20/JUL 2026
Jornalista responsável: Marcos Santos

Carnaval ganha espaço como campo estratégico de pesquisa e formulação de políticas culturais

Publicado em 16 de fevereiro, 2026

Foto: Filipe Araújo/MinC

Muito além da festa que mobiliza milhões de pessoas, o Carnaval brasileiro se consolida como campo estratégico de produção de conhecimento, formulação de políticas públicas e desenvolvimento social. E, cada vez mais, essa leitura que reposiciona a maior manifestação cultural do país, é fruto de estudos que nascem da vivência direta nos territórios do samba.

“Para cada pessoa que brilha na avenida, existem centenas de trabalhadores nos barracões e nos bastidores garantindo o sustento de suas famílias. Nossa missão é valorizar essas trajetórias, tratando o Carnaval não como um gasto sazonal, mas como um um investimento em política pública contínua de desenvolvimento e inclusão social”, evidencia o secretário-executivo do Ministério da Cultura, Márcio Tavares.

Referência no campo da pesquisa e produção de conhecimento, Rafaela Bastos, pesquisadora, gestora pública, atual presidente do Instituto Fundação João Goulart, da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, e vice-presidente de Projetos Especiais da Estação Primeira de Mangueira, construiu uma trajetória que transita entre a avenida, a pesquisa e a formulação de políticas públicas. A vivência no Carnaval foi o ponto de partida para uma produção consistente de estudos sobre o setor. O primeiro foco da pesquisadora foi a figura da mulher passista, a partir da observação de vieses e preconceitos que atravessaram sua própria trajetória profissional.

“Eu fui passista da Mangueira por treze anos, depois musa da comunidade por dez anos e, hoje, sou vice-presidente de Projetos Especiais da escola, vivências muito distintas daquelas que geralmente aparecem na televisão, mas que me formaram profundamente”, afirma. “O samba no pé sempre esteve muito associado a estereótipos femininos. Ainda assim, essas experiências me potencializaram. São escolhas que fiz na vida, que fizeram sentido para mim e que valorizo até hoje”.

A partir delas, Rafaela passou a refletir sobre os impactos desses estereótipos em sua formação e em suas escolhas profissionais, o que deu origem a novas pesquisas. “Quando comecei como passista, eu queria ser geógrafa e percebia que havia uma dinâmica de preconceito que poderia interromper a minha carreira ou me obrigar a escolher entre ser passista e ser profissional”, relembra.

Essa inquietação deu origem à pesquisa sobre a objetificação sexual da mulher passista na Marquês de Sapucaí, reconhecida nacionalmente e premiada, em 2017, com a Medalha Rui Barbosa, uma das mais importantes condecorações da cultura brasileira, concedida a pessoas e instituições que se destacam na defesa da cultura, da democracia, da diversidade e da preservação da memória nacional.

“Ali eu entendi que, mesmo dando o melhor de mim, meus desejos profissionais poderiam não se realizar. Não por minha causa, mas por estruturas de machismo e racismo. Foi isso que me fez assumir um compromisso público com o Carnaval e com as mulheres que fazem essa festa acontecer”, afirma.

A partir de 2016, seus estudos avançaram para o campo da economia do Carnaval, incorporando análises de macroeconomia, microeconomia, economia circular e impacto econômico.“Eu fui entendendo o Carnaval como um ecossistema produtivo complexo, que envolve cadeias de produção, serviços, circulação de cultura e geração de emprego e renda”, explica. “Uma escola do grupo especial vende cultura para outras escolas, para outros estados e até para outros países. Isso é economia criativa em funcionamento.”

Políticas culturais

Entre 2017 e 2021, Rafaela aprofundou a análise sobre o processo de tomada de decisão de investidores carnavalescos e a relação das escolas de samba com mecanismos de fomento, como a Lei Rouanet. “Analisei quanto as escolas solicitavam, quanto era aprovado e quanto, de fato, conseguiam captar. Isso ajuda a entender gargalos, desafios e oportunidades para políticas públicas mais eficazes”, destaca.

Para ela, um dos principais desafios enfrentados pelo setor é a falta de reconhecimento institucional das atividades econômicas ligadas ao Carnaval.

“O problema é anterior à invisibilização. É a não categorização. O Carnaval ainda é precarizado e informalizado enquanto atividade econômica”, afirma. Compreender o Carnaval como política pública estruturante, avalia, é essencial para avançar nesse debate. “O Carnaval existe há mais de um século, movimenta a economia criativa e a economia da cultura, mas ainda não é reconhecido como segmento econômico estruturado. Essa é a minha luta atual”, resume.

Esse entendimento dialoga diretamente com a atuação do Ministério da Cultura, que vem aprofundando o olhar sobre o Carnaval como eixo estratégico do desenvolvimento cultural, econômico e social do país. Com esse objetivo, uma missão internacional de pesquisa de campo sobre Carnaval, economia criativa e valor público teve iníco no dia 6 de fevereiro. A cooperação entre o MinC e o Institute for Innovation and Public Purpose, instituição dirigida por Mariana Mazzucato, professora de Economia da Inovação e de Valor Público na University College London, percorreu o Rio de Janeiro, Brasília e Salvador.

“O Carnaval mostra como cultura não é um custo, mas um investimento que amplia capacidades produtivas, fortalece o bem-estar coletivo e gera valor público ao longo do tempo. O custo de não investir é muito maior do que o custo de agir”.

Segundo ela, o impacto social do carnaval vai muito além do caráter econômico. Trata-se de “coesão social, do senso de identidade e patrimônio”. “O que estamos vendo aqui é que o Carnaval produz um valor maior do que aquilo que costuma aparecer nas métricas. Ele gera coesão social, habilidades, redes, conhecimento e isso é investimento de longo prazo”, avalia.

Conscientização

Espaço de conhecimento, movimentação econômica e conscientização. O MinC integra o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial, ampliando o diálogo intersetorial. Nesse período de intensa circulação e ocupação dos espaços públicos, o Ministério atua para aproximar as políticas culturais das agendas de direitos humanos, reforçando a cultura como instrumento de proteção, cidadania e diversidade.

Conceito ampliado na fala da secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, Márcia Rollemberg. “Essa é uma das expressões mais vibrantes e transformadoras da diversidade cultural brasileira. É território de alegria, criação, encontro e afirmação de identidades, onde o povo ocupa as ruas e reafirma sua potência cultural. Justamente por essa força mobilizadora, é essencial afirmar que o Carnaval deve ser vivido com respeito, cuidado e compromisso com os direitos humanos”. A dirigente completa convocando gestores, artistas, blocos, coletivos culturais, produtores e toda a sociedade a assumirem o compromisso de fazer do Carnaval um espaço seguro, diverso e inclusivo em todos os territórios do país. “Esses valores estão no centro da política cultural que defendemos”, conclui.

Agência Gov

Veja mais notícias em Geral

RELACIONADAS

Portal do Marcos Santos
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.