
Unanimidade de Roberto Cidade redesenha forças na política do Amazonas
A eleição indireta realizada nesta segunda-feira (4) pela Assembleia Legislativa do Amazonas produziu mais do que a escolha de um governador interino. Produziu um fato político de enorme dimensão: a unanimidade.
Roberto Cidade foi eleito governador do Amazonas com os 24 votos possíveis da Assembleia Legislativa. Nenhuma abstenção. Nenhum voto divergente. Nenhum gesto simbólico de resistência.
Num Parlamento marcado historicamente por disputas internas, rivalidades pessoais e alinhamentos muitas vezes instáveis, o resultado transformou a eleição indireta numa demonstração explícita de força política.
Ao lado do vice-governador eleito, Serafim Corrêa, Roberto Cidade assumirá o comando do Estado até janeiro de 2026.
Até poucas horas antes da sessão, havia dúvidas reais sobre dois votos.
O primeiro era o do deputado Daniel Almeida, irmão do ex-prefeito de Manaus, David Almeida. Daniel havia sinalizado possibilidade de abstenção e chegou a declarar publicamente que poderia não participar do processo.
A segunda dúvida envolvia a legalidade da participação da suplente Professora Jaqueline, convocada para ocupar temporariamente a vaga deixada por Roberto Cidade, licenciado da presidência da Aleam para assumir interinamente o Governo do Estado.
A Procuradoria Jurídica da Assembleia entendeu que a posse da suplente era válida e que ela poderia votar normalmente.
Resultado: plenário completo, 24 cadeiras ocupadas e 24 votos na chapa 2.
A unanimidade desta segunda-feira não nasceu agora.
Ela começou a ser construída há cerca de seis anos, quando Roberto Cidade protagonizou um episódio raro — quase inédito — na política amazonense: uma rebelião da Assembleia Legislativa contra o governador do Estado.
Naquele momento, Cidade foi eleito presidente da Aleam numa articulação considerada de oposição ao então núcleo político do governo Wilson Lima.
A vitória expôs a fragilidade da articulação política do Executivo dentro da própria base parlamentar.
Até então, o governo era coordenado politicamente pelo então vice-governador Carlos Almeida, defensor público que concentrava grande parte das decisões administrativas e institucionais do governo.
Wilson Lima aparecia pouco. Carlos Almeida exercia, na prática, um papel de primeiro-ministro.
A rebelião legislativa mudou completamente essa estrutura. Wilson afastou Carlos Almeida do centro do poder, desmontou o modelo anterior e reassumiu diretamente o comando político do governo.
A partir dali, iniciou-se também uma aproximação gradual entre Wilson Lima e Roberto Cidade.
O segundo mandato de Wilson Lima já nasceu em outro ambiente político.
O vice-governador passou a ser Tadeu de Souza, indicado por David Almeida.
Tadeu chegou a afirmar publicamente diversas vezes que não renunciaria ao cargo, pois sonhava se tornar governador e disputar a reeleição já no exercício do mandato.
Mas, na reta decisiva do processo político deste ano, ocorreu o movimento inesperado. Tadeu renunciou.
A decisão abriu caminho para que Roberto Cidade, como presidente da Assembleia, assumisse interinamente o Governo do Estado e disputasse a eleição indireta.
O resultado desta segunda-feira mostrou que Cidade não apenas ocupou circunstancialmente o espaço. Consolidou liderança.
A unanimidade que atravessou adversários
O dado mais expressivo talvez não seja apenas o placar. É quem votou nele.
O Partido dos Trabalhadores lançou chapa própria, mas o deputado Sinésio Campos votou em Roberto Cidade.
O grupo político de David Almeida também acompanhou a chapa vencedora.
A deputada Alessandra Campelo, frequentemente citada como possível vice numa futura chapa de Omar Aziz ao Governo do Estado, também integrou a construção da eleição.
No fim, adversários, aliados históricos, independentes e grupos divergentes convergiram para o mesmo voto.
Na política, unanimidade raramente significa ausência de conflito. Significa percepção de força.
O próximo movimento
A posse de Roberto Cidade e Serafim Corrêa está prevista para esta segunda-feira, às 17h, provavelmente na própria Assembleia Legislativa.
O mandato vai até janeiro de 2026. Mas, politicamente, o calendário relevante é outro: outubro.
Dentro do ambiente político amazonense praticamente não há dúvida de que Roberto Cidade entra definitivamente no jogo sucessório estadual como candidato competitivo ao Governo do Amazonas.
A unanimidade desta segunda-feira não encerra uma disputa. Provavelmente marca apenas o início dela.
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