04/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Pesquisa aponta que metade dos adolescentes de Manaus já realizou trabalho infantil

Publicado em 04 de julho, 2026

Estudo da UEA identifica relação entre atividade precoce, violência, evasão escolar e vulnerabilidade social. (Foto: Reprodução)

O trabalho infantil continua sendo uma realidade para milhares de adolescentes em Manaus e está diretamente ligado a situações de violência, dificuldades econômicas e impactos na educação. A constatação faz parte de um estudo desenvolvido pela Universidade do Estado do Amazonas, que entrevistou 453 estudantes de 24 escolas públicas estaduais da capital.

Os dados integram o relatório Experiência Adversa na Adolescência: um inquérito de base escolar sobre a ocorrência do trabalho infantil em Manaus, Amazonas. O levantamento revelou que 50,8% dos adolescentes já atuaram em negócios da própria família. Outros 24,5% afirmaram transportar cargas pesadas, como sacos de cimento, móveis e tijolos, enquanto 22,1% disseram ter desempenhado atividades na construção civil.

A pesquisa também identificou adolescentes submetidos às formas mais graves de trabalho infantil. Entre os entrevistados, 1,1% relataram envolvimento com o tráfico de drogas, 2% disseram ter recebido algum tipo de recompensa em troca de favores sexuais e 0,7% informaram participação em produções de conteúdo pornográfico.

Segundo os responsáveis pelo estudo, a pesquisa foi realizada para suprir a falta de informações sobre o tema no Amazonas. A escassez de dados e a subnotificação dos casos dificultam a elaboração de políticas públicas voltadas ao enfrentamento do problema.

Conforme a Organização Internacional do Trabalho, o trabalho infantil engloba atividades que comprometem o desenvolvimento físico, emocional e educacional de crianças e adolescentes. No Amazonas, a estimativa é de cerca de 49 mil jovens em situação de trabalho infantil, embora especialistas considerem que o número real possa ser maior.

Trabalho infantil e violência caminham juntos

O levantamento aponta que o trabalho precoce raramente ocorre de forma isolada. Entre os adolescentes que exercem algum tipo de atividade laboral, 24,3% relataram sofrer abuso emocional, 19,4% afirmaram ter sido vítimas de violência sexual e 18,3% disseram ter enfrentado agressões físicas. Além disso, 32% convivem com episódios de violência nas comunidades onde vivem e 27,4% afirmaram sofrer bullying.

Outro aspecto identificado pelos pesquisadores foi a naturalização do trabalho infantil entre os próprios adolescentes. Muitos participantes enxergam o ingresso precoce no trabalho como uma obrigação familiar ou uma forma de contribuir financeiramente para a casa, sem reconhecer a situação como uma violação de direitos.

Dificuldades financeiras impulsionam trabalho precoce

A pesquisa mostra que a vulnerabilidade econômica está entre os principais fatores associados ao trabalho infantil. Quase metade das famílias dos estudantes entrevistados (46,4%) é beneficiária do Bolsa Família, enquanto 14,3% dos responsáveis pelo sustento estavam desempregados no período da pesquisa.

Nos relatos coletados, diversos adolescentes associaram o trabalho à necessidade de complementar a renda familiar, pagar despesas básicas ou garantir alimentação dentro de casa.

Os impactos também são percebidos na educação. Entre os participantes, 14,3% já haviam repetido de ano, e o trabalho apareceu como um dos fatores relacionados ao baixo desempenho escolar. Os pesquisadores também identificaram estudantes que conciliam atividades remuneradas ou tarefas domésticas com o horário destinado às aulas.

O estudo ainda revelou uma elevada participação dos adolescentes nas responsabilidades domésticas. Cerca de 68,2% disseram cuidar regularmente de crianças da família e 68,4% afirmaram realizar tarefas domésticas frequentes. Os pesquisadores alertam que essas atividades podem configurar trabalho infantil quando comprometem o tempo destinado aos estudos, ao lazer e à convivência social.

Números podem estar abaixo da realidade

Os responsáveis pelo levantamento destacam que os dados provavelmente não refletem toda a dimensão do problema. Isso porque a pesquisa foi realizada apenas com adolescentes matriculados e frequentando a escola, deixando de fora jovens que abandonaram os estudos — grupo que pode apresentar índices ainda maiores de trabalho infantil.

Além disso, a naturalização dessas atividades faz com que muitos adolescentes não reconheçam determinadas ocupações como trabalho infantil, contribuindo para a subnotificação.

Diante dos resultados, os pesquisadores defendem o fortalecimento de políticas públicas voltadas à permanência escolar, à proteção social das famílias e à integração entre os setores de educação, saúde, assistência social e órgãos de defesa dos direitos da criança e do adolescente. O estudo também aponta a ampliação de programas de aprendizagem profissional como alternativa para garantir oportunidades de inserção no mercado de trabalho de forma legal, protegida e compatível com a idade prevista na legislação.

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