
Mostra ‘Vidas Interrompidas’ marca abertura da 32ª Semana Justiça pela Paz em Casa
Como parte da programação da 32ª. Semana da Justiça pela Paz em Casa, o Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas (TJAM), por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid) e dos Juizados Especializados no Combate à Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher da capital, inaugurou na manhã desta sexta-feira (27), a mostra “Vidas Interrompidas: Feminicídio, Gênero e Justiça”, iniciativa que convida a sociedade a refletir sobre as raízes e os impactos da violência letal contra mulheres.
A exposição pode ser apreciada no hall do Fórum Ministro Henoch Reis, bairro São Francisco, zona Sul de Manaus, pelo período de 27 de fevereiro a 13 de março.
“A mostra consiste em banners que trazem informações contextualizadas acerca dessa temática da violência. O objetivo é trazer informações sobre o feminicídio e sensibilizar a sociedade para esse fenômeno que é tão complexo e revela o auge da violência de gênero. Os números são preocupantes”, afirmou a assistente social Deniglesia Lima Nascimento, que integra a equipe multidisciplinar do 1º e 4º Juizados Maria da Penha, e atuou na criação da inciativa.
De acordo com a assistente social do 1º e 4.º Juizados Maria da Penha, Celi Cristina Nunes Cavalcante, a iniciativa, que integra as ações da Semana Justiça pela Paz em Casa, reforça que o feminicídio é um crime evitável. Reconhecer os sinais precoces da violência, garantir escuta qualificada, conceder e fiscalizar medidas protetivas e atuar de forma integrada são medidas fundamentais para salvar vidas.
A programação é aberta ao público e busca envolver magistrados, servidores, estudantes e a sociedade em geral na construção de uma cultura de prevenção, respeito e igualdade de gênero.
“A Mostra tem como objetivo promover uma reflexão qualificada sobre o feminicídio e as tentativas de feminicídio, compreendidos como formas extremas da violência baseada no gênero. A proposta destaca que o feminicídio não é um fato isolado ou imprevisível, mas, na maioria das vezes, o desfecho de um ciclo de violências reiteradas, desigualdades estruturais e relações marcadas por poder e controle”, afirma a assistente social.
De acordo com dados apresentados na exposição, mais de 11,8 mil mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil desde 2015. Com taxa de 4,8 homicídios por 100 mil mulheres, o país figura entre os que registram maiores índices de assassinatos femininos no mundo, conforme levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS).
A Mostra também contextualiza os avanços legislativos no enfrentamento à violência de gênero, como a Lei Maria da Penha (Lei n.º 11.340/2006), a Lei do Feminicídio (Lei n.º 13.104/2015) e a Lei n.º 14.717/2023, que institui pensão especial para filhos e dependentes menores de 18 anos de mulheres vítimas de feminicídio. Também são destacados instrumentos recentes, como o Pacto Nacional de Enfrentamento ao Feminicídio.
Um dos eixos centrais da exposição é a compreensão de que o feminicídio não começa com a morte. Ele é precedido por diferentes formas de violência — psicológica, física, sexual, moral e patrimonial — que se repetem em ciclos de tensão, agressão e reconciliação.
A Mostra alerta para momentos de maior risco, como tentativas de separação, descumprimento de medidas protetivas, gravidez ou retomada do convívio com o agressor. O conteúdo também chama atenção para o impacto da minimização da violência, da ausência de respostas rápidas e da desarticulação da rede de proteção, fatores que aumentam o risco letal.
No contexto estadual, dados da Secretaria de Segurança Pública indicam que, em 2025, foram registradas 35.037 ocorrências de violência contra mulheres no Amazonas e 20 casos de feminicídio — o menor número desde 2021. Apesar da redução da letalidade, a violência doméstica permanece ampla e recorrente.
A Mostra ressalta ainda os desafios específicos da região amazônica, como grandes distâncias geográficas, isolamento de comunidades e barreiras culturais que podem dificultar o acesso das vítimas à rede de proteção e ao sistema de Justiça.
Outro ponto abordado é a realidade dos órfãos do feminicídio. Estimativas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que esses crimes deixam mais de dois mil órfãos por ano no país. A exposição destaca que a violência não se encerra com a morte da mulher, mas produz consequências duradouras para crianças e adolescentes, que muitas vezes perdem ambos os genitores — seja pela morte, prisão ou ruptura dos vínculos familiares.
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