou o afastamento dos profissionais envolvidos enquanto o caso é apurado.
Segundo a pesquisadora, a violência obstétrica pode ocorrer durante toda a gestação, no parto e no pós-parto, envolvendo aspectos físicos, psicológicos, verbais ou situações de negligência.
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