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A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) confirmou, em resposta ao gabinete do deputado federal Amom Mandel (Republicanos-AM), que a Azul e sua subsidiária Azul Conecta dominam integralmente a rota Manaus-Parintins-Manaus desde 2025. O dado expõe um cenário grave para o Amazonas: menos concorrência, menos assentos e passagens cada vez mais caras no período do Festival de Parintins.
A resposta da agência mostra que a tarifa média no mês do festival mais que dobrou entre 2022 e 2025. Saiu de R$ 663,35 para R$ 1.352,19 por trecho, em valores corrigidos pelo IPCA. Na prática, uma viagem de ida e volta que antes ficava na casa de R$ 1,3 mil pode superar R$ 2,7 mil pela média oficial. Em ofertas encontradas para 2026, o valor chega a R$ 4,7 mil por trecho, quase R$ 9,5 mil ida e volta.
O caso é ainda mais duro porque o transporte aéreo é uma das poucas alternativas rápidas para chegar à Ilha Tupinambarana. A viagem de barco pode durar muitas horas. Para trabalhadores, artistas, famílias e turistas amazonenses, o avião deixou de ser opção de mobilidade e passou a ser artigo de luxo.
A ANAC reconhece que, em 2025, a Azul concentrou 99,8% dos passageiros pagos na rota. A Azul Conecta ficou com os 0,2% restantes. Ou seja, o mercado ficou fechado, na prática, dentro do mesmo grupo empresarial. A Gol fez voos pontuais em 2024, mas saiu da rota.
O documento também revela que a oferta de assentos despencou. A Azul ofereceu 69.266 assentos na rota em 2022. Em 2025, esse número caiu para 39.880. A redução foi de cerca de 42% em três anos.
A combinação é explosiva para o consumidor: uma empresa domina a rota, reduz assentos e vende passagens mais caras justamente no período de maior procura. Em 2025, a ocupação média dos voos durante o festival chegou a 89,5% na ida e 91,8% na volta.
A ANAC admite o aumento, mas se declara sem poder para limitar preços. A agência afirma que o transporte aéreo brasileiro funciona sob liberdade tarifária. Também informa que não faz monitoramento específico de rotas operadas por apenas uma empresa.
Na prática, o órgão regulador acompanha dados gerais, publica painéis e deixa o passageiro entregue ao mercado. Para o amazonense, isso significa pagar o preço que aparecer na tela ou desistir da viagem.
A resposta também tenta relativizar a alta ao dizer que parte dos bilhetes foi comprada por valores menores. Mas o próprio documento confirma que, em 2025, a tarifa máxima comercializada no mês do festival passou de R$ 5 mil por trecho. Também mostra que 14,68% dos bilhetes vendidos em junho ficaram acima de R$ 3 mil.
O argumento da antecedência também ignora a realidade amazônica. Nem todo morador consegue comprar passagem meses antes. Muitos dependem de escala de trabalho, limite no cartão, salário do mês ou confirmação de agenda no próprio festival.
A situação ganha contornos ainda mais delicados porque a Azul mantém relação comercial e institucional com os bois de Parintins. A empresa aparece como parceira do festival e oferece patrocínios em forma de passagens. Para críticos, esse tipo de apoio funciona como um cala-boca simbólico: ajuda os protagonistas da festa, mas não resolve o abuso sentido pelo público.
O problema não está apenas no valor da passagem. Está na falta de defesa concreta do consumidor amazônida diante de um mercado sem concorrência real. O Festival de Parintins é patrimônio cultural, movimenta a economia e projeta o Amazonas para o mundo, mas o acesso aéreo virou privilégio de poucos.
A ANAC informou que encontrou apenas uma reclamação formal sobre preços da rota Manaus-Parintins ligada ao festival nos últimos cinco anos. O dado contrasta com a indignação recorrente nas redes sociais, nos grupos de torcedores e entre moradores que desistem da viagem pelo preço.
A própria agência admite que a busca pode deixar registros de fora. O método depende de palavras-chave usadas nas reclamações. Ou seja, o silêncio dos sistemas oficiais não significa ausência de sofrimento. Significa, muitas vezes, distância entre o Estado e o cidadão comum.
Amom Mandel afirma que vai seguir cobrando providências da ANAC, do Ministério de Portos e Aeroportos e dos órgãos de defesa da concorrência e do consumidor. O parlamentar quer medidas para ampliar a oferta, atrair novas empresas e impedir que o festival seja capturado por tarifas excludentes.
O caso deixa uma conclusão incômoda. No Amazonas, o brasileiro da floresta, das cidades isoladas e dos grandes rios continua indefeso diante da lógica do lucro. Quando só uma empresa voa, o preço dispara. Quando o preço dispara, a cultura fica mais longe do próprio povo que a sustenta.
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