
A paixão por Caprichoso e Garantido permanece intacta, mas a nova geração pouco conhece a história dos bumbás. (Fotos: Elinaldo Tavares)
Peta Cid
Especial para o Portal do Marcos Santos
O Festival de Parintins encanta gerações com sua magia, suas cores, a pavulagem do povo, alegorias gigantes, efeitos visuais e apresentações cada vez mais tecnológicas que seguem atraindo milhares de jovens para as arquibancadas e redes sociais.
A paixão pelos bois Caprichoso e Garantido permanece intacta, mas um questionamento surge em meio a esse cenário, se a nova geração conhece a história que construiu o espetáculo que tanto admira ou curte nas redes.
Ao longo dos anos, nas centenas de reportagens e textos publicados, se fala muito dos ensinamentos passados de pai para filho e da cultura que se perpetua de geração em geração. Mas já não se pode afirmar que isso ainda acontece na prática.
O Portal Marcos Santos ouviu adolescentes apaixonados pelos bois de Parintins, porém as respostas acenderam um sinal de alerta. Os jovens demonstram grande entusiasmo ao falar de Caprichoso e Garantido, conhecem toadas que estão em alta, acompanham os itens mais populares, decoram coreografias que viralizam nas redes sociais e sabem identificar rapidamente os momentos mais impactantes das apresentações. No entanto, quando questionados sobre personagens fundamentais da história do festival, o cenário muda e surpreende.
Ícones que marcaram a história, personagens que ajudaram a construir o festival como espetáculo são desconhecidos pela geração TikTok. Nomes como Paulinho Faria, Jair Mendes, Arlindo Júnior, Emerson Maia, Juarez Lima, referências que marcaram épocas e ajudaram a construir a identidade cultural dos bois-bumbás, são pouco conhecidos por jovens entre 16 e 22 anos. Alguns, os mais velhos, sabem pouco sobre eles, porém a maioria nunca ouviu falar.
Pérola Dianá Barros do Santos, 16, envolvida diretamente na torcida do Garantido, falou com entusiasmo de fazer parte do boi. “Eu sou item 19, o passado do boi foi uma alavanca pra tudo que a gente conhece do Norte, não era só um garoto com um cesto na cabeça fingindo que era o boi, era um garoto dando início a uma história muito maior”, disse ela. Mas ao ser perguntada sobre Emerson Maia, um dos maiores compositores vermelhos, a resposta foi sincera. “Cara, não vou saber citar agora, de cabeça não sei muito bem”.
As irmãs Camila Carmo, 23, e Karina Carmo, 21, e a amiga delas Ana Clara 26, são outros exemplos.
Camila, a mais velha, contou sobre a história do Caprichoso, seus fundadores e disse que o boi foi feito por muitas mãos. Aos 23 anos, Camilla sabia quem foi Arlindo Júnior. “O Arlindo Júnior foi o Pop da Selva, apresentador, levantador, foi tudo no boi. Tem até a frase dele – sou azul até morrer – e dito e certo, ele foi azul até morrer”, confirmou. Já a irmã dela, Karina Carmo, 21, tingiu mechas no cabelo para demonstrar o amor pelo Garantido. “O Garantido nasceu na Baixa por Lindolfo Monteverde”, contou. Mas ao perguntada sobre Emerson Maia, ela disse que não vinha na memória. E sobre Paulinho Faria, ela respondeu: “o Paulinho foi levantador de toadas e compositor”. Ela não sabia que ele foi o maior ícone do Garantido como apresentador.
A amiga da família, Ana Clara, 23, disse que agora que está buscando mais conhecimento sobre o boi, mas vai se dedicar de corpo e alma.
Os amigos Rodrigo de Almeida, 18, Luan Gomes dos Santos, 17, Ítalo Almeida, 17, também responderam que não sabem quem foi Jair Mendes, Arlindo Júnior, ou Juarez Lima.
Vinicius Daniel de 18 anos falou bonito sobre a cultura e a festa belíssima em Parintins, mesmo tendo chegado há pouco tempo, vindo de Urucará. Já Azael Júnior de 16 anos, revelou que é apaixonado pelo Caprichoso, mas quando perguntado sobre Arlindo: “acho que ele foi o fundador que ajudou muito o Caprichoso”. De imediato o amigo Vinicius o corrigiu: “ eu ouvi falar que ele foi um dos grandes cantores do Caprichoso”.
A constatação revela uma mudança geracional na forma de consumir e vivenciar a cultura do boi. Se antigamente o conhecimento era transmitido naturalmente, principalmente pela família, dentro de casa, nas rodas de conversa nas calçadas, ou pela convivência direta com os artistas e fazedores do festival, hoje, boa parte do contato dos jovens acontece por meio das redes sociais, especialmente conteúdos rápidos, vídeos curtos e tendências que surgem e desaparecem em poucos dias.
Mas, os adolescentes de Parintins não deixam de valorizar o Festival. Pelo contrário. Muitos demonstram paixão genuína pelos bois, participam das galeras, acompanham os ensaios e sentem orgulho de representar suas cores.
O que acontece de fato é com relação à memória do festival. O que é atual, visual e viral ganha destaque. O que pertence ao passado nem sempre chega até eles.
A geração TikTok nasceu em berços azuis ou vermelhos, brincam de boi desde criança, nas escolas, nos festivais, com no Festival dos Bois Mirins que encantou o público na noite de domingo, 14. São jovens que vibram com as apresentações, compartilham vídeos e transformam momentos do festival em fenômenos digitais. Mas, as conversas mostram que ainda existe uma boa distância entre admirar o espetáculo e conhecer as pessoas que ajudaram a transformá-lo em um dos maiores eventos culturais do Brasil.
O futuro do Festival de Parintins depende da capacidade de quem pode contribuir na formação dos jovens, para que o festival continue a encantar, gerar renda e ser a mola propulsora de desenvolvimento.
No entanto, toda a magia da festa também precisa enxergar que o futuro pode estar na preservação da memória. Ninguém consegue entender a grandiosidade do presente, se não conhecer aqueles que fizeram a história acontecer.