19/JUN 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Azul monopoliza rota e passagem para Parintins dispara

Publicado em 19 de junho, 2026

Foto: Divulgação

A Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC) confirmou, em resposta ao gabinete do deputado federal Amom Mandel (Republicanos-AM), que a Azul e sua subsidiária Azul Conecta dominam integralmente a rota Manaus-Parintins-Manaus desde 2025. O dado expõe um cenário grave para o Amazonas: menos concorrência, menos assentos e passagens cada vez mais caras no período do Festival de Parintins.

A resposta da agência mostra que a tarifa média no mês do festival mais que dobrou entre 2022 e 2025. Saiu de R$ 663,35 para R$ 1.352,19 por trecho, em valores corrigidos pelo IPCA. Na prática, uma viagem de ida e volta que antes ficava na casa de R$ 1,3 mil pode superar R$ 2,7 mil pela média oficial. Em ofertas encontradas para 2026, o valor chega a R$ 4,7 mil por trecho, quase R$ 9,5 mil ida e volta.

O caso é ainda mais duro porque o transporte aéreo é uma das poucas alternativas rápidas para chegar à Ilha Tupinambarana. A viagem de barco pode durar muitas horas. Para trabalhadores, artistas, famílias e turistas amazonenses, o avião deixou de ser opção de mobilidade e passou a ser artigo de luxo.

A ANAC reconhece que, em 2025, a Azul concentrou 99,8% dos passageiros pagos na rota. A Azul Conecta ficou com os 0,2% restantes. Ou seja, o mercado ficou fechado, na prática, dentro do mesmo grupo empresarial. A Gol fez voos pontuais em 2024, mas saiu da rota.

O documento também revela que a oferta de assentos despencou. A Azul ofereceu 69.266 assentos na rota em 2022. Em 2025, esse número caiu para 39.880. A redução foi de cerca de 42% em três anos.

A combinação é explosiva para o consumidor: uma empresa domina a rota, reduz assentos e vende passagens mais caras justamente no período de maior procura. Em 2025, a ocupação média dos voos durante o festival chegou a 89,5% na ida e 91,8% na volta.

A ANAC admite o aumento, mas se declara sem poder para limitar preços. A agência afirma que o transporte aéreo brasileiro funciona sob liberdade tarifária. Também informa que não faz monitoramento específico de rotas operadas por apenas uma empresa.

Na prática, o órgão regulador acompanha dados gerais, publica painéis e deixa o passageiro entregue ao mercado. Para o amazonense, isso significa pagar o preço que aparecer na tela ou desistir da viagem.

A resposta também tenta relativizar a alta ao dizer que parte dos bilhetes foi comprada por valores menores. Mas o próprio documento confirma que, em 2025, a tarifa máxima comercializada no mês do festival passou de R$ 5 mil por trecho. Também mostra que 14,68% dos bilhetes vendidos em junho ficaram acima de R$ 3 mil.

O argumento da antecedência também ignora a realidade amazônica. Nem todo morador consegue comprar passagem meses antes. Muitos dependem de escala de trabalho, limite no cartão, salário do mês ou confirmação de agenda no próprio festival.

A situação ganha contornos ainda mais delicados porque a Azul mantém relação comercial e institucional com os bois de Parintins. A empresa aparece como parceira do festival e oferece patrocínios em forma de passagens. Para críticos, esse tipo de apoio funciona como um cala-boca simbólico: ajuda os protagonistas da festa, mas não resolve o abuso sentido pelo público.

O problema não está apenas no valor da passagem. Está na falta de defesa concreta do consumidor amazônida diante de um mercado sem concorrência real. O Festival de Parintins é patrimônio cultural, movimenta a economia e projeta o Amazonas para o mundo, mas o acesso aéreo virou privilégio de poucos.

A ANAC informou que encontrou apenas uma reclamação formal sobre preços da rota Manaus-Parintins ligada ao festival nos últimos cinco anos. O dado contrasta com a indignação recorrente nas redes sociais, nos grupos de torcedores e entre moradores que desistem da viagem pelo preço.

A própria agência admite que a busca pode deixar registros de fora. O método depende de palavras-chave usadas nas reclamações. Ou seja, o silêncio dos sistemas oficiais não significa ausência de sofrimento. Significa, muitas vezes, distância entre o Estado e o cidadão comum.

Amom Mandel afirma que vai seguir cobrando providências da ANAC, do Ministério de Portos e Aeroportos e dos órgãos de defesa da concorrência e do consumidor. O parlamentar quer medidas para ampliar a oferta, atrair novas empresas e impedir que o festival seja capturado por tarifas excludentes.

O caso deixa uma conclusão incômoda. No Amazonas, o brasileiro da floresta, das cidades isoladas e dos grandes rios continua indefeso diante da lógica do lucro. Quando só uma empresa voa, o preço dispara. Quando o preço dispara, a cultura fica mais longe do próprio povo que a sustenta.

#Amazonas #Parintins #FestivalDeParintins #Azul #ANAC #AmomMandel #AviaçãoRegional

Veja mais notícias em Parintins

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.