
Presidentes de Garantido e Conselho de Arte do Caprichoso analisam como a festa traduz a identidade cultural amazônica (Fotos: Nathalie Brasil e Paulo Vinícius)
PARINTINS – Realizado no último fim de semana de junho, o Festival de Parintins se consolidou como uma das maiores manifestações culturais do país. Para além da disputa entre Caprichoso e Garantido, o espetáculo reúne referências indígenas, africanas e europeias em uma narrativa que projeta a identidade amazônica para o Brasil.
No Bumbódromo, durante três noites, mitos, lendas, saberes ancestrais e a realidade dos povos indígenas, ribeirinhos e caboclos ganham forma em alegorias, coreografias, toadas e encenações. O resultado é um espetáculo que combina música, teatro e artes plásticas em uma linguagem própria.
Para o presidente do Boi Garantido, Fred Góes, o Festival representa a cultura brasileira em sua essência por reunir diferentes matrizes culturais em uma mesma manifestação.
Segundo ele, a diversidade que caracteriza a formação do Brasil se expressa de forma ainda mais intensa na Amazônia. Fred avalia que o Festival ajuda a retirar a região da invisibilidade cultural e a projetar sua identidade para todo o país.
“O boi-bumbá incorpora elementos de várias regiões do Brasil e de diferentes povos que ajudaram a formar a sociedade brasileira. Tudo isso é ressignificado dentro da realidade amazônica”, afirma.
Fred destaca que o espetáculo é resultado de meses de pesquisa, debates e construção de narrativas. O objetivo, segundo ele, é transformar em linguagem artística temas ligados à história, à cultura amazônica e a questões universais.
Já o presidente do Conselho de Arte do Caprichoso, Ericky Nakanome, prefere definir o Festival como um reflexo da brasilidade, e não como uma síntese completa do país.
Para ele, as matrizes indígenas, africanas e europeias aparecem de forma marcante nos itens, nas temáticas e nas toadas. No entanto, nem todas as influências que compõem a identidade brasileira estão representadas com a mesma intensidade.
Nakanome observa que a formação cultural amazônica recebeu contribuições de diversos povos ao longo da história. Entre elas estão os fluxos migratórios impulsionados pelo ciclo da borracha, que ampliaram a diversidade da região.
Ele define o boi-bumbá como um arquétipo coletivo capaz de representar o povo amazônico e suas múltiplas origens. Essa identidade, segundo ele, se manifesta na estética visual, musical e narrativa apresentada na arena.
“O festival traduz, acima de tudo, a identidade do povo do Norte. É uma brasilidade construída a partir da Amazônia, viva, diversa e em constante transformação”, afirma.
Fred Góes também destaca que a arte produzida em Parintins nasce da combinação entre a herança indígena e as influências trazidas por missionários, viajantes e outros grupos que passaram pela região ao longo dos séculos.
Para ele, essa diversidade ajudou a formar gerações de artistas responsáveis pela construção do espetáculo que hoje atrai milhares de visitantes e espectadores em todo o país.
“Parintins reflete o Brasil naquilo que ele tem de mais verdadeiro, que é a diversidade. O Festival é um espaço de identidade, reflexão e valorização cultural”, conclui.